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MUDANÇA PARA A BEIRA DO RIO GUAÍBA, POR NORA PRADO (*)


No final do ano de 2016, na ressaca do golpe, eu e minha família nos mudamos para Porto Alegre. O trabalho começou a piorar e as condições financeiras para manter nossos filhos no Colégio, e tantas outras despesas, determinaram essa guinada brusca na rota de navegação. Além disso, tive sérios problemas de saúde emocional que me impediram de resistir ao desemprego generalizado, sofrido por centenas de atores como nós, e seguir inventando bicos esporádicos.


Nossa casa nova de Cotia, construída com muito suor e lágrimas, mas também prazer e alegria, foi abandonada, justamente, quando tudo parecia correr tão bem. Empacotamos tudo, alugamos a casa, bem abaixo do valor de mercado, e nos mudamos para uma casa mil vezes menor, na Av. Arlindo Pasqualine, na zona sul de Porto Alegre. Pertinho da nova escola das crianças, nesta época, já adolescentes. Nossa estratégia foi ficar próxima da minha família e de amigos numa cidade menor para reconstruirmos nossa vida. De fato, voltar fez muito bem para todos. Apesar do trauma inicial, a família se adaptou bem a nova rotina e ao astral da cidade menor, mas com muita beleza e maior tranquilidade. Logo retomei a minha vida de atriz e diretora e, aos poucos, fomos nos estabelecendo num novo mercado de trabalho, muito menor, se comparado ao de São Paulo. Valentina e Aramis fizeram novos amigos na escola e passaram a se identificar com as coisas boas de morar na zona sul. Ao contrário de Sampa, achamos as distâncias aqui muito menores e sem o trânsito insuportável de lá, uma facilidade de ir de um lado para o outro rapidamente. Os passeios pela orla de Ipanema, os filmes de arte na Casa de Cultura Mário Quintana, os filmes de ação no Barra Shopping, o Brique da Redenção e os passeios pelo parque Marinha do Brasil alimentavam a sede por lazer de qualidade junto à natureza exuberante a beira do rio Guaíba. Sim, sei que é um lago, mas me criei nadando solta em Ipanema e, até hoje, o chamo carinhosamente de rio, pois assim me ensinaram desde criancinha. Acho mais bonito.


Meus avós maternos moraram bem pertinho da beira do rio onde eu e meu irmão nos divertíamos nos fins de semana. Embora tenha me criado no bairro das três Figueiras, na adolescência me mudei para Pedra Redonda, pertinho da Tristeza, Vila Assunção, Vila Conceição e Ipanema. Tudo aqui sempre me foi familiar e agradável. Minha mãe, quando voltou de San Francisco, escolheu a zona Sul, novamente, para se reestabelecer na cidade. Por isso a opção natural era esse bairro da minha mocidade. Um ano depois, surgiu uma casa para alugar, praticamente, ao lado da casa da minha mãe. Mais uma vez, empacotamos tudo, e seguimos para a Rua Francisco da Cunha Corrêa, num sobrado maior e mais espaçoso para a família e com direito à uma quadra esportiva, parquinho e um belo jardim numa quadra sem saída, praticamente um pequeno condomínio.


Nossa casa de Cotia, grande São Paulo, seguia alugada e à venda. Mas com os desdobramentos políticos de 2018, a economia em queda, desemprego, inflação e todos os horrores deste desgoverno, as perspectivas de venda pioraram drasticamente. Claro que sabíamos que não seria fácil, mas não imaginávamos que demoraria tanto tempo. Seguimos apresentando nossos espetáculos e participando da cena teatral gaúcha, mas sempre trabalhando no vermelho. Precisamos vender outras obras do meu pai e um desenho, belíssimo, da Maria Lídia Magliani para pagarmos as nossas contas. Ossos do ofício. Com a entrada na pandemia o negócio ficou pior. No primeiro ano ainda conseguimos o auxílio emergencial e algumas cestas básicas, mas em 2021 ficou terrível, para nós e centenas de colegas. Lembro-me de uma tarde quando a minha filha chegou para mim e perguntou em tom de preocupação: “Mãe, será que vai chegar no ponto da gente ter que morar na rua?” Eu gelei na hora mas, respondi tentando transmitir tranquilidade: “Imagina, meu amor, claro que não! Uma hora vamos vender a casa de cotia e compraremos uma aqui. “Mas fiquei com essa angústia por dentro. Lembro-me de manchetes sobre o aumento significativo de pessoas em situação de rua em São Paulo. Famílias inteiras cujos pais, desempregados, acabaram perdendo tudo e tiveram que viver acampados na rua. Uma desolação.

Meu marido passou a ter insônia e a dormir muito mal. Eu roía as unhas. Uma nuvem de ansiedade e medo pairava sobre nós, apertando o coração. Tivemos 2 propostas de compra da casa, mas muito inferiores ao valor dela. Ainda que tenhamos baixado o preço, consideravelmente, não podíamos “torrar” um patrimônio daqueles. Até que, depois de algumas reclamações de corretores sobre o comportamento do inquilino, que atrapalhava as visitas e afugentava os comparadores em potencial, chegamos à conclusão de que deveríamos dispensá-lo e arriscar a venda com a casa vazia. Mesmo sob o risco de arcar com dois aluguéis e gastar as nossas últimas reservas, foi o que fizemos. Em setembro de 2021, com o antigo inquilino fora, finalmente, um comprador se interessou pela casa e iniciamos o processo de venda que se estendeu até final de dezembro.


