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FURTO DE FIOS ELÉTRICOS É UM CRIME GRANDE DEMAIS PARA O GOVERNO LOCAL, POR CARLOS WAGNER (*)

Por não ter tempo a perder, os repórteres que fazem a cobertura dos rolos nas delegacias de polícia têm um texto simples, objetivo e elegante. Usando a linguagem deles. É uma tragédia anunciada o grande número de casos diários de furtos de fio de cobre das redes elétricas em todos os cantos do Brasil.


Diariamente, os noticiários falam que o furto de fios deixa bairros populosos de cidades sem água potável, celular e energia elétrica. Isso significa que é real a possibilidade de um furto desses causar um grande acidente, com inúmeros mortos e feridos, em um aeroporto, rodovia, ferrovia ou um grande prédio. Esse crime é grande demais para ser resolvido pelas autoridades municipais e estaduais. É sobre isso que vamos conversar.


Antes de enfileirar os fatos, vou contar uma historinha. No final da década de 80, durante a de 90 e até os primeiros anos 2000, as cidades do interior dos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste viviam uma epidemia de roubo de veículos, maquinários agrícolas e assaltos a fazendas praticados por quadrilhas acantonadas nos países vizinhos, em especial no Paraguai. O trabalho dos bandidos era facilitado pela diferença de legislação entre os países. Por exemplo, na época bastava entrar em uma prefeitura no Paraguai e dizer que era dono de um veículo para que um documento fosse emitido no seu nome. Lembro que estive em uma cidadezinha na região metropolitana de Assunção, capital do Paraguai, e consegui registrar o documento de um veículo em nome do então presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Em 1991, houve a consolidação do acordo do Mercado Comum do Sul (Mercosul) entre Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Equador, Chile e Venezuela. A consolidação desse acordo dificultou a vida dos quadrilheiros, principalmente do pessoal ligado ao roubo de veículos. Por exemplo, nos dias atuais é impossível entrar em uma prefeitura paraguaia e legalizar um carro roubado no Brasil porque as informações sobre os veículos circulam entre os países do Mercosul. Além disso, o governo brasileiro e dos países vizinhos fizeram vários acordos na área policial que resultaram em imensas dificuldades para os bandidos nas fronteiras. Claro, a situação entre os países na área policial ainda não é a ideal. Mas melhorou muito.


Voltando a nossa história. O cobre é um dos metais mais valiosos no mundo devido o seu uso na transmissão de energia elétrica, nas indústrias de alta tecnologia, na fabricação de celulares e em imensa lista de produtos que fazem parte do nosso dia a dia. O cobre tirado dos fios furtados é colocado clandestinamente na indústria da reciclagem, hoje um ramo poderoso da economia nacional. O caminho que o cobre percorre até ser legalizado é muito semelhante ao do ouro retirado ilegalmente pelos garimpeiros da área indígena dos yanomami, na fronteira de Roraima com a Venezuela.


A autoridade que tem mais experiência, equipamento e poder legal para atuar nessa área é a Policia Federal (PF). Prender o bandido que furta o fio e o dono do ferro-velho que atua como receptador não resolve o problema. É preciso “quebrar as pernas” dos compradores de cobre que legalizam o metal. Uma explicação para quem não é jornalista. Nas redações, “quebrar as pernas” era uma expressão usada nos tempos das máquinas de escrever no sentido de interromper uma situação. Olha, o problema do furto de fios elétricos é nacional. Portanto, quem tem que propor uma ação nacional, envolvendo prefeitos, governadores e governo federal, deve ser a União. Mais especificamente o Ministério da Justiça e Segurança Pública, do ministro Flávio Dino. Sem uma ação coordenada nacionalmente contra o furto de fios de cobre das redes de energia elétrica o problema vai crescer até causar uma grande tragédia. Podem anotar.


A imprensa tem um papel fundamental em ajudar a população a resolver esse grave problema. Claro, perante a enxurrada de crimes de todos os tamanhos e crueldade que caem na mesa dos delegados de polícia das cidades brasileiras, o furto de fios pode parecer insignificante. Mas não é, pelo potencial que tem de provocar uma grande tragédia. Aprendi exercendo a profissão de repórter nessas últimas quatro décadas que as autoridades não gostam de ser cobradas pelo que ainda não aconteceu. Também nós sabemos que o que não aconteceu é notícia de pé de página no jornal. Mas não significa que não seja notícia. Tenho lembrado que a realização no Brasil da Copa do Mundo, em 2014, e das Olimpíadas, em 2016, deixou como legado uma organização de compartilhamento de trabalho na área de segurança pública fantástica. Essa organização reuniu policiais de todos os cantos do país e serviços de inteligência das Forças Armadas, PF, polícias militares e civis. Não existem mais as estruturas físicas que reuniam esse pessoal. Mas existem as relações entre os policiais, o roteiro técnico de como se trabalha em conjunto e muitos equipamentos que foram incorporados às organizações policiais dos estados. Esse legado pode ser usado para ajudar a resolver a questão do furto de fios elétricos.


O bloco de anotações do repórter não é uma bola de cristal para prever o futuro. Mas ele tem uma série de informações que se forem cruzadas podem indicar o rumo que um acontecimento irá tomar. Tem sido assim desde a época que se escrevia uma reportagem molhando uma pena de galinha em um tinteiro. A história que contei sobre o caso dos furtos de fios é muito simples. Basta unir os pontos para ver que se nada for feito de maneira organizada entre os governos municipais, estaduais e federal vai dar um baita rolo. A eletricidade é fundamental para o funcionamento do mundo como o conhecemos. O resto é conversa fiada.


(*) Carlos Wagner é jornalista, repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, em São Paulo. Atualmente, Carlos Wagner é responsável pelo site Histórias Mal Contadas.

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