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NOS TEMPOS DO IMPÉRIO BRASILEIRO, POR NORA PRADO (*)


Ontem terminou a novela Nos Tempos do Imperador exibida na faixa das 18 horas pela Rede Globo. Escrita por Alessandro Marson e Thereza Falcão o folhetim ambientado no segundo Império mostra as venturas e desventuras da família real em contraste com os negros escravizados no período pré-abolicionista quando essa maldita chaga ainda vingava no Brasil atrasado e a reboque dos grandes latifundiários. Dirigido por Vinícius Coimbra, com uma direção de arte deslumbrante na recriação de cenários e figurinos de época, a novela procurou dar relevo aos personagens negros e denunciar as raízes do racismo opressor que, infelizmente, segue com seus reflexos perversos ainda hoje.


O elenco negro fez pressão ao longo das gravações e muitas sequências e cenas precisaram ser refeitas para que não restasse qualquer dúvida a respeito do racismo e violência sofrida do povo negro pelos brancos opressores. Além disso, a força das críticas feitas pelo público através das redes sociais, contribuiu para um maior protagonismo dos personagens pretos na trama. Ainda não foi desta vez que o tempo da escravidão brasileira foi vista e narrada pela ótica da senzala ao invés da casa grande. Mesmo assim, pode-se dizer que houve maior equilíbrio na narrativa entre brancos e pretos. Samuel, interpretado por Jorge de Sá, cativo fugitivo e perseguido injustamente por um assassinato cometido por um branco é baleado e, na fuga, é salvo por Pilar, interpretada por Gabriela Medvedovski. Moça branca que foge de um casamento arranjado pelo pai com o filho do latifundiário morto, ela deseja cursar medicina e se emancipar do jugo paterno numa época que mulher não saia sozinha nem para ir à esquina, que dirá ser médica. Os dois se apaixonam e viverão a novela inteira entre idas e vindas provocadas pelo maior vilão da história, Tonico Rocha, brilhantemente interpretado por Alexandre Nero. Típico nordestino machão, arrogante e autoritário que segue os modelos de tirania da época com o agravante de ser um completo mau caráter.


Tonico, recém-chegado na corte, a princípio atrás da noiva fujona, terminará inebriado pela beleza e modernidade carioca, se transferindo de vez para o Rio de Janeiro e almejando um lugar na câmara dos deputados para fazer valer os seus interesses e o de seus pares. Torna-se o político da “bancada da bíblia e da bala”, daquela época, para horror de Dom Pedro II e toda a ala progressista do segundo império. Personagem muito bem explorado com seus auxiliares de gabinete fazendo a “rachadinha” dos salários com o chefe que estrategicamente é ligado ao chefe de polícia da cidade. Juntos eles vão perseguir, torturar e matar muitos cativos. Tonico é ignorante, fanfarrão, egocêntrico e manipulador e para combater seus inimigos fundará um jornal onde publicará fake news numa oposição ostensiva à Dom Pedro de quem tem ódio e, em seus delírios, imagina sucedê-lo ao trono. Pelo seu comportamento truculento conquistará muitos desafetos, alguns deles lhe causando problemas futuros. O auge das suas maldades é quando se torna espião infiltrado do governo paraguaio e passa informações estratégicas para favorecer Solano Lopes, interpretado por Roberto Birindelli, inimigo do Brasil, na guerra com o Paraguai.


Dom Pedro II numa bela composição de Selton Melo está irretocável e se equilibra precariamente entre os deveres do estado e suas aspirações pessoais, o casamento arranjado com Thereza Cristina, vivida por Letícia Sabatella e a paixão arrebatadora pela Condessa de Barral, vivida por Mariana Ximenes. O triângulo amoroso renderá ótimas atuações ao longo de toda a história e causará angústia e sofrimento para todos os envolvidos.


