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MEU DEPOIMENTO SOBRE O ADVOGADO E AMIGO ELOAR GUAZZELLI, POR BRUNO MENDONÇA COSTA (*)


Preso em 1971, incomunicável na DOPS/RS e depois na OBAN, em São Paulo, minha família procurou a solidariedade de nossos amigos. Eu estava no Curso de Especialização em Psiquiatria, promovido pela Faculdade Católica de Medicina e um de meus professores, o Dr. Manoel Albuquerque, providenciou na contratação de um advogado para mim. Foi como vim a conhecer pessoalmente o Dr. Eloar Guazzelli, de quem já sabia da fama e da competência. Foi de uma dedicação exemplar durante o período de prisão, com instruções adequadas e tratamento de respeito e carinho com meus filhos Rosângela, 7 anos, e Alexandre, 2 anos. Ajudou minha esposa, Eunice, a enfrentar com dignidade e coragem a situação difícil, dando-lhe instruções úteis sobre como agir tanto em Porto Alegre como em São Paulo. Livre da prisão, acompanhou-me no enfrentamento do futuro julgamento na Auditoria Militar, ocasião em que usou de sua competência e brilhantismo na minha defesa e dos demais companheiros dos quais era também advogado. Conseguiu sensibilizar meus julgadores que me encaravam como um perigoso subversivo. Foi vitorioso na defesa de nosso grupo, livrando-me da cadeia pela diferença de um voto e com a absolvição dos demais.


Algumas semanas depois recomendou-me o exílio, afirmando que um dos meus companheiros, o valoroso companheiro Raul Carrion, já havia deixado Porto Alegre e rumado para o Chile. Segundo ele, havia risco de vida com a permanência no Brasil, com o que concordei. Mas decidi pela permanência no Brasil, após discussão com familiares e pela situação de saúde frágil de meu pai, idoso, conhecido militante contra a ditadura e que também sofrera maus tratos em sua prisão em Cachoeira do Sul. Hoje me recordo das dificuldades que passamos, mas também da esperança que nunca deixamos de ter de que “um dia a ditadura ia acabar”. Acabou ... mas como demorou.


Fiquei agradecido pela homenagem que o Dr. Eloar e o meu professor Manoel e suas esposas fizeram a mim e à Eunice, na casa de meu professor Manoel Albuquerque, depois do julgamento, quando conheci então também o seu lado alegre, confiante no futuro, brincalhão e carinhoso. E grande admirador da música popular e dos tangos argentinos.


Sou agradecido a todos que na época se solidarizaram comigo e com minha família, meus colegas e meus amigos, meus professores e minha amiga Irmã Paulina, uma cristã verdadeira, o Dr. Manoel Albuquerque e o Dr. José de Barros Falcão e sou agradecido, agora, ao Dr. Carlos Frederico por estar me dando esta oportunidade de agradecer tudo o que fez por mim o seu pai, como meu advogado e depois como amigo.


Eloar Guazzelli não foi somente um competente advogado defensor de presos políticos, mas também um amigo, personagem importante naquele momento histórico crucial da minha vida pessoal e de minha família.


Abraço hoje o Dr. Carlos Frederico, competente, brilhante e corajoso como o pai, por esta iniciativa de lembrar a figura exemplar do Dr. Eloar como profissional e como ser humano, daqueles que produzem marcas elevadas e construtivas em todos nós e que jamais serão esquecidos.


Parabéns e viva o Dr. Eloar Guazzelli.


(*) Bruno Mendonça Costa é médico psiquiatra.

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