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KILI ENYIN SE SI AWON ENIA MI?, POR PAULO GAIGER (*)


Lá pelas tantas do tráfico de negros da África para o Brasil para serem definitivamente escravizados e miseráveis, negócio asqueroso realizado com as bênçãos da igreja ao longo de quase quatro séculos com reflexos intensos até os dias de hoje, o padre Antônio Vieira atribuiu à divina providência as marés favoráveis que tornavam a viagem dos navios negreiros de Angola para o Brasil mais tranquilas do que as de Salvador para o Maranhão, por exemplo. Ou seja, cinicamente como justificativa para o injustificável, para o jesuíta e filósofo, Deus demonstrava ser a favor do tráfico dos negros, denominados gentios e selvagens, que depois de batizados mediante um valor razoável, deveriam trabalhar à força e sem direito algum para os brasileiros cristãos. Não é um caso isolado. As ordens religiosas da época se prestaram a isso em nome de Deus e de Jesus crucificado, perseguição, conversão ou morte. Típico! Mas outras confissões também o fizeram em nome de Allá ou Maomé ou de qualquer outra fantasmagoria criada para potencializar a guerra e a injustiça. Escravizar, submeter pessoas em razão de sua cor, de sua etnia, de seu gênero, de suas condições econômicas, de sua fé, de sua cultura, de sua orientação sexual, atribuindo a uma divindade, a um deus, a uma missão redentora ou a algum livro alcunhado como sagrado, o pretexto para a ignomínia, na verdade, colando o selo da ignomínia nas vítimas da vez, sempre foi de uma covardia e esperteza espantosas. Ai, nossa história perversa! Que o digam as próprias ordens religiosas e sua ação de catequização na África, na América, na Índia e por mais onde deixaram suas pegadas de cruz e muito, muito sangue. Antes das descobertas de Colombo e Cabral, assim se diz que ambos descobriram o já sabido, e do início do tráfico de negros para a América de Vespúcio, a escravização já era uma realidade em todos os lugares habitados. No entanto, é o papa da hora que autoriza a captura dos povos da África para a sua conversão e escravização: havendo resistência, genocídio permitido em nome de Deus. A escravização, a partir do século XVI, se debruça sobre as populações da África. Como consequência do massacre aos povos, a destruição de cidades, de nações desenvolvidas, da ciência e dos saberes africanos. O tráfico negreiro jogou as nações da África em guerra e na pobreza extrema que até hoje são vistas. Como uma das sequelas nefastas da estigmatização dos povos negros, advém o racismo, esse tipo não raro de câncer social que pulsa nas famílias, nas escolas, nas ruas, no mercado de trabalho, nas assembleias legislativas, nos governos e nas diferentes igrejas da américa católica e evangélica. Uma vergonha em todos os sentidos! Talvez seja urgente se perguntar e pesquisar sobre que tipo de contribuição positiva as confissões cristãs deram a América e a África, para ficarmos com apenas dois continentes. Suspeito de que a colheita será paupérrima. Talvez os cristãos de hoje tivessem que se perguntar sobre o que são e fazem que tenha sentido a um bem maior que não passe pela conversão, convencimento, catequização, punição, maldade, preconceito e discriminação. Talvez a festa de natal, em sua origem, possa servir como tempo de reflexão. Em iorubá: o que vocês fizeram com minha gente? Se deem de presente os livros sobre a escravidão do Laurentino Gomes. Eu entro de férias. Nos vemos na segunda quinzena de janeiro.



(*) Paulo Gaiger é artista professor do Centro de Artes - UFPel



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