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"MACARENA" NA VOZ DE ADNET É A TRAGICOMÉDIA BRASILEIRA DOS CAMINHONEIROS, DE BOLSONARO E DE TEMER

por Alexandre Costa (*)

As declarações antidemocráticas do presidente Jair Bolsonaro durante os atos da última terça-feira, dia 7 de setembro, desencadearam uma série de reações pelo Brasil, inclusive desestabilizando o mercado financeiro do país. Além das manifestações duras dos presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), da reunião de lideranças de nove partidos políticos que trabalham na construção da frente pró-impeachment, o destempero de Bolsonaro provocou queda de quase 4% na Bolsa de Valores e alta de 2,93% do dólar, que fechou o dia valendo R$ 5,32.


Em meio a tensão causada pelos caminhoneiros que bloquearam estradas de norte a sul do país, o humor de Adnet acabou conquistando espaço na agenda política brasileira, de forma inusitada, surpreendendo o publico tanto quanto a tal Declaração à Nação, que todos pensavam ter sido redigida pelo presidente Bolsonaro, quando se soube mais tarde ter sido escrita pelo ex-presidente Michel Temer. Pasmem, o inesperado desfecho para a trágica crise política que ameaçou desestabilizar o Brasil veio justamente das mãos de quem lhe passou a faixa presidencial, o que é de um simbolismo fantástico.


Feito uma criança arteira, após ser repreendida, Bolsonaro vem a público e tenta se redimir, assumindo uma postura vergonhosamente submissa, completamente avessa às bravatas e aos ataques à democracia, como se viu nas manifestações do dia 7 de setembro. A Declaração à Nação é mais um engodo para proteger o presidente dos atos graves que cometeu. Um atestado de que a política no país é um espetáculo degradante e de quinta categoria.


No entanto, o ápice da tragicomédia brasileira ainda estava por vir.


Enquanto a crise institucional protagonizada por Bolsonaro e seus seguidores parecia disposta a desestabilizar o Brasil, o que se via nas redes sociais merece uma boa reflexão. Uma sucessão de vídeos nos permitiram ver uma outra face das fake news, capaz de atingir justamente a quem deveria beneficiar. A falsa notícia de que o presidente havia declarado Estado de Sítio se propagou rapidamente pelas redes sociais, assim como os vídeos com depoimentos emocionados, com lágrimas escorrendo dos olhos ou com gritos deslumbrados de uma vitória imaginária.


No entanto, a realidade fantástica dos caminhoneiros patriotas e dos bolsonaristas insanos foi interrompida pelo próprio presidente, que gravou um áudio pedindo aos caminhoneiros para desobstruírem as rodovias. Naquele altura dos acontecimentos, o pessoal da boleia já havia trancado as principais estradas do Brasil e estava preparado para a tão anunciada guerra que iria libertar a nação das arbitrariedades do Judiciário e afastar definitivamente os riscos do comunismo que rondam o país.


Por isso, os bolsonaristas duvidaram do áudio distribuído pelos grupos de whatsApp, pois acreditavam que a mensagem havia sido gravada pelo humorista Adnet (seguidamente, o ator faz humor imitando políticos brasileiros, principalmente o presidente Jair Messias Bolsonaro). Diante do impasse, foi necessário que o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, gravasse um vídeo reiterando o pedido do presidente para que as estradas fossem desobstruídas.


Foi aí que o ator Adnet resolveu entrar em cena e de forma hilária, aí sim gravou uma mensagem.


Imitando o presidente, o humorista pediu aos caminhoneiros, patriotas e bolsonaristas, que dançassem "macarena" em defesa do governo. “Gostaria até de pedir aí que encaminhe esse áudio aí a todos os caminhoneiros que estão aí com a gente nessa questão. O que eu tenho a dizer aí que o áudio que circulou aí é falso, tá ok? Esse sim que é o verdadeiro, e para vocês permanecerem aí, e começarem a dançar macarena, agora, 3h15 da manhã, e não pararem mais. Quero ver ninguém na boleia! Todos para fora dançando macarena até aquele outro lá pedir para sair’, disse Adnet no conteúdo.


A sátira foi postada no Twitter e alcançou mais de 30 mil curtidas.


A Declaração à Nação, que é obra de Michel Temer, pode servir para "matar dois coelhos com uma cajadada só". Primeiro, a carta tem o poder de atenuar os discursos e ataques à democracia, desferido por um presidente completamente insano e visivelmente transtornado. Bolsonaro, arrependido, é uma espécie de vítima de si próprio. Por outro lado, o documento pretende adulterar a história do vice de Dilma, um traidor que ajudou a arquitetar o golpe e ao assumir a presidência passou a ser investigado como suspeito de comandar um dos maiores esquemas de corrupção no país.


Mais uma vez, a impressão é de que as manifestações do 7 de setembro são parte do roteiro de um golpe em curso.


Infelizmente, não estamos diante de uma ficção e a realidade faz lembrar aquela máxima: a política no Brasil não é para amadores.


(*) Alexandre Costa é jornalista e responsável pelo www.esquinademocratica.com





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