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NÃO PODEMOS DAR UM ÚNICO VOTO A LE PEN, POR JORGE BRANCO (*)


Às vésperas da Marcha sobre Roma (1922), liderada por Benito Mussolini, os fascistas haviam sido incorporados aos Blocos Nacionais, a coalizão eleitoral proposta pelo primeiro ministro liberal Giovanni Giolitti nas eleições italianas de 1921. A interpretação acerca do fascismo e, por consequência, a tática para enfrentá-lo foram debates decisivos na esquerda, na primeira metade do século XX. Antônio Gramsci divergiu profundamente de Amadeo Bordiga, um dos grandes líderes do Partido Comunista Italiano, na definição do que viria a ser efetivamente a dimensão do movimento fascista. Enquanto Bordiga considerava que o fascismo tenderia a ser um movimento subordinado ao liberalismo, o que faria com que a aliança liberal-fascista resultasse na supremacia da primeira sobre a segunda, Gramsci considerava que o fascismo abriria um período de confronto entre civilização e barbárie. As consequências desse debate são conhecidas tanto no caminho percorrido pela civilização quanto sobre o caminho percorrido pela barbárie.


A frase que dá título a este artigo é de Jean-Luc Mélanchon[1], candidato do partido França Insubmissa à presidência da França nas eleições deste domingo, dia 10 de abril de 2022. Essa assertiva foi pronunciada por Mélanchon logo após o encerramento da votação que deve levar a neofascista Marine Le Pen e o conservador Emannuel Macron, atual presidente da França, ao segundo turno das eleições. Grande parte do eleitorado e da intelectualidade francesa consideram que a e extrema direita francesa cresceu - há que se observar, além dos votos dados a Le Pen, a votação obtida por outras duas candidaturas de extrema direita – também em função da política conservadora do governo de Macron.


A eleição francesa e a eleição brasileira, entre tantas distinções e dissimetrias, têm entre si o aspecto comum da relevante importância que a extrema direita de caráter neofascista assumiu. E de como a direita conservadora tradicional, incluindo a liberal, contribuiu, em seu anticomunismo atávico, para o crescimento da extrema direita. A maior distinção entre ambas as conjunturas, em favor do povo brasileiro, diga-se de passagem, é que a grande força antifascista no Brasil, o Lulismo, é de esquerda e fortemente democrática. Diferente da França, onde o segundo turno será entre a extrema direita e a direita liberal, no Brasil as perspectivas são de um segundo turno entre extrema direita e a esquerda, com grandes probabilidades da vitória da última.

Contudo, o dilema enfrentado por Gramsci, 100 anos atrás, como enfrentar o fascismo, está no centro de ambas as eleições. Em posições diferentes no tabuleiro, Mélanchom e Lula parecem adotar uma tática de combate semelhante em relação à marcha da extrema direita: a frente ampla antifascista. Na França, com a rápida e inequívoca tomada de posição de nenhum voto a Le Pen; e no Brasil, com a constituição da chapa Lula-Alckimin para concorrer à presidência.


O alerta de Gramsci, de que o fascismo não era apenas um movimento de massas da direita - mas um novo tipo de direita disposta a eliminar a organização e os direitos populares, sem espaço para qualquer conquista dos trabalhadores e da esquerda, a partir da articulação do descontentamento de frações secundárias das classes dominantes - se repõe agora nesta década. O grande dilema para as hipóteses em aberto é saber quem será o vitorioso político neste arco amplo de alianças que vão da esquerda à direita liberal. Quem emergirá do novo período como fração dirigente dessa aliança antifascista.


No Brasil, a questão é se sua amplitude tornará o bloco antifascista refém da hegemonia liberal ou se o controle do governo permitirá ao campo de esquerda conquistar espaços no campo das reformas estruturais. No caso francês, a encruzilhada é se a exata identificação das consequências e riscos impostos pelo fascismo e sua caracterização como o inimigo a ser derrotado através de uma candidatura tradicional dos conservadores, será suficiente para que a esquerda emerja como polo alternativo à extrema direita e à direita liberal.


As táticas aplicadas em cada uma das situações políticas são diferentes porque são profundas as diferenças entre ambos os países. Entre tantas diferenças em especial está a diferença entre o papel que a fração rentista de cada um deles ocupa no bloco hegemônico mundial. Assim como as diferenças nas relações entre as frações de trabalhadores e a esquerda realmente existente em cada país. Contudo, as alternativas em curso não parecem reproduzir, no enfrentamento à extrema direita neofascista, o antigo erro de grande parte da esquerda mundial, denunciado por Gramsci e Lênin no próprio debate com Bordiga, sobre a subestimação do fascismo como corrente política e a supervalorização do sectarismo como tática.

(*) Jorge Branco é Sociólogo, Mestre e doutorando em Ciência Política. Diretor Executivo da Democracia e Direitos Fundamentais.

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