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Novo normal do clima instala a rotina das tragédias no território gaúcho, por Carlos Wagner*

Para quem não acredita em mudanças climáticas. As chuvas da primeira semana de maio deixaram, até esta sexta-feira (3/5), um saldo de 32 mortes, 60 desaparecidos e 204 municípios atingidos (de um total de 496). Na quinta-feira (2), a barragem da Usina Hidrelétrica 14 de Julho, localizada entre Cotiporã e Bento Gonçalves, rompeu-se parcialmente e outras correm risco de sofrer danos na sua estrutura. Nos últimos 10 meses, esta é quarta cheia que atinge os gaúchos, somando mais de 100 mortos. No ano passado, foram três enchentes com 72 mortos. Na atual, centenas de pessoas estão isoladas pelo interior do Estado à espera de ajuda. Na quinta-feira (2), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e alguns de seus ministros estiveram em Santa Maria, cidade de porte médio do interior do Rio Grande do Sul, conversando com o governador do gaúcho, Eduardo Leite (PSDB). Os meteorologistas preveem que as chuvas devem continuar no Estado pela próxima semana.


O que descrevi é o contexto, ou pano de fundo como diziam os antigos jornalistas da época das barulhentas máquinas de escrever nas redações. A imprensa local e nacional está fazendo uma boa e detalhada cobertura da tragédia gaúcha, atualizando as informações minuto a minuto. Escolhi para a nossa conversa um dos ângulos da tragédia que considero importante, que é o seguinte. A Região Metropolitana de Porto Alegre, formada por 14 municípios onde vivem 4,3 milhões de habitantes, quase metade da população gaúcha, ficou isolada pelas chuvas do resto do Estado. Foram interrompidas pelas cheias as principais rodovias federais que ligam a Capital ao interior, como a BR-386 (que corre para o oeste de Santa Catarina) e a BR-290 (em direção à fronteira com o Uruguai e a Argentina). E várias rodovias estaduais e municipais ficaram debaixo d’água e tiveram pontes destruídas. Sou um velho repórter de 73 anos de idade, 40 e poucos de profissão, que sempre viajou muito pelos sertões do Brasil e dos países vizinhos fazendo reportagens. Não me lembro de outra ocasião em que a Região Metropolitana de Porto Alegre tenha ficado isolada pelas cheias. Sempre sobrava uma rodovia para manter a ligação com o interior.


O que aconteceu desta vez? A imprensa foi mais eficiente na cobertura dos danos causados às estradas do que nas inundações anteriores, como as que aconteceram em setembro e novembro do ano passado. Porém, não vou comparar os números dessas tragédias. Vou falar sobre as mudanças na cobertura jornalística. Ao contrário dos que os teóricos do jornalismo e os diretores das redações pensam, as mudanças de abordagem dos assuntos nos jornais nascem, prosperam ou são extintas entre os repórteres. Lembro-me que quando comecei na lida da reportagem, em 1979, muito embora a cobertura das tragédias provocadas pelo clima fosse comum na imprensa dos Estados Unidos e dos países europeus, no Brasil o assunto era tratado de maneira burocrática. Foi com o crescimento do movimento ecologista contra o uso de agrotóxicos nas lavouras de soja e a derrubada da Floresta Amazônica e do Cerrado para a implantação das fronteiras agrícolas (plantações e criação de gado) que a imprensa começou a relacionar os eventos climáticos, como cheias e secas, com a destruição da natureza. No início, na década de 80, os assuntos relacionados ao meio ambiente eram abordados quase que exclusivamente em reportagens especiais. Na cobertura diária, a relação entre os distúrbios climáticos com a destruição ambiental ganhou corpo e se estruturou com as novas tecnologias de comunicação, que facilitaram o acesso a informações de alta qualidade. Nos anos 80 e 90, o repórter precisava levar nas viagens uma mala cheia de livros e documentos para embasar e dar consistência às suas matérias. Nos dias atuais, ele só precisa apertar um botão no celular para ter acesso às melhores fontes de informação ao redor do mundo. Isso faz toda a diferença.


Um esclarecimento que considero importante. Não estou tratando apenas do aumento da eficiência da imprensa gaúcha na cobertura das tragédias climáticas. Mas de todos os grandes jornais do Brasil. Essa eficiência está relacionada com o aumento da demanda por esse tipo de informação por parte do leitor. Já não basta apenas avisar que mais uma vez uma determinada estrada ficou debaixo d’água. Temos que explicar os motivos pelos quais a situação voltou a se repetir. A explicação não pode ser um tratado. Duas ou três frases diretas sobre o assunto podem ser suficientes. Lembro o seguinte. O Brasil é um país em que mais de 90% do seu transporte de cargas e passageiros é rodoviário. Portanto, qualquer grande rodovia que ficar obstruída causa um enorme transtorno e muitos prejuízos. Dentro dessa realidade, torna-se prioridade saber com exatidão o que aconteceu com a estrada. A estrutura rodoviária brasileira é antiga e não foi adaptada aos novos tempos. Este é um dos motivos pelos quais tantas pontes têm sido destruídas pelas enchentes dos rios, que por sua vez estão assoreados, aumentando a velocidade e a força da correnteza. Aqui é o seguinte. Trocando em miúdos, enquanto a estrutura das pontes e estradas são as mesmas há mais de meio século, os veículos aumentaram a sua capacidade de carregar peso, da mesma forma que aumentou o volume e a velocidade das águas em uma enchente. A soma de tudo isso só pode ser uma baita confusão.


O que chamamos de “o novo normal” do clima, que inclui tempestades constantes que destroem a infraestrutura rodoviária e de outros serviços, vai exigir o surgimento nas redações de repórteres especializados no assunto. Acompanhar o fluxo de trânsito nas cidades e rodovias tornou-se uma necessidade prioritária para o cotidiano das pessoas. Não é uma tarefa fácil para o repórter, porque exige uma formação sólida, principalmente em história, para saber como aconteceu o povoamento de uma região. Um conhecimento fundamental para entender porque as coisas acontecem daquela maneira naquele lugar. No Brasil, em particular nos estados do Sul, o povoamento se iniciou com pequenos vilarejos às margens dos rios, que, na falta de estradas, eram então as únicas alternativas para o transporte de pessoas e mercadorias. Os vilarejos transformaram-se em cidades e nos dias atuais as várzeas ribeirinhas são áreas densamente povoadas, por onde correm grandes rodovias. E por serem áreas valorizadas, a especulação imobiliária é intensa. Lembro que regiões que antes do novo normal tinham um enorme valor de mercado, hoje perderam preço. É dentro dessa realidade que o repórter precisa se mexer. E por todos os lugares há uma casca de banana à espera do pé de um repórter desavisado. Dentro desse contexto, todo cuidado é pouco para evitar escrever bobagens.


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