"MERETRIZES" LEVA AO PALCO HISTÓRIAS SILENCIADAS E TRANSFORMA O TEATRO EM ESPAÇO DE ESCUTA
- Alexandre Costa

- 23 de jul.
- 3 min de leitura

Fotos: Laura Testa
Espetáculo do Projeto Gompa inicia circulação nacional por cinco capitais brasileiras utilizando teatro documental para discutir direitos das mulheres, preconceito e dignidade humana. A arte como voz, memória e movimento. O teatro nem sempre cria personagens fictícios. Em alguns momentos, ele escolhe ouvir quem raramente encontra espaço para contar a própria história.
É dessa escuta que nasce Meretrizes, espetáculo do Projeto Gompa que transforma relatos de profissionais do sexo em teatro documental e inicia uma circulação nacional por cinco capitais brasileiras com apoio da Caixa Cultural. Depois da temporada em Belém, a montagem segue para Recife, Salvador, Fortaleza e Curitiba, levando ao público histórias que atravessam diferentes períodos da cidade de Porto Alegre, mas dialogam com realidades presentes em todo o país.
Mais do que contar a trajetória de mulheres que vivem da prostituição, a obra questiona os mecanismos de exclusão, preconceito e violência que continuam marcando suas vidas.

POR QUE ESTA OBRA IMPORTA
Ao longo da história brasileira, as profissionais do sexo ocuparam espaços centrais na vida urbana, mas quase sempre permaneceram invisíveis ou retratadas por meio de estereótipos.
Meretrizes rompe essa lógica.
Em vez de falar sobre essas mulheres, o espetáculo cria condições para que elas próprias participem da construção da narrativa. O palco deixa de ser apenas lugar de representação e transforma-se em espaço de escuta, memória e reconhecimento.
Ao aproximar teatro, história oral, música e testemunhos, a montagem amplia o debate sobre direitos humanos, violência de gênero e cidadania.
O TEATRO COMO DOCUMENTO DA VIDA
Durante quase um ano, a diretora Camila Bauer e a atriz Liane Venturella entrevistaram dezenas de profissionais do sexo de diferentes gerações.
Esses depoimentos deram origem à dramaturgia do espetáculo, construída a partir de experiências reais.
Em cena, Liane Venturella divide o palco com a musicista Mel Souza, responsável pela execução ao vivo da trilha composta por Catarina Domenici. Parte dos relatos coletados durante a pesquisa também aparece em gravações de áudio e vídeo projetadas ao longo da apresentação.
A narrativa percorre diferentes momentos da prostituição em Porto Alegre: a presença das trabalhadoras no antigo porto da cidade, a exploração exercida por cafetões na região da Praça da Alfândega, a repressão policial baseada na acusação de "vadiagem" e as transformações provocadas pelas plataformas digitais.
Embora os cenários tenham mudado, uma realidade permanece constante: o preconceito.
O PALCO COMO LUGAR DE ENCONTRO
Um dos aspectos mais significativos da montagem é a presença, em cena, de duas profissionais do sexo: Paula Assunção e Soila Mar, que atua há mais de quatro décadas nas ruas de Porto Alegre.
Essa escolha rompe uma fronteira tradicional entre artista e personagem.
As mulheres deixam de ser apenas objeto da narrativa para participar diretamente da construção da obra, aproximando experiência de vida e criação artística.
Em cada cidade visitada, a equipe também procura dialogar com profissionais do sexo locais, incorporando novos olhares à circulação nacional.
DIREITOS DAS MULHERES EM DEBATE
Para Camila Bauer, o espetáculo continua atual porque as desigualdades enfrentadas pelas mulheres permanecem presentes na sociedade brasileira.
"A discussão sobre os direitos da mulher está longe de ser um assunto resolvido. As taxas de feminicídio no Brasil seguem assustadoras e, enquanto isso não mudar, seguiremos falando e discutindo essas questões. Enquanto as mulheres não forem respeitadas, Meretrizes seguirá sendo uma obra necessária."

Ao aproximar arte e realidade, o espetáculo propõe uma reflexão que ultrapassa o universo teatral. As histórias apresentadas em cena convidam o público a pensar sobre dignidade, direitos, violência, escolhas e os julgamentos dirigidos às mulheres que vivem do trabalho sexual.
CIRCULAÇÃO NACIONAL
De acordo com o calendário divulgado pela produção, o espetáculo será apresentado nas seguintes cidades:
Belém: de 9 a 19 de julho de 2026
Recife: de 29 de julho a 7 de agosto de 2026
Salvador: de 4 a 13 de setembro de 2026
Fortaleza: de 28 a 31 de janeiro de 2027
Curitiba: de 23 de setembro a 3 de outubro de 2027
As sessões serão realizadas nas unidades da Caixa Cultural, responsável pelo financiamento do projeto de circulação.
FICHA TÉCNICA
Direção: Camila Bauer
Elenco: Liane Venturella
Participações especiais: Paula Assunção e Soila Mar
Música ao vivo: Mel Souza
Trilha sonora original: Catarina Domenici
Pesquisa em história oral e entrevistas: Juliana Wolkmer
Dramaturgia: Camila Bauer e Liane Venturella, a partir de relatos de profissionais do sexo Iluminação e videografia: Isabel Ramil Operação de luz e vídeo: Michelle Percival
Figurino: Liane Venturella
Consultoria: Paula Assunção, Monique Prada e Soila Mar
Arte gráfica: Mitty Mendonça
Apoio: Núcleo de Estudos sobre a Prostituição — NEP
Realização e produção: Projeto Gompa
Financiamento: Caixa Cultural
FONTES PARA CHECAGEM
[1] Coletivo Gompa — "Meretrizes" https://www.coletivogompa.com/meretrizes
[2] Fundação Theatro São Pedro — "Meretrizes" https://www.theatrosaopedro.rs.gov.br/liane-venturella-e-catarina-domenici-apresentam-o-espetaculo-meretrizes-no-teatro-simoes-lopes-neto
[3] Caixa Cultural — Programação oficial https://www.caixacultural.gov.br/Paginas/default.aspx
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