O BRASIL NO MAPA DA FOME: UMA HISTÓRIA DE CONQUISTAS E DESMONTES
- Alexandre Costa

- 21 de jul.
- 9 min de leitura
por Alexandre Costa | jornalista

A fome nunca desaparece por acaso. Tampouco surge da noite para o dia. Ela acompanha escolhas econômicas, prioridades de governo, crises sociais e a capacidade — ou incapacidade — do Estado de garantir um direito humano básico: o acesso regular à alimentação.
Em pouco mais de uma década, o Brasil viveu uma trajetória rara na história recente do combate à fome. Em 2014, tornou-se referência internacional ao deixar, pela primeira vez, o Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Poucos anos depois, voltou a integrar essa lista, diante do aumento da pobreza, da insegurança alimentar e do enfraquecimento de políticas públicas construídas ao longo de décadas. Em 2025, voltou a sair do Mapa da Fome. E nesta terça-feira (21/7), o relatório SOFI 2026 confirmou que o Brasil permanece fora do Mapa da Fome, com indicadores ainda melhores: a insegurança alimentar severa caiu para 0,6% da população — o menor patamar da série histórica.
A sequência desses acontecimentos demonstra que a fome não é consequência exclusiva de fatores naturais, crises econômicas ou crescimento populacional. Ela também reflete decisões políticas, prioridades orçamentárias e a capacidade — ou incapacidade — do Estado de garantir um direito humano fundamental: o acesso regular à alimentação. O Brasil levou cerca de 21 anos entre o início da mobilização nacional em 1993 e a sua primeira saída do Mapa da Fome da ONU em 2014.
A trajetória e as ações que transformaram essa realidade dividem-se em duas fases fundamentais:
O Marco da Sociedade Civil (1993): O sociólogo Betinho cunhou a frase "quem tem fome, tem pressa" e fundou a Ação da Cidadania, que mobilizou milhões de brasileiros em campanhas de doação de alimentos.
As Políticas de Estado (Anos 2000): O trabalho de mobilização inicial orientou as políticas públicas de longo prazo. Frei Betto foi um dos articuladores do programa Fome Zero nos primeiros anos 2000, integrando ações como o Programa de Aquisição de Alimentos e o Bolsa Família. Isso fez a taxa de subalimentação despencar 82%, levando o país a sair do mapa da fome em 2014.
Após oscilações nos anos seguintes que fizeram o Brasil retornar à lista, o país voltou a atingir a meta global da ONU e saiu novamente do Mapa da Fome recentemente, estabilizando o índice de subnutrição abaixo de 2,5% da população.
O caminho para garantir uma vida mais digna a milhões de brasileiros não foi uma conquista simples. Foi uma construção repleta de avanços, retrocessos e uma lição que o país conhece bem: políticas públicas levam anos para construir e podem ser desmontadas em muito menos tempo.
O QUE É O MAPA DA FOME
Criado pela FAO com base no relatório SOFI (O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo), o Mapa da Fome utiliza o indicador de Prevalência de Subnutrição (PoU) para classificar os países. Para estar fora do mapa, uma nação precisa registrar um índice igual ou inferior a 2,5% da população subalimentada [2].
Em termos concretos, cada ponto percentual representa cerca de 2,1 milhões de brasileiros. Sair do Mapa da Fome significa que mais de 5 milhões de pessoas deixaram de passar fome — em cada virada, dezenas de milhões foram afetados.
EM 2014 - BRASIL SAI PELA PRIMEIRA VEZ DO MAPA DA FOME
O Brasil saiu do Mapa da Fome pela primeira vez em setembro de 2014. O anúncio foi feito pela FAO durante a divulgação do relatório SOFI, que registrou uma prevalência de subnutrição de 1,7% da população — bem abaixo do limite de 5% então vigente e também abaixo do atual limite de 2,5% [3].
