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HISTÓRIA QUE OS SEGUIDORES DE BOLSONARO DEIXADOS PARA TRÁS TÊM PARA CONTAR, POR CARLOS WAGNER (*)


No início do governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) era comum ouvir dos assessores mais próximos e dele próprio uma frase muito repetida nos filmes da Segunda Guerra Mundial e ressuscitada com vigor pelas tropas americanas envolvidas em conflitos no Oriente Médio e na Ásia: “Ninguém ficará para trás”. Uma espécie de garantia que era dada ao combatente de que, caso fosse ferido ou morto, seria levado pelos companheiros de volta para casa. Lembro-me que logo nas primeiras semanas do governo, início de 2019, em uma troca de ideias com colegas estrangeiros, um deles afirmou que a maneira como o presidente e seus seguidores assumiram a administração federal foi como se fossem uma “tropa estrangeira” ocupando um território inimigo. Capitão reformado do Exército, Bolsonaro resgatou a presença oficial em todas as comemorações militares e policiais do país. Esse tipo de cobertura jornalística tinha desaparecido com o fim do regime militar que governou o país de 1964 a 1985. Também voltou à moda o uso de expressões do linguajar das casernas, tipo chamar pauta de missão.

No início do mandato de Bolsonaro, como todos os outros jornalistas brasileiros, eu tentava espiar pelas frestas do poder para entender como as coisas aconteciam entre as quatro paredes do governo. Onde Bolsonaro se esmerava em construir para a opinião pública a imagem de que eram as Forças Armadas que haviam voltado ao poder. Colocou na administração pública federal mais de 6 mil militares (ativa, reserva e reformados), de várias patentes, incluindo generais. A soma de tudo isso foi a criação da imagem pública de um ambiente militarizado, no qual as palavras “ninguém ficará para trás” têm sentido. São palavras fortes, que nasceram entre os combatentes nas trincheiras, onde o trabalho em equipe é fundamental para a sobrevivência. Dentro desse ambiente, os grupos políticos que trabalharam pela eleição do presidente se sentiram à vontade para se expressar livremente. Os primeiros foram os nazistas. O então secretário especial da Cultura Roberto Alvim, em janeiro de 2020, usou citações do ministro da Propaganda da Alemanha Nazista, Joseph Goebbels, em uma de suas falas. Foi demitido. Cinco meses depois, em maio, ex-colegas da época que o presidente era paraquedista do Exército se perfilaram com o braço direito erguido, imitando a saudação nazista, e gritaram: “Bolsonaro somos nós”. Dois anos e alguns meses depois, no final da noite de sábado, dia 09/07, o guarda municipal da cidade de Foz do Iguaçu (PR) e tesoureiro do PT Marcelo Arruda comemorava os seus 50 anos com uma festa temática em homenagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) quando o agente penitenciário federal bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranho entrou no local atirando e gritando: “Aqui é Bolsonaro” – há matéria na internet. Arruda foi morto e Guaranho se recupera no hospital.

Ainvestigação policial deverá esclarecer se o grito “Aqui é Bolsonaro” dado por Guaranho tem alguma ligação com os nazistas que apoiam o governo. Bolsonaro falou sobre o agente penitenciário: “Dispensamos qualquer tipo de apoio de quem pratica violência contra opositores. A esse tipo de gente, peço que por coerência mude de lado e apoie a esquerda”. Trocando em miúdos. Guaranho está por sua conta. A ex-ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), pastora evangélica e uma das mais fiéis seguidoras do presidente da República, “foi deixada para trás” pelo seu líder. Ela disputava a indicação para concorrer ao Senado pelo Distrito Federal com a deputada Flávia Arruda. Bolsonaro puxou o “tapete” de Damares e apoiou Flávia – há matéria na internet. Citei esses casos. Mas a lista é longa e tem gente de toda a estirpe, desde pessoas que ocupavam cargos de último escalão até ministros, como é o caso do ex-juiz federal Sergio Moro, que se notabilizou pela condução da Operação Lava Jato. Além de 11 generais demitidos por Bolsonaro. O que vou escrever agora não é opinião ou conteúdo de conversa com pesquisador. Vou relatar fatos que já publicamos e que estão soltos pelos noticiários. O governo Bolsonaro não é, nunca foi e nunca será a volta das Forças Armadas ao poder pelo voto popular. Isso é uma fachada, como se fosse um cenário onde são rodados filmes de ficção. A verdade é que o presidente e os militares que fazem parte do governo estão ali por sua própria conta e pelo salário que ganham, que é somado aos proventos que recebem das Forças Armadas. Além deles, o governo é formado por nazistas, terraplanistas, neoliberais, pastores evangélicos, parlamentares do Centrão e oportunistas de todos os quilates. O fio que une a todos é o dinheiro. O resto, como o “ninguém será deixado para trás”, são palavras ao vento.

Nessa situação, vejo uma oportunidade de escrever uma grande matéria. O governo Bolsonaro é cheio de segredos. Há vários episódios que foram colocados sob sigilo por vários anos. Esse pessoal que “foi deixado para trás” pode ser convencido a falar sobre pontos que não conseguimos ainda esclarecer sobre a administração federal, tipo a organização do ato contra a democracia no Dia da Independência do ano passado. Por que é importante pôr essa história em pratos limpos? Existe a ameaça de que, caso Bolsonaro, que concorre à reeleição, perca, possa acontecer no Brasil algo semelhante à invasão do Capitólio (Congresso americano) pelos seguidores do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Se houver o plano de repetir aqui o que aconteceu nos Estados Unidos, o grupo que planejou a frustrada tentativa de golpe no Dia da Independência está trabalhando na organização do que vem por aí, seja lá o que for. Como disse lá na frente no texto. Esse governo funciona como se fosse uma cidade cenográfica. E os que foram “deixados para trás” têm uma história para contar que considero um capítulo importante para se entender as entranhas do governo do presidente Bolsonaro.

(*) Carlos Wagner é jornalista, repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, em São Paulo. Atualmente, Carlos Wagner é responsável pelo site Histórias Mal Contadas.

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