top of page

DOENÇAS E CRIMES DAS “PESSOAS DE BEM”



por (*) Nora Prado

Assim como a maioria da população brasileira assiste entre o horror e a indignação o caso do assassinato do menino Henry Borel Medeiros pelo padrasto e conivência da mãe, eu também fico em choque com as revelações diárias dos detalhes perversos trazidos pela investigação. Ou seja, a morte eminente do menino de quatro anos, era uma tragédia anunciada e com total conhecimento da própria mãe que poderia ter impedido este desfecho macabro. O que leva uma pessoa a se omitir numa situação dessas é o que todos gostaríamos de saber, pois foge completamente a razão como que uma mãe não tentaria salvar a vida do seu único filho?


Os desdobramentos do caso que chocou o país certamente vão esclarecer os detalhes e as motivações do crime, mas jamais justificarão tamanha agressão gratuita, desproporcional e descabida. A covardia praticada por um adulto desequilibrado e dissimulado é, sem dúvida, sinal de um grave distúrbio observado no comportamento do assassino e denunciado por ex-mulheres, que corroboram para qualificar o perfil doentio do Dr. Jairinho. Jairo de Souza Santos Junior, vereador eleito pela bancada evangélica, tem quarenta e três anos é filho do ex-deputado estadual Coronel Jairo, e herdeiro político no reduto eleitoral de Bangú, no Zona Oeste do Rio de Janeiro. Seu passado infame, antes de estampar as manchetes nacionais como investigado e principal suspeito na morte de Henry, coleciona acusações de crimes violentos que vão desde agressões contra mulheres e outras crianças até o envolvimento com a milícia e tortura de jornalistas na capital carioca. Seu partido, Solidariedade, o expulsou após a sua prisão na quinta-feira passada e a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, que lhe concedera uma cadeira no Conselho de Ética, abriu processo para afastamento do seu mandato. Nas redes sociais é possível ver pelo menos um vídeo do Dr. Jairo, pai, abraçado ao então candidato Flávio Bolsonaro pedindo votos na campanha política de 2018. Dr. Jairinho também faz questão de deixar claro o seu alinhamento à família Bolsonaro em suas fotos e materiais das campanhas mais recentes.


Em maio 14 de 2008, uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal O Dia foram torturados depois de terem sido capturados por integrantes da milícia que dominava a região. Na ocasião, o policial reformado Coronel Jairo, foi apontado como um dos políticos envolvidos com os criminosos. Em 2011 o fotógrafo Nilton Claudino, sequestrado e agredido por sete horas conta que o coronel Jairo e seu filho, Jairinho, participaram da sessão de tortura. A Polícia Civil do Rio de Janeiro investigou o pai do vereador, mas ele não foi indiciado. Jairinho já era vereador, mas não foi oficialmente investigado. Pelo menos, Jairinho que é formado em medicina, nunca exerceu a profissão.


Assim como ele, a deputada federal Flordelis, mandante do assassinato do marido em 2019 é outra política evangélica, fervorosa defensora da família, da moral e dos bons costumes. Entre as práticas cotidianas dela estavam relações sexuais promiscua com o marido e muitos dos seus 50 filhos adotivos.


O que choca em todos esses comportamentos criminosos, além dos crimes, é o tratamento dispensado aos assassinos pela sociedade evangélica. A mesma que perseguiu e atacou, implacavelmente, a adolescente vítima de estupro que precisou sair de sua cidade natal para fazer o aborto num hospital do Nordeste, se calou frente ao assassinato encomendado por Flordelis e não demonstrou qualquer pesar pelo menino assassinado pelo padrasto. A bancada da Bíblia não se posicionou contra essa barbárie e tampouco a Ministra Damares expressou indignação pelo crime praticado contra um inocente.


Os dois pesos e duas medidas para tratar os “cidadãos de bem” causa, no mínimo, estranheza perante a completa incoerência e tolerância para esses crimes hediondos. Para nosso horror essa imensa ala bolsonarista foi criada dentro dos valores morais ditados por pastores que, agora, no auge da pandemia fazem questão de manter os templos abertos e receber, além dos fiéis, os dízimos semanais com os quais lucram somas milionárias. Um caso para ser estudado por antropólogos, psicanalistas, psicólogos, filósofos, historiadores e cientistas para entender essa doença comportamental das pessoas de bem. Uma chaga que, semelhante ao vírus, infectou parte considerável da população ameaçando a sua integridade ética, a sua capacidade de distanciamento crítico e o seu julgamento moral.


Nesse estranho Reino dos Céus administrado por corruptos, ignorantes e negacionistas, que foram a base da eleição de Jair Messias Bolsonaro, os fiéis seguem os passos do seu chefe adorador de torturador e genocida contumaz que tem feito de tudo para deixar os brasileiros a deriva desde o início da pandemia no Brasil.


Ao contrário do gado servil, usado como massa de manobra, eu e a maioria do povo brasileiro esperamos, ardentemente, que seja instalada a CPI da Pandemia para que se prove os crimes praticados por este demônio encarnado que está destruindo o país e matando sistematicamente os seus cidadãos.


Esperando que os criminosos paguem pelos seus atos e que a justiça seja feita para todos, desejo também que os cidadãos de bem se arrependam, um dia, de todas as suas péssimas escolhas.

Porto Alegre, 15 de abril de 2021.


* Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

 
 

COLABORE

  • Facebook
  • Youtube

Apoie o jornalismo livre, independente, colaborativo e de alta integridade, comprometido com os direitos e as liberdades coletivas e individuais. Participe dos novos modelos de construção do mundo das notícias e acredite que uma outra imprensa é possível. 
 

O Esquina Democrática não se submete às avaliações métricas, baseadas em quantitativos que impulsionam visualizações, acessos, curtidas e compartilhamentos. Também não compactua com modelo  de trabalho que prejudicam a produção de conteúdos e colaboram com a precarização profissional. 

BANCO 136 - UNICRED
AGÊNCIA 2706
CONTA 27928-5
ALEXANDRE COSTA
CPF 559.642.490-00

CHAVE DO PIX

 559.642.490-00

bottom of page