A conquista foi resultado de mais de uma década de políticas públicas iniciadas no primeiro governo Lula (2003) e consolidadas no governo Dilma Rousseff: o Bolsa Família, a valorização real do salário mínimo, a expansão da agricultura familiar, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). O trabalho de Betinho e Frei Beto na articulação da sociedade civil, com a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, foi a semente que germinou em política de Estado [4].
Frei Betto foi um dos grandes articuladores do Programa Fome Zero, lançado em 2003. O dominicano coordenou a assessoria especial e teve um papel central no desenho inicial das políticas de segurança alimentar. Sob a coordenação e concepção de José Graziano da Silva no Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, o programa estruturou ações cruciais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Bolsa Família.
O êxito da estratégia interligada dessas políticas públicas fez a taxa de subalimentação despencar 82% (entre 2002 e 2013), marco fundamental que levou o Brasil a sair oficialmente do Mapa Mundial da Fome da ONU em 2014.
No ano passado, o Governo Federal comemorou a saída do Brasil do “Mapa da Fome” e o Arquivo Nacional prestou homenagem a personalidades que, em diferentes períodos históricos, contribuíram para essa conquista. "O Brasil mostrou que é possível vencer a fome", disse à época o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva — brasileiro que comandava o órgão e havia sido o primeiro ministro extraordinário de Segurança Alimentar de Lula [3].
EM 2021, O BRASIL RETORNOU AO MAPA DA FOME
O Brasil voltou ao Mapa da Fome em 2021, com dados do triênio 2019-2021, durante o governo Jair Bolssonaro (janeiro de 2019 a 1.º de janeiro de 2023). Segundo o relatório SOFI divulgado naquele ano, 61,3 milhões de brasileiros conviviam com algum grau de insegurança alimentar, enquanto 15,4 milhões enfrentavam insegurança alimentar grave, situação caracterizada pela privação efetiva de alimentos.[5]
O retorno provocou forte repercussão internacional porque interrompia uma trajetória que vinha sendo apresentada como exemplo mundial de combate à fome. Especialistas ouvidos por organismos internacionais destacaram que a pandemia de Covid-19 agravou significativamente a crise alimentar, mas ressaltaram que o enfraquecimento das políticas públicas de segurança alimentar havia começado antes da emergência sanitária.
Entre os fatores frequentemente apontados estão a aprovação da Emenda Constitucional nº 95, em 2016 — que instituiu o teto de gastos para despesas primárias da União —, a redução de recursos destinados a programas sociais e a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) logo nos primeiros dias do governo Jair Bolsonaro, por meio da Medida Provisória nº 870, posteriormente convertida em lei.[6]
Criado em 1993 e recriado em 2003, o CONSEA desempenhava papel estratégico na articulação entre governo e sociedade civil para a formulação e acompanhamento das políticas nacionais de segurança alimentar. Sua extinção foi criticada por pesquisadores, entidades da sociedade civil, organizações internacionais e parlamentares que acompanharam o crescimento da insegurança alimentar no país.[6]
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho sofreu forte deterioração, agravada pelos efeitos econômicos da pandemia, pela inflação dos alimentos e pela perda do poder de compra das famílias de menor renda.
O resultado tornou-se visível nas ruas das grandes cidades. Filas para obtenção de ossos em açougues, aumento da procura por restos de alimentos e crescimento das cozinhas solidárias passaram a simbolizar o retorno da fome extrema ao cotidiano brasileiro. Segundo levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), em 2022 cerca de 33 milhões de brasileiros conviviam com a fome, enquanto aproximadamente 125 milhões enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, revelando a dimensão da crise social instalada no período.[7]
A SEGUNDA SAÍDA: A RECONSTRUÇÃO DAS POLÍTICAS DE COMBATE À FOME
A reversão desse cenário começou em 2023, no início do terceiro governo Luiz Inácio Lula da Silva. Entre as primeiras medidas adotadas estiveram a recriação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), a retomada de programas voltados à agricultura familiar, a reestruturação do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o fortalecimento da alimentação escolar, a ampliação do Bolsa Família e o reajuste de benefícios destinados às famílias em situação de maior vulnerabilidade.
