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Disputa política no Brasil vive uma era sofisticada que deixou o jogo pesado, por Carlos Wagner (*)

Velocidade dos fatos requer líderes com autonomia no Congresso Foto: Reprodução

Os pensadores da disputa política brasileira sofisticaram as suas estratégias e o jogo ficou pesado. A sofisticação aconteceu porque o ambiente político mudou muito em relação à época em que a disputa era polarizada entre o PT e o PSDB. Era uma disputa civilizada, na qual a democracia não corria riscos. Agora, o embate ocorre entre petistas e bolsonaristas de extrema direita, espalhados em vários partidos, que defendem abertamente um golpe de estado. Dei-me conta disso quando ouvi o senador Jaques Wagner, 72 anos (PT-BA), líder do governo no Senado, declarar seu voto a favor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/2023, que limita o voto monocrático (individual) dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de outros tribunais superiores. Wagner foi seguido por outros senadores da base do governo, como Otto Alencar, 76 anos (PSD-BA), e Ângelo Coronel, 65 anos (PSDB-BA). A votação foi em dois turnos com o mesmo placar, 52 a favor e 18 contra. O senador Wagner foi criticado porque o governo era contra a PEC. No dia seguinte à aprovação da emenda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reuniu com os ministros do STF para aliviar a tensão.


Aimprensa publicou que Lula tinha sido surpreendido pela decisão do seu líder no Senado. Mesmo que tivesse ouvido Lula dizer que não sabia, acho isso irrelevante. Ao contrário do que ocorreu nos seus dois outros mandatos na Presidência da República (2003 a 2010), em que delegava poderes aos líderes do seu círculo pessoal, desta vez Lula sabe o que acontece ao seu redor. Pode não saber tudo. Mas sabe o essencial. Mais ainda: o senador Wagner e o presidente se entendem pelo olhar, um dito muito popular nos tempos das máquinas de escrever nas redações, usado pelos repórteres para definir a existência de uma sintonia perfeita entre duas pessoas. Essa sintonia é fundamental nos dias atuais porque os líderes do governo e da oposição precisam tomar decisões rápidas e baseadas nos acontecimentos do momento. Por quê? A oposição não é mais feita pela direita democrática. Mas pela extrema direita, que se aglutinou e se organizou graças à liderança do ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL). E tem força para complicar a vida dos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, 47 anos (PSD-MG), e da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, 54 (Progressistas-AL). O prestígio político do ex-presidente elegeu oito senadores, 99 deputados federais e vários governadores. Faço parte do contingente de repórteres que acreditava que a derrota de Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022 enfraqueceria a liderança do ex-presidente entre aqueles que elegeu. Estava enganado. Nem mesmo a sentença do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que o tornou inelegível por oito anos abalou a sua liderança. Bolsonaro continua dando as cartas para os seus seguidores. Um dos motivos dessa lealdade é porque a maioria dos eleitos era pessoas sem expressão política que acreditam que serão reeleitas se continuarem fiéis ao bolsonarismo raiz, que prega o golpe de estado e outras pautas exóticas.


Essa PEC do STF nasceu e cresceu entre os bolsonaristas raiz e foi enfiada garganta abaixo do senador Pacheco. A lista das brocas da extrema direita com o STF é grande, vou citar duas: a primeira foi a determinação dos ministros de que o então presidente Bolsonaro seguisse as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) durante a pandemia da Covid-19 – sobre o assunto há matérias, um documento de 1,3 mil páginas da CPI da Covid do Senado e outras inúmeras informações disponíveis na internet. A segunda bronca é com a atuação dos ministros durante a tentativa de golpe dada pelos bolsonaristas radicalizados que em 8 de janeiro quebraram tudo que encontraram pela frente no Congresso, no Palácio do Planalto e no STF, em Brasília (DF). Na ocasião, 1,2 mil pessoas foram presas e, nos dias seguintes, várias outras autoridades que conspiraram contra a democracia – há matérias na internet. Esse era o cenário na ocasião da votação da PEC do STF no Senado. A decisão do senador Wagner de votar a favor da aprovação da PEC o colocou nas manchetes dos principais noticiários nacionais durante toda a semana. Lá no meio das matérias era mencionado o berço bolsonarista onde a proposta tinha nascido. Também se tornou secundário o fato de que a PEC original foi desidratada. E que a proposta ainda tem um longo caminho a percorrer na Câmara. Trocando em miúdos. Os bolsonaristas não puderam ir para as redes sociais cantar marra que tinham colocado o STF contra a parede.


Outro assunto que mostra esse novo normal na estratégia da disputa política. Na quinta-feira (23/11), aconselhado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o presidente Lula vetou, alegado inconstitucionalidade, a desoneração da folha de pagamento das empresas de 17 setores da economia que tinha sido aprovada pelo Congresso – há matéria na internet. Houve uma gritaria imensa contra o veto por parte de empresários, sindicalistas e comentaristas econômicos. Em 2021, o então presidente Bolsonaro também vetou a desoneração da folha. O veto foi derrubado pelo Congresso Nacional. Depois, Bolsonaro sancionou uma lei que prorrogou a desoneração até 2023. Tudo indica que o Congresso vai derrubar o veto de Lula. Haddad, em uma entrevista coletiva, disse que tem um plano para substituir a desoneração da folha de pagamento. E que irá apresentá-lo quando retornar da COP-28, que acontece nos dias 29 e 30, em Dubai, nos Emirados Árabes. Até lá, acredita que já tenha acontecido a aprovação da PEC da Reforma Tributária, que tramita na Câmara dos Deputados, para onde voltou depois de ser aprovada e modificada pelo Senado. Essa proposta tramita há mais de 20 anos, e se o governo Lula a aprovar será uma vitória política. Arrematando a nossa conversa. Os repórteres da minha geração (tenho 73 anos) conviveram com golpistas que conspiravam na clandestinidade. Hoje é outra história. Eles se orgulham de serem golpistas e conseguem se eleger com grandes votações defendendo teses exóticas e fantasiosas. Não é só no Brasil que isso acontece. Há poucos dias, na Argentina, elegeram como presidente da República Javier Milei, uma pessoa que fala com o seu cachorro morto. Nos Estados Unidos, o candidato favorito para as eleições presidenciais de 2024 é o ex-presidente Donald Trump (republicano), que foi apontado como responsável pela invasão do Capitólio (o prédio do Congresso americano) por seus seguidores, em 6 de janeiro de 2021, para evitar que o Colégio Eleitoral referendasse a vitória nas urnas do atual presidente, Joe Biden (democrata). Como diziam os meus colegas repórteres dos assuntos climáticos: é o novo normal. Muitos comentaristas políticos ainda não se deram conta.





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