Percebe-se claramente a inconformidade de Dom Pedro com o atraso social, econômico e político do país e suas limitações para terminar com a escravidão. Para declarar a abolição é preciso o apoio da câmara dos deputados, formada na sua maioria pelos herdeiros dos grandes fazendeiros e senhores de engenho, mas ele será incansável nesta luta, assim como incentivará a filha, Princesa Isabel, para lutar por esta justa e nobre causa. Nesse sentido Dom Pedro sabia o quanto era indispensável o ensino público de qualidade para todos e uma indenização aos cativos libertos para que pudessem reconstruir as suas vidas no momento que a abolição fosse, finalmente, declarada. Seu apreço pela cultura e a ciência ficam explícitos diversas vezes ao longo da narrativa. Através de Dom Pedro, Pilar cursará medicina nos EUA de onde voltará formada e Samuel receberá apoio para estudar e se formar como engenheiro. Ambos enfrentarão o preconceito e a resistência para exercerem as suas respectivas profissões.


O contraponto com a monarquia e a burguesia na Pequena África, reduto dos escravizados libertos, vemos a vida e os costumes dos africanos que tentam resguardar a sua identidade e cultura mal compreendida e perseguida pelos brancos. Há os movimentos de resistência negra com ações pontuais para chamar atenção da sociedade para a obscenidade da escravidão e os quilombos formados por escravizados libertos ou fugitivos como modo de resistir a opressão. Com elenco de talentosos atores a voz africana se fez presente nos combates, mas também nas festividades e na celebração do amor interracial como prova da miscigenação e da formação da cultura brasileira.


Os núcleos cômicos foram bem representados pelo trio do Cassino formado inicialmente por Quinzinho, interpretado por Augusto Madeira, Clemência, interpretada por Dani Barros, Viviane Pasmanter e Guilherme Piva, que nesta fase já estão bem velhinhos e engraçadíssimos, e logo em seguida com a entrada da exploradora de múmias e fósseis Vitória, interpretada por Maria Clara Gueiros. Junto com Lupita, interpretada por Roberta Rodrigues, Batista, interpretado por Ernani Moraes e Carlota, interpretada por Paula Cohen eles deram banhos de humor com sequências divertidíssimas equilibrando o drama e dando mais leveza à história. Importante salientar que as duas mulheres de Quinzinho, terminam juntas e apaixonadas, dando fim ao triângulo amoroso tão conveniente para Quinzinho. Em tempos de homofobia é bom lembrar que casais homoafetivos sempre existiram e não é algo exclusivo da modernidade.


Meu filho Aramis e eu nos divertimos e nos emocionamos com capítulos da história brasileira que precisam ser urgentemente estudados e recontados para que nos compreendamos mais enquanto nação. Ainda que a função da teledramaturgia seja entreter, é reconfortante saber que podemos usar a história passada para mostrar como erros crassos ainda se repetem no presente e como a crítica à modelos ultrapassados é fundamental para restabelecer os princípios da democracia como a tolerância, a liberdade e a fraternidade. Que novos olhares se debrucem sobre essas tristes páginas da escravidão no Brasil para que não sigamos, cegamente, reproduzindo tragédias modernas como a de Moise Kabagangue, brutalmente espancado até a morte num quiosque a beira mar ou Durval Teófilo Filho, assassinado por seu vizinho de condomínio no Rio de Janeiro esta semana. Para que a chaga do racismo e o preconceito sejam banidas definitivamente do nosso país.


Porto Alegre, 5 de fevereiro de 2022.


(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

4 Comments


Linda e arguta crônica que traz a história contextualizada com a repetição da corrupção e racismo estrutural!

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Marlene De Fáveri
Marlene De Fáveri
Feb 06, 2022

Excelente análise.

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Maravilhosa apreciação. Acompanhei a novena e aplaudi muito os grandes atores desta série. Beijos

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Rozane Dal Sasso
Rozane Dal Sasso
Feb 06, 2022

Nora, parabéns pelo artigo. Sou noveleira e adoro novelas de época. Os autores souberam muito bem conectar presente e passado com analogias que mostram os malfeitos de parlamentares/governo. Os atores cômicos foram excepcionais. A escravidão foi mostrada com todas as crueldades.

Rozane Dal Sasso

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