A estratégia voltou a combinar transferência de renda, incentivo à produção de alimentos, fortalecimento da assistência social e ampliação da oferta de políticas públicas. Ao mesmo tempo, a recuperação do mercado de trabalho, a desaceleração da inflação dos alimentos em relação ao período mais crítico da pandemia e a recomposição parcial da renda das famílias contribuíram para reduzir a insegurança alimentar.
Os efeitos começaram a aparecer rapidamente nos indicadores internacionais.
Durante a 2ª Cúpula de Sistemas Alimentares das Nações Unidas, realizada em Adis Abeba, na Etiópia, em julho de 2025, a FAO anunciou oficialmente que o Brasil havia deixado novamente o Mapa da Fome. O país voltou a registrar menos de 2,5% de sua população em situação de subnutrição, resultado calculado pela média do triênio 2022-2024.
Um ano depois, o relatório SOFI 2026 confirmou que essa melhora não havia sido episódica.
Segundo a FAO, a Prevalência de Subnutrição caiu para 0,6% da população brasileira, o menor índice desde o início da série histórica utilizada pelo organismo internacional.[1]
Mais do que permanecer fora do Mapa da Fome, o Brasil consolidou a maior redução da subnutrição registrada desde a divulgação do relatório anterior.
A FAO também destaca a forte redução da insegurança alimentar severa observada no período, indicando que milhões de brasileiros voltaram a ter acesso regular aos alimentos.
Nesta terça-feira (21/7), o relatório SOFI 2026 confirmou que o Brasil permanece fora do Mapa da Fome, com indicadores ainda melhores: a insegurança alimentar severa caiu para 0,6% da população — o menor patamar da série histórica. Cerca de 17 milhões de pessoas deixaram a condição de insegurança alimentar severa em três anos, uma redução de mais de 90% [1].
TABELA COMPERATIVA DOS GOVERNOS — BRASIL NO MAPA DA FOME
Governo | Período | Situação no Mapa da Fome | PoU / Insegurança Alimentar |
Lula 1 e 2 | 2003-2010 | No mapa (construção) | Queda de 10,4% para 4,2% |
Dilma 1 | 2011-2014 | SAIU (Set/2014) | 1,7% de subnutrição |
Dilma 2 / Temer | 2015-2018 | Fora (com retrocessos) | Piora gradual dos indicadores |
Bolsonaro | 2019-2022 | VOLTOU (2021) | 15,4 mi em insegurança severa |
Lula 3 | 2023-2026 | SAIU (2025/2026) | 0,6% insegurança severa |
Fonte: FAO/SOFI 2014, 2022, 2025, 2026; IBGE; VigiSAN [1][3][5][7][8][9]
DIRETRIZES DE COMBATE À FOME
O CONSEA é um órgão de assessoramento direto à Presidência da República que conecta governo e sociedade civil. Sua missão é propor diretrizes para o combate à fome e monitorar programas essenciais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
O histórico do conselho reflete as prioridades políticas ao longo dos anos:
1993: Criado durante o governo do presidente Itamar Franco, no contexto da Ação da Cidadania Contra a Fome.
1995: Extinto nos primeiros dias da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso.
2003: Recriado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como pilar central da Estratégia Fome Zero.
2006: Institucionalizado pela Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN, Lei nº 11.346/2006).
2019: Extinto por Medida Provisória no início do governo do presidente Jair Bolsonaro.
2023: Reinstalado no primeiro decreto do terceiro mandato do presidente Lula.
A composição do CONSEA é estruturada para garantir a representatividade, sendo formada majoritariamente por membros da sociedade civil organizada e por representantes de diferentes ministérios, promovendo assim a intersetorialidade necessária para a execução das políticas públicas.
