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EM BUSCA DE KARDEC

por Nora Prado (*)

Tenho assistido com prazer e interesse ao documentário Em Busca de Kardec exibido semanalmente pela TV Cultura. Nele o documentarista Karim A. Soumaila investiga as origens do espiritismo no mundo e a consolidação da doutrina através da obra de Allan Kardec. Com farto material de arquivo e entrevistas com dirigentes de diversos grupos e entidades espíritas no Brasil e outros países, o filme abrange as várias correntes existentes e atuantes sob as bases espíritas.

Gostei de saber que há correntes sem o ranço moralista cristão nem seus dogmas limitantes, onde a doutrina se expressa muito mais como filosofia em busca constante de diálogo com a vida mundana da sociedade. Interessante saber, também, que o filme se originou na busca pelo entendimento e aceitação da morte da própria filha do diretor. Numa viagem de iniciação onde o herói se depara com inúmeros obstáculos, aqui Karim se depara com a força com que o espiritismo se enraizou no Brasil gerando a maior concentração de espíritas no mundo.


Proporcionalmente menor em relação aos evangélicos que dominam no país, em grande parte graças a força das emissoras de televisão evangélicas e ao apelo do dízimo que constrói templos imensos, os praticantes, seguidores e simpatizantes da doutrina espírita me parecem muito mais ocupados com a qualidade de vida e o senso de justiça e ética praticada que muitos dos falsos profetas que pregam nos cultos sensacionalistas evangélicos e onde realizam lavagem cerebral em massa para manter o gado à sua disposição e como força estratégica política. A bancada da bíblia está aí para provar sua atuação nefasta travestida de família do bem no governo Bolsonaro.


Em busca de Kardec aprofunda a repercussão da doutrina através da atuação entusiasta de professores, jornalistas e pessoas comprometidas com o entendimento da vida como oportunidade de crescimento onde tudo é impermanência e transitoriedade. A riqueza de pontos de vista é uma das grandes belezas do espiritismo que oferece consolo por aceitar a continuidade de existir num outro plano, além da matéria, uma possibilidade de exercitar uma vida de aprendizado constante na busca por aperfeiçoar a própria humanidade.


Nesse sentido é interessante observar a quantidade de teses e monografias de caráter científico sobre aspectos relevantes da doutrina espírita produzidas no Brasil, além das obras de apelo popular escritas pelos médiuns mais famosos como Xico Xavier, Emmanuel e Gasparetto.


Outro fator importante, a considerar, é o compromisso social de diversos centros espíritas para com suas comunidades oferecendo além de atendimento espiritual, educação e formação profissional em diversos níveis como forma de resgate da cidadania e fortalecimento do indivíduo.


Uma forma de honrar o caráter didático empreendido por Heinrich Pestalozzi, importante educador suíço que incorporou o afeto à educação promovendo uma verdadeira revolução no modo de ensinar e se relacionar com as crianças na virada do século XIX para o XX. Allan Kardec se formou em pedagogia pela metodologia de Pestalozzi em 1824.


O filme mostra as influências de mestres e pensadores que abordaram a doutrina espírita como ferramenta de autoconhecimento e possibilidade de intervenção social a serviço do bem-estar e da justiça social.

Um filme importante que se debruça sobre o surgimento e desenvolvimento do espiritismo até os nossos dias e mostra suas práticas e lideranças mais progressistas.


Num país dominado pela superstição e fé cega promovida por profetas de pés de barro e mandatários oportunistas, eis uma ótima oportunidade de conhecer um pouco mais da doutrina espírita e separar o joio do trigo.


Porto Alegre, 16 de junho de 2021.


(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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