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OS CHEFÕES NÃO POEM ESCAPAR DE NOVO, POR MOISÉS MENDES (*)


Os guardas das esquinas sabem quem organiza e financia os patriotas golpistas das estradas e do entorno dos quartéis em Alegrete, Jaú, Casca, Brusque, Imbituva, Cruz das Almas, Jaboticabal, Ipatinga. Guardas, amigos dos guardas, clientes dos guardas e ladrões afugentados pelos guardas sabem quem são os líderes endinheirados fomentadores do golpe em Mombaça, Ijuí, Lucas do Rio Verde, Palotina, Santiago e Joaçaba. Eles sabem quem ajudou a organizar as listas com nomes de lojas, donos de empresas, advogados, médicos, dentistas, eletricistas e prestadores de qualquer tipo de serviço que, por serem ligados ao ‘comunismo’, devem ser sabotados pela extrema direita. Em todas as cidades pequenas e médias, até os gatos de rua sabem quem se envolveu ou ainda se envolve na tentativa de golpe, não como bucha, grudado no para-brisa de um caminhão, mas como mandante incitador, por ter poder econômico e político. Sabem, mas teriam de provar. E investigar e provar crimes são tarefas para a polícia e o Ministério Público. Essa é a etapa mais desafiadora do enfrentamento da tentativa de golpe. O sistema de Justiça terá de funcionar na plenitude para obter provas e denunciar os chefes. Procuradores-gerais de Justiça dos Ministérios Públicos de São Paulo, Santa Catarina e Espírito Santo já disseram ao ministro Alexandre de Moraes que têm informações, e não só suspeitas, sobre os financiadores das arruaças. O chefe do MP de Santa Catarina, Fernando Comin, foi mais específico e disse publicamente, em entrevista, que pelo menos 12 empresários e agentes públicos foram identificados como financiadores e organizadores dos bloqueios nas estradas do Estado. Mas como identificar, enquadrar e denunciar o grande empresário patrocinador dos bloqueios e das redes de fake news, se ele geralmente age na retaguarda? E se, mesmo com provas de envolvimento até de veículos da empresa, o dono empurrar a culpa para um preposto? O nome do grandão não deve aparecer nas transferências de dinheiro via PIX. Essa é uma tarefa para os subalternos. Contrabandistas, sonegadores e envolvidos em lavagem de dinheiro quase sempre escapam do cerco do Ministério Público. Os milionários que financiam o golpe e chegam a fazer lives e a se expor em locais públicos em defesa dos atos fascistas não temem o MP. Porque o histórico é o da impunidade. Mas os guardas de esquina de cidades médias e pequenas sabem quem são eles. Poucos desses financiadores foram para as estradas e nenhum, pelo que se sabe, cometeu a ousadia de aparecer no entorno dos quartéis. Eles são parte das atividades da extrema direita desde a eleição de 2018 e foram acusados nas ações que tramitaram no TSE contra a chapa Bolsonaro-Mourão. Todos escaparam, de Bolsonaro aos financiadores das milícias que disseminavam notícias falsas e difamações. Mas o TSE e o Supremo podem se reabilitar. A fábrica de fake news e os organizadores dos atos antidemocráticos, articulados no gabinete do ódio, são parte da mesma engrenagem que acionou agora os bloqueios nas rodovias e as aglomerações nos quartéis. Estão ativos porque estão impunes. Pegar o bagrinho, o chinelão empurrado para a caçada aos comunistas, não resolve. Podem pegar uma dúzia de caminhoneiros e tios do zap e assustar o resto por uns dias. Sem pegar os chefões, a estrutura criminosa, na definição do próprio MP, será mantida e estará pronta a voltar a agir, como faz há mais de quatro anos. O guardinha de Itaqui sabe que os homens do dinheiro, os que incitam e comandam, por motivação econômica disfarçada de ideologia, são mais importantes do que operadores que vivem no mundo da Terra plana.


(*) Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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