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O PARADIGMA DA COOPERAÇÃO

por Nora Prado (*)


Numa dessas noites, assistindo o canal Curta, tive a sorte de ver dois dos episódios de uma série documental sobre a Consciência. Com depoimentos de biólogos, psicanalistas, antropólogos, historiadores e filósofos, entre outros, a questão do que significa a consciência é discutida de uma forma ampla atravessando toda a civilização humana. Numa tentativa de responder a essa intrigante e complexa pergunta nos deparamos com o ponto quase sem volta, no qual chegamos em poucas décadas, exercendo o capitalismo selvagem, a ocupação do solo de forma abusiva, esgotando os recursos naturais das florestas, rios e oceanos, além de uma industrialização e consumo insaciável com impactos profundos sobre a terra e a atmosfera no planeta.

ilustração: Alexandre Costa


A poluição atingiu níveis catastróficos, há buracos na camada de ozônio, milhões de plásticos e derivados nos oceanos e nos estômagos de animais marinhos e aves, florestas devastadas pelas queimadas para comércio ilegal de madeira, mineração clandestina ou agricultura e criação de gado, níveis altíssimos de gases tóxicos na atmosfera produzindo o efeito estufa e o aquecimento global, poluição e degelo das calotas polares, espécies animais em extinção ou em superpopulação.


Esse caos ambiental reflete um colapso do sistema capitalista de exploração dos recursos ambientais e da exploração do homem pelo homem. Em sua ganância e egoísmo estruturais esse modelo de gestão econômica e política chegou no seu limite deixando um rastro de desolação ecológica e milhões de miseráveis ao redor do planeta. As guerras, como consequência direta desse sistema de exploração abusivo dos recursos dos países mais ricos sobre os mais pobres é outro efeito colateral seríssimo dessa escravidão absurda. E pensar que toda essa desgraça foi naturalizada pelo paradigma da competição e da meritocracia, em voga, desde a fundação dos estados europeus até a consolidação dos Estados Unidos como superpotência econômica.


Estamos pagando com a vida os custos dessa anomalia, especialmente agora, com a disseminação da pandemia de covid-19 por todo o planeta. Com as novas cepas, ainda mais resistentes e letais, deixaram o mundo de quarentena há mais de um ano e sem previsão para o retorno das atividades e a normalidade. Embora a corrida pela descoberta e aperfeiçoamento das vacinas tenha chegado em tempo recorde, o processo de vacinação em massa tenha sido bem-sucedido em Israel e países europeus, diversos países, como o Brasil, Venezuela e tantos outros do continente africano, não tem a mesma sorte. A má gestão da pandemia pelo nosso governo é, sem dúvida, a principal responsável pela disseminação veloz da doença e a sua alta mortalidade que atingiu ao escandaloso número de 270.000 mortes. Sem medidas de restrição e controle severo da pandemia, com distanciamento social garantido e o uso de máscaras obrigatório, aliado ao desorganizado e moroso plano de vacinação em massa, assistimos esse filme macabro se desenrolar, cada dia pior, frente aos nossos olhares abismados.


Na verdade esse espetáculo dramático é somente a ponta de iceberg do modelo capitalista amplamente difundido e que deu mostras de culminar num esgotamento e falência sem precedentes. É preciso buscar alternativas viáveis se quisermos seguir existindo enquanto espécie. A saída está no fomento e prática da economia circular sustentável na qual os recursos hídricos e terrestres sejam usados com eficiência e sabedoria, numa outra lógica menos abusiva, em harmonia com a natureza.


Aliás, como bem mostra o documentário, a natureza trabalha sempre em cooperação. Nas florestas maduras, por exemplo, cada árvore sabe exatamente onde e quando parar de crescer para que as suas folhas, galhos e ramos não invadam o espaço das outras árvores. De modo a garantir arejamento e luz solar para todas. Além disso, elas se comunicam através das raízes numa rede de apoio mútuo umas com as outras. As árvores maiores, que conseguem reter mais água, a distribuem para as árvores menores facilitando e garantindo que a umidade chegue em todas as suas irmãs. Os modelos da atividade cooperativa de uma colmeia e um formigueiro, dão a medida exata desta disposição para a sustentabilidade e preservação do grupo, num belíssimo exemplo de trabalho em equipe. Assim como as aves migram em conjunto e os cardumes de peixes menores vivem juntos, facilitando a sua sobrevivência, a espécie humana precisa progredir do modelo competitivo, incentivado nos séculos anteriores até o momento, e substituí-lo pelo modelo cooperativo.


Sensibilidade, empatia, solidariedade e compaixão fazem parte da gama de sentimentos que sustentam o cerne deste novo paradigma que precisa urgentemente ser absorvido e implementado pelas nações, sob pena eminente do desaparecimento da família humana da face da terra. Como bem disse o líder indígena, Ailton Krenak, é mais fácil o planeta se livrar da raça humana antes que o ser humano liquide com o planeta. Pelo número crescente de catástrofes ambientais esse processo de autopreservação da natureza já começou e, é mais prudente que aprendamos essa lição de cooperação antes que seja tarde demais.


O desapego de valores obsoletos e individualistas é uma das exigências para entrarmos de acordo neste novo pacto de sustentabilidade, mas precisamos saber se estamos dispostos a pagar este preço. Pessoalmente eu o considero uma dádiva, resta a saber se a maioria prefere renunciar aos seus privilégios em nome de um bem maior, da vida mais harmônica e sustentável no planeta terra.


Se a consciência, dentre as inúmeras significações possíveis, representa a capacidade de observar a realidade, com distanciamento crítico, e discernir as melhores escolhas, acredito que o novo paradigma para os novos tempos será baseado na cooperação entre os povos. Afinal, somos todos humanos e vivemos na mesma casa. Tratar bem dela, com respeito e sabedoria, depende o nosso futuro.


Porto Alegre, 10 de março de 2021.


* Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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