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ELON MUSK E O SEQUESTRO DA LIBERDADE, POR JORGE BRANCO (*)

Elon Musk é mais um mega bilionário que tem na iniciativa de disputa de valores ideológicos sua estratégia de enriquecimento. São exemplos famosos de empresários que alicerçam sua continuidade econômica neste restrito quadro de super-ricos Bill Gates da Microsoft, Larry Page e Sergey Brin da Google, Mark Zuckerberg do Facebook, Jeff Bezos da Amazon, Mukesh Ambani da Reliance Industries, entre outros tantos. Todos empresários que investem na mágica e sedutora área da inteligência, inovação e tecnologia.

Fábio Faria (em primeiro plano), Elon Musk (ao centro) e Bolsonaro, junto de intérpretes - Reprodução/Facebook/Jair Bolsonaro

O elemento mais relevante em comum entre eles, entretanto, é a percepção que a defesa de valores neoliberais, beirando o anarcoliberalismo, e a influência em governos são fundamentais para o sucesso de seus negócios. O capitalismo, em sua fase moderna, nunca abriu mão de sua dependência do poder político. O capitalismo necessita do controle do Estado como o mundo necessita da Amazônia (aliás, vale a pena ler sobre Musk, Bolsonaro e a Amazônia o ótimo artigo de Jânio de Freitas). O Estado, em função de sua capacidade normativa e militar de intervenção na economia, é chave para a manutenção da retórica de não intervenção na economia.


O termo liberdade tem sido amplamente invocado, nestes tempos de neoliberalismo desesperado, para construir a legitimidade da razão do salve-se quem puder. Sendo que quem pode são os que controlam o capital, conhecimento e governos, simultaneamente.


Para as gerações que lutaram contra os impérios coloniais e contra os regimes autoritários, o termo liberdade se referia a uma generosa ideia de autonomia. A ideia de que liberdade estaria na base de regimes políticos que permitiriam a autodeterminação de povos e o exercício das potencialidades dos indivíduos em sua vida quotidiana.


O neoliberalismo, contudo, pôs a pique a relação singela e romântica entre liberdade e felicidade. Por um caminho tortuoso e reacionário, restabeleceu a atualidade das formulações basilares de Thomas Hobbes[1], que opõe liberdade natural à liberdade civil. Posto em nosso tempo, a astúcia e sanha financeira do neoliberalismo transformou liberdade em oposto à democracia.


Na esfera do neoliberalismo, a defesa da liberdade ocupa um espaço ideológico e político de desconstrução de direitos sociais conquistados durante o século XX por razão da luta de sindicatos, partidos de esquerda, intelectuais humanistas e movimentos sociais. A semântica da liberdade, na voz dos super-ricos, está tomando o papel histórico de luta pela restauração dos privilégios aristocráticos. Os quais, na modernidade, são adquiridos pela propriedade do capital e não mais, como na Idade Média, pela unção divina associada à posse da terra.


Na semântica política dos neoliberais, liberdade passou a ter uma dimensão restritiva, classista e não universal. Não está associada ao estado de felicidade de todos, mas à legitimidade dos mais “preparados” derrotarem e submeterem os “menos preparados”.


Liberdade assumiu uma dimensão associada a outro axioma neoliberal, a meritocracia. Ou seja, liberdade só se torna material e justa quando associada ao mérito de possuir poder político e capital.


Neste sentido que liberdade se contrapõe, em tempos de razão neoliberal, à democracia. Democracia, a depender das restrições normativas das formas específicas de seu regime, é o estado dos direitos, portanto de restrição da liberdade “natural” do capital. Os direitos da maioria só podem imporem-se em um regime onde a maioria tenha controle sobre a liberdade do capital.


Quando Bolsonaro, o presidente subordinado, vai ao encontro de Elon Musk para conceder-lhe a alcunha de “mito da liberdade”, está se referindo à sua visão neofascista de mundo.


“Mito da liberdade” é aquele que enfrenta e destrói a capacidade da maioria de impor seus direitos sociais à minoria. Trata-se da liberdade de portar armas, da liberdade de mentir nas redes sociais, de exercer o supremacismo étnico e de gênero, da liberdade de espoliar o valor do trabalho, da liberdade de eliminar a resistência. Aquilo que Thomas Hobbes se refere como a guerra de todos contra todos. Uma espécie de confronto onde uns possuem drogas e equipamentos e outros lutam a pé, descalços e amarrados[2]. E os cínicos dizem “que vença o melhor”.


Antes de comemorar a genialidade desses super-ricos, os democratas, os progressistas, os humanistas, a esquerda, a maioria de jovens e trabalhadores devem perceber que sua genialidade não repousa no conhecimento, o qual é gerado por milhares nas universidades pelo mundo afora, inclusive no Brasil; mas sim na capacidade de reproduzir e ampliar seu capital a partir do controle do Estado e da difusão de sua ideologia.


Quando Bolsonaro e a extrema direita declaram-se em favor da liberdade eles estão, de fato, atacando a democracia e os direitos sociais fundamentais que emergem com a civilização.


Liberdade em seu sentido revolucionário histórico, só é atingível quando a igualdade real superar a igualdade formal. Não estamos aqui para condescendências com o autoritarismo.


[1] HOBBES, Thomas. Leviatã, ou, Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo: Nova Cultural, 1988. Volumes I e II.


[2] Lembro da genial imagem que o ex-governador Olívio Dutra tornou conhecida, a do cavalo do comissário, se referindo aos representantes dos poderosos e ricos. Fica aqui minha homenagem à ele e à Dona Judite Dutra, que nos deixou nesta semana passada.


(*) Jorge Branco é Sociólogo, Mestre e doutorando em Ciência Política. Diretor Executivo da Democracia e Direitos Fundamentais.

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