top of page

FUTEBOL, LULA E FLÁVIO, POR CARMEN RIAL*

há 10 horas
4 min de leitura

 O que o futebol tem a ver com a derrota de Lula no primeiro turno das eleições? E que lições tem a nos dar para entender o momento político brasileiro?


Com todo respeito aos colegas que estudam as camadas médias baixas (2-5 salario mínimo) e vem no desejo de aspiração econômica e social um dos motores do voto a B., com todo o respeito a colegas que analisam a derrota da esquerda como uma expressão dos valores do neoliberalismo internalizados e sintetizados na ideia de uberização, dos que mostram como o endividamento (bets, cartões) é atualmente impulsionado pelo capitalismo para fazer com que endividados trabalhem mais horas, dos que veem como central o espectro da insegurança ou dos que falam do impacto das mídias - as grandes mídias e sua atuação “neutra” ou as mídias digitais e seus robôs. Concordando com todos esses argumentos, mas me deixe acrescentar mais um: o pertencimento ao um dos lados, um pertencimento muito próximo ao pertencimento futebolístico, clubístico.

Quando falo em pertencimento clubístico não quero acrescentar mais uma metáfora futebolística tal as que as campanhas gostam de usar. A associação aqui não se refere a camiseta amarela usada por Flávio para votar, as bandeiras vermelhas nas esquinas ou as verde-amarelas nas janelas, nem as frases de Lula no discurso pós-derrota (“perdemos o primeiro tempo”, “agora é prorrogação”, “sou bom de mata-a-mata”). É algo mais profundo. O pertencimento que a mídia chama de polarização virou Grenal – e escolho o clássico mais raiz não porque sou gaúcha, mas porque ele é reconhecido como o extremo da rivalidade no país.

Pensemos por um momento nos torcedores de futebol. Embora existam diferentes formas de torcer, com distinções importantes tanto nas práticas quanto nos modos de relação com o clube, aqui nos interessa considerar como “torcedor” aquele que acompanha seu clube de maneira apaixonada e duradoura. Nesse sentido, vale lembrar a conhecida formulação: “pode-se mudar de casa, de mulher (ou de homem), mas não se muda de time”.

O clube teve um passado racista e você sabe disso? Não importa, é passado, atualmente ele não o é. O clube teve dirigentes corruptos que o roubaram, teve quadros que colaboraram com ditadores e foi a favor de políticas maléficas a maioria de seus torcedores? O clube assina notas em favor das bets, quando se sabe de que estão levando ao empobrecimento e até a suicídios? Não importa, a camiseta fala mais alto.

Na manhã pós-eleição ouvi de um comentarista que “nada cola no Flávio”. Seu envolvimento com as milicias, com a rachadinha, com Vorcaro, com o imperialismo americano e, ápice, em um eleitorado moralmente conservador, seu envolvimento com prostitutas, festas orgiásticas e avião de luxo. Nada cola porque as pessoas não estão votando em Flávio. Elas são do time de Flávio. E de time não se muda. Não creio que Lula consiga um voto sequer entre os eleitores de Flávio com os argumentos do que seu governo fez pelo país, do que pode ainda fazer, e nem sequer explicando quem é Flávio e o que pode vir a fazer aqui. Elas já sabem. E Lula sabe que elas sabem. Quando apela a levar às urnas quem se absteve está pensando no eleitor do seu próprio time que ficou em casa, ou, no máximo, daquele que ainda não foi capturado por um dos lados, que não tem um pertencimento.

O pertencimento clubístico é um sentimento que precisa ser analisado para que se entenda o atual momento político brasileiro. No futebol, o pertencimento foi estudado. E se concluiu que ele envolve sociabilidade, fidelidade e honradez – e no passado já envolveu distinção de status social. Alguns consideram que está relacionado com o conhecimento (é preciso entender os códigos do jogo para poder apreciá-lo e aí torcer). Não penso assim, em muitas famílias já se nasce torcendo. Mas há uma concordância de que ele é escolha imutável. E caracterizada pela alteridade: amar um clube é necessariamente odiar outro, o clube rival.

Infelizmente, como tantas vezes acontece na academia, os campos conceituais parecem limitados por cercas e o que se estuda, analisa e se aprende em um campo fica restrito a ele. E isso inclusive no interior de uma mesma disciplina: a antropologia rural de um lado, a antropologia urbana de outro, sem o necessário deslizamento dos conceitos. Foram muitos anos até que os achados da etnologia indígena se incorporassem a outros estudos, e tivemos tantos ganhos teóricos.

A passagem do sentimento de pertencimento clubístico ao pertencimento político pode não ser inédita, mas nunca foi vista aqui nessa proporção. Arlei Damo[1], em um dos primeiros trabalhos sobre torcidas, usou como epígrafe uma frase de Carlos Drumond de Andrade[2] em que compara o pertencimento a partidos e a clubes, apontando que se observa não raramente no primeiro caso a troca de um partido por outro, mas não de um clube de futebol. Fosse vivo, Drumont teria que rever a sua frase pois hoje, também não se troca um partido por outro, e nesses novos tempos, não é nem mais o partido o que conta: é o nome, defendido com um amor incondicional tão semelhante ao que se tem pelo clube do coração. Ele nos integra na legião de torcedores identificados com o clube. Carmen Rial é antropóloga, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

 

 FONTES

[1] Damo, Arlei “Para o que der e vier : o pertencimento clubístico no futebol brasileiro a partir do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e seus torcedores”.


[2] A estética do torcedor é inconsciente: ele ama o belo através de movimentos conjugados, astuciosos e viris, que lhe produzem uma sublime euforia, mas se lhe perguntam o que sente, exprimirá antes uma emoção política. Somos Fluminenses ou Vasco pela necessidade de optar, como somos liberais, socialistas ou reacionários. Apenas, se não rara a mudança do individuo de um para outro partido, nunca se viu, que eu saiba, torcedor de um clube abandoná-lo em favor de outro. (Carlos Drummond de Andrade, in: Revista do Grêmio n11, ano 11:44; s/d) 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA

Jornalismo livre e independente

 
 
Design sem nome (3).png
  • Facebook
  • Youtube

COLABORE

Apoie o jornalismo livre, independente, colaborativo e de alta integridade, comprometido com os direitos e as liberdades coletivas e individuais. Participe dos novos modelos de construção do mundo das notícias e acredite que uma outra imprensa é possível. 
 

O Esquina Democrática não se submete às avaliações métricas, baseadas em quantitativos que impulsionam visualizações, acessos, curtidas e compartilhamentos. Também não compactua com modelos  de trabalho que prejudicam a produção de conteúdos e colaboram com a precarização profissional. 

CHAVE DO PIX

 559.642.490-00

BANCO 136 - UNICRED
AGÊNCIA 2706
CONTA 27928-5
ALEXANDRE COSTA
CPF 559.642.490-00

JORNALISTA RESPONSÁVEL: ALEXANDRE COSTA 
FILIADO AO SINDJORS E ASSOCIADO À ARI

100673-maior_sindjors_jul16.jpg
images (1).jpeg
bottom of page