OS NÚMEROS EM VIDAS
Quando se diz que o Brasil "saiu do Mapa da Fome", não se trata de uma abstração estatística. Trata-se de pessoas que passaram a ter o que comer. Na primeira saída (2014), o índice de 1,7% representava cerca de 3,4 milhões de pessoas ainda em situação de subnutrição — contra mais de 20 milhões no início da série, em 2002 [3].
No pior momento da crise, em 2022, 19 milhões de brasileiros passavam fome. Em três anos de retomada das políticas públicas, 17 milhões deixaram essa condição — uma redução de mais de 90% [1]. "Em 2022, a fila do osso e a busca por restos em açougues viraram símbolo de um país que havia normalizado a fome. Em 2026, o Brasil voltou a ser referência global", diz Jorge Meza, representante da FAO [10].
INDICADORES
0,6% da população em situação de subnutrição em 2026.
2,5% é o limite estabelecido pela FAO para que um país permaneça fora do Mapa da Fome.
1,7% foi o índice registrado pelo Brasil na primeira saída do Mapa da Fome, em 2014.
15,4 milhões de brasileiros viviam situação de insegurança alimentar grave durante o retorno do país ao Mapa da Fome, segundo dados divulgados pela FAO em 2022.
Cerca de 17 milhões de pessoas deixaram a condição de insegurança alimentar severa entre 2023 e 2026, segundo dados apresentados pelo governo brasileiro e organismos internacionais [1][8].
A LIÇÃO QUE FICA
A trajetória do Brasil no Mapa da Fome ensina algo incômodo e necessário: políticas públicas são frágeis. Elas podem tirar dezenas de milhões da fome — e podem ser desmontadas em poucos anos, empurrando as mesmas pessoas de volta à mesma miséria. A primeira saída foi resultado de mais de uma década de construção. O retorno levou apenas quatro anos de desmonte. A segunda saída levou três anos de reconstrução. Não se trata de acaso. Trata-se de escolhas políticas.
FONTES PARA CHECAGEM
[1] R7. "Brasil continua fora do Mapa da Fome, segundo relatório da ONU". R7, 21 jul. 2026. Disponível em:
✅ Confirmado
[2] FAO. "Brasil voltou a sair do Mapa da Fome". FAO no Brasil, 13 ago. 2025. Disponível em:
✅ Confirmado
[3] Mundo Educação/UOL. "Mapa da Fome: o que é, dados, situação do Brasil". Mundo Educação, 2025. Disponível em:
✅ Confirmado
[4] Fundação Perseu Abramo. "Com Lula e Dilma, Brasil saiu duas vezes do Mapa da Fome". FPA, mar. 2026. Disponível em:
✅ Confirmado
[5] DW Brasil. "ONU: 61 milhões vivem insegurança alimentar no Brasil". DW, jul. 2022. Disponível em:
✅ Confirmado
[6] Senado Notícias. "Retorno do Brasil ao Mapa da Fome da ONU preocupa senadores". Senado, out. 2022. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2022/10/retorno-do-brasil-ao-mapa-da-fome-da-onu-preocupa-senadores-e-estudiosos
✅ Confirmado
[7] FAO. "Em um ano, 4 milhões de pessoas foram empurradas para a fome no Brasil". FAO, jul. 2022. Disponível em:
✅ Confirmado
[8] Instituto Lula. "Sob Lula, Brasil sai de novo do Mapa da Fome em tempo recorde". Instituto Lula, jul. 2025. Disponível em:
✅ Confirmado
[9] Monitor Mercantil. "Brasil segue fora do Mapa da Fome, diz relatório da ONU". Monitor Mercantil, 21 jul. 2026. Disponível em:
✅ Confirmado
[10] IFZ — Instituto Fome Zero. "Como o Brasil saiu do Mapa da Fome e os desafios atuais". IFZ, mar. 2026. Disponível em:
✅ Confirmado
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