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O silêncio de Sâmia Bomfim, por Moisés Mendes


'Os milicianos conseguiram o que deputados da extrema direita tentaram durante todo o ano. Os bandidos calaram a deputada' - 7 de novembro de 2023


O drama pessoal da deputada Sâmia Bomfim é único também pelo seu alcance político. Uma ativista dos direitos humanos e combatente de milícias, grileiros e do crime organizado é calada pelo assassinato do irmão por milicianos.


O Congresso perde com seu silêncio. Todos perdemos. Tiraram a voz de Sâmia, que decidiu pedir licença da atividade parlamentar por não conseguir falar. Mataram o médico irmão de Sâmia em circunstâncias que o mais cruel dos roteiristas de crueldades não conseguiria imaginar.


Matadores profissionais assassinaram Diego Bomfim por engano. E Sâmia, que tem na voz sem assombro a marca da imposição do que diz, foi finalmente calada.


Não há como esperar que a deputada pudesse retomar suas atividades políticas com a mesma vitalidade da combatente que sempre enfrentou os parlamentares cúmplices de bandidos do bolsonarismo.


Mataram o irmão de Sâmia quando pretendiam matar um deles, um dos milicianos. Poderiam ter matado um bandido da turma que corteja os Bolsonaros. Mesmo que fosse por engano, mas que fosse um bandido que está no jogo de guerra e morte que eles promovem.


Mataram o médico irmão da mulher que mete medo neles. Calaram Sâmia enquanto a ex-mulher do policial-miliciano Adriano da Nóbrega fala e conta, em documentário do GloboPlay, uma das últimas conversas que teve com o marido.


Júlia Lotufo diz com naturalidade, como se estivesse falando de algo banal, que o marido gostava mesmo de torturar. Foi o que Adriano disse a ela, quando perguntado sobre o que mais gostava de fazer como policial militar.


Adriano da Nóbrega, homenageado pelos Bolsonaros, com vínculos com a família, foi cercado e executado na Bahia em fevereiro de 2020. E a mulher fala do companheiro aparentemente sem traumas e filtros. Ele gostava de torturar.


A mulher do miliciano fala, e Sâmia não tem o que falar. Não agora. Calaram a deputada no ano da afirmação das vozes femininas, no mais fascista e machista de todos os Congressos, muito mais do que no tempo da ditadura.


Este é o ano de Eliziane Gama, Duda Salabert, Jandira Feghali, Erika Hilton, Fernanda Melchionna, Maria do Rosário, Talíria Petrone, Gleisi Hoffmann, Reginete Bispo. Seria o grande ano de Sâmia.


Ricardo Salles e Coronel Zucco tentaram calar Sâmia na CPI do MST. Outros machos bolsonaristas da mesma turma mandavam que ela ficasse quieta. E Sâmia não se calava.


E então os milicianos mataram o irmão de Sâmia. Calaram a deputada porque não há força capaz de fazê-la voltar a dizer o que dizia quando afrontava o fascismo. Não agora.


Sâmia não consegue falar dos grileiros, dos garimpeiros, dos golpistas, mas Salles e Zucco continuam falando em defesa dos seus.


No roteiro macabro do fascismo brasileiro, milicianos matam por engano o irmão de uma deputada que os combate. E Sâmia se cala, enquanto Michelle faz discursos em cultos neopentecostais.


Temos uma brava deputada sem forças e sem fala, enquanto a extrema direita fala sem parar. Falam, ameaçam, dizem que voltarão, desafiam o sistema de Justiça.


Mas em algum momento Sâmia Bomfim voltará a falar, quando muitos deles estarão na cadeia. Enquanto a deputada busca forças, nós estaremos com os que falam por ela".




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