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O ENEM? TOMOU DORIL

por Claudia Schiedeck (*)

Dificilmente um texto começa pelo título. São as regras básicas do escrever. Depois de pronto, relemos tudo e o colocamos em destaque, acima das palavras. Mas regras foram feitas para serem quebradas, ou ao menos questionadas. E essa coluna começou por ele: o título.


Estava esperando passar os dois fins de semana do Exame Nacional do Ensino Médio para trazer algumas considerações sobre a prova, que foi a Rainha do Baile durante a gestão Lula/Haddad. Em 2009, o ENEM foi reestruturado para também servir como avaliação para ingresso nos cursos de graduação. Foi amado por uns e odiado por outros. Foi sabotado, não tenho dúvidas, por ter enfrentado uma das castas mais enraizadas dentro das Instituições de Ensino Superior: o daqueles que faziam questões, organizavam a logística, desenvolviam programas de TI. Enfim, os vestibulares das instituições consumiam milhões de reais e ajudavam a proliferar fundações de apoio especializadas em processos seletivos. Nem vou comentar o conteúdo de cada prova, que era estabelecido por deuses do Olimpo de cada departamento. Sei bem o impacto retroativo que o Vestibular das Universidades Federais tinha na cabeça dos nossos estudantes de ensino médio, que vivam pedindo para que nós, professores, os ‘treinássemos’ na prova. Minha dissertação de mestrado foi sobre o tema.


Goste-se ou não, o ENEM revolucionou a forma como se olhava o ingresso no Ensino Superior. Mudou os tipos de problemas a serem resolvidos, trouxe o cotidiano para a avaliação, integrou conteúdos, permitiu que qualquer professor habilitado e credenciado pudesse participar da prova enviando suas propostas para um Banco de Questões. Mesmo com todos os ataques que sofreu, o Exame se consolidou.


Contudo, atualmente, assim como o MEC, o ministro da educação e outras políticas públicas da época de Haddad, o ENEM tomou Doril. Todos (da minha idade) vão lembrar da famosa propaganda do remédio: dor de cabeça? Tomou Doril, a dor sumiu.


O governo Bolsonaro vem se especializando nisso.


As políticas educacionais desenvolvidas pelo governo do PT, implantadas majoritariamente por Haddad, são uma dor de cabeça para um desgoverno que não tem planejamento, nem organização, e, claro, nem propostas. O ENEM, o SISU, os IFs, as Universidades Federais, a Lei de Cotas, o FUNDEB, entre tantos outros programas e ações, ainda são vitrines de um projeto educacional que deu certo (não sem as suas contradições). Ficam lá em exposição, dia e noite, lembrando ao pífio Ministro da Educação, Milton Ribeiro, e seu patético presidente, o que é ser propositivo, o que é ser democrático, o que é ser um gestor. E, claro, como todos sabem, Bolsonaro, na sua primariedade infantil, não suporta competição. Muito menos com seu inimigo político, que teve a ousadia de disputar a eleição de 2018 contra ele.


Então, o que ele faz? Dor de cabeça, tome doril.


Em número de candidatos, o menor ENEM desde 2011. Foi feito sob medida para o momento de pandemia que assola nossas casas e mentes. Uma abstenção recorde, problemas de organização, de salas, de datas (por muito menos, uma mídia raivosa pedia a cabeça de Haddad em 2010). Um tema de redação sem sal, sem gosto. Não questiono a relevância do tema, mas, na minha avaliação, desconectado da premência conjuntural que invade os noticiários do país e que necessita reflexão urgente. Ou seja, o melhor para sumir com o ENEM é enfraquecê-lo por dentro. Quanto menor a polêmica, menor a repercussão e, portanto, menor a exposição da fragilidade institucional de quem não sabe nem por onde começar. Um Doril a cada seis ou oito horas e tudo vai se resolvendo.


Se por um lado é desesperador ver que o esforço de muitos para mudar o cenário educacional do país vem sendo solapado por um bando de ‘famosos quem’, sem qualquer bagagem acadêmica, por outro me conforta saber que ainda temos a potência de ser dor de cabeça. Enquanto isso, o Ministro da Educação, do alto da sua alta experiência como pesquisador e educador (contém ironia), declara que seu papel é mais espiritual do que político e vai tratando de sumir com o que foi realizado nos últimos 16 anos.


É mais difícil encerrar o texto do que foi começar. Há tanto para ser dito e tanto para ser exorcizado, que a folha de papel se torna pequena. Talvez tenhamos que fazer da transgressão de pequenas regras, como a do título por último, nosso laboratório para sermos enxaqueca em vez de sermos apenas dor de cabeça. Precisamos de pequenos atos revolucionários para esperançar. Para isso, temos que evitar o doril. Como? Cada um tem sua receita própria.


E eu? Continuo escrevendo de sopetão, a partir do título. (*) Claudia Schiedeck é ex-reitora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS).

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