No início deste ano começamos a visitar algumas casas, poucas é verdade, pois no valor que nos dispusemos a pagar não havia muita coisa. Tivemos que esquecer da Vila Assunção, Pedra Redonda e Jardim Isabel, locais imaginados anteriormente, e nos concentrarmos pela Tristeza, Camaquã, e Ipanema, por que não? Pois foi justamente por aqui, na Rua Jorge Porto, no fim da rua sem saída na esquina com a rua Rincão que apareceu esta bela oportunidade. Uma casa dos anos 50, muito ensolarada e arejada com espaço para nossa família, para nossos ensaios e acomodação do material de cenografia e figurinos. Assim que entrei, imediatamente, nos vi morando ali dentro, achei tudo muito bom e a ver conosco. Até me assustei, pois o Gabriel, Aramis e a Valentina também adoraram, mas era a primeira casa que a gente visitava. Achei que não podia ser tão rápido e pensava que encontraríamos outras para disputar o páreo. Que nada, as poucas outras que visitamos não chegavam aos pés desta. Tomamos a decisão e fizemos uma contraproposta em função de algumas reformas que precisariam ser feitas. Para nossa surpresa os donos aceitaram e, em pouco tempo, estávamos em processo de compra da futura casa nova. Tudo correu da melhor forma e pudemos compra-la, praticamente à vista, e com direito as chaves para iniciarmos as reforminhas.


Meu vizinho e amigo, Régis, arquiteto competente, nos indicou um ótimo mestre de obras que sabe de hidráulica e parte elétrica e fez todos os reparos necessários. Durante essa semana inicial começamos os carretos diários levando caixas de livros, roupas, quadros, objetos e tudo que fosse mais leve e coubesse no automóvel. Cada dia uma coisa a mais para colocar na casa nova que logo começou a ficar com a nossa cara. Gabriel cortou toda a grama do jardim e podou a copa de algumas árvores frutíferas. Temos laranja pêra, de umbigo, do céu, limão, figo, carambola, jabuticaba e uma bela parreira. Uma área verde deliciosa no jardim e no quintal amplo para receber amigos e familiares. Foram quase 20 dias desses pequenos carretos, de formiguinha, mas que logo se mostraram muito eficientes até o dia final da mudança com o caminhão com os móveis maiores e as caixas mais pesadas. Cada cômodo ficando do jeitinho mais bonito, com móveis, objetos e quadros dando a nossa identidade a casa nova.

Sentimos um alívio gigantesco e uma alegria sem fim até agora. Acordo com mais disposição e faço as tarefas domésticas com mais prazer e capricho. Nossas gatinhas, Jujuba e Lolita, e o gato Nonô, rapidamente também se sentiram à vontade no novo espaço. Um lugar muito silencioso, em geral, e principalmente à noite. Dormimos como anjos. Estamos há uma quadra da praia, onde tenho caminhado pela manhã ou à tarde.


Lembro-me de uma matéria impactante sobre residências microscópicas no Japão, que beirava o bizarro, e percebo como o ideal de conforto doméstico é fundamental para o bem-estar físico, mental e emocional dos seus habitantes. Tão logo nos mudamos, a Rússia invadiu a Ucrânia numa guerra desproposital e assustadora, obrigando milhões de famílias a deixarem suas casas, cidades e o seu país sem saberem ao certo quando e se um dia voltariam. Uma desgraça de proporções gigantescas e com efeitos sobre o planeta inteiro. Me sentia dividida, entre a felicidade pessoal de ter a nossa casa própria, novamente, e a tristeza de ver milhões de refugiados sem teto se deslocando para Polônia e países vizinhos em busca de abrigo e paz.


A vida é mesmo irônica e cheia de contrastes. Que sorte a nossa termos o nosso chão e o nosso teto para vivermos a nossa vida em paz. Que sensação maravilhosa fugir do aluguel e transformar a nossa casa num verdadeiro lar, com as coisas mais importantes da vida reunidas e com espaço para ensaiar. Minha filha já reuniu os amigos para uma resenha, no sábado passado, e neste próximo, vamos festejar os 17 anos do meu filho Aramis. Sim, depois de mais de 2 anos de pandemia e isolamento social, há que celebrar os aniversários e as datas importantes. Que bom poder reunir os amigos e festejar a vida com música, comida e alegria. Afinal, da vida só levaremos as lembranças do que vivermos intensamente.


Porto Alegre, 1 de abril de 2022.


(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

2 Comments


Que delícia de ler guria! Tua história me lembrou um pouco a minha hehehe também migrei de são Paulo para cá . Belo texto, belíssima casa e que belíssima pessoa você é guria! ,escreves e mistura na gente aquelas sensações simples adormecidas mas que provocam plenas satisfações ler teu texto é como navegar nas calmas e belas águas do rio Guaíba.

Felicidades para toda tua família e obrigado por nos proporcionar com teu texto momentos agradáveis.

Abração

Artur Leivas

🌹👏👏👏


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Delícia de narrativa Nora. Acompanhei passo a passo a nova "odisséia". Bravos. Auguri.

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