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DEGENERESCÊNCIAS – CAP - 3, POR PAULO GAIGER (*)


Acabo de reler Orlando, da Vir. Um alívio para mim, me identifico de corpo e alma. Orlando é mulher, é homem, é ambos, é imortal, viaja pelos tempos, cruza mundos daqui, dali e de acolá, da alma e da carne. É transcendental. Virgínia é uma puta escritora e me apaixonei por ela. Namorei a Vir com todo o meu amor, tesão e admiração. Acho que ela também me amou. Acho até que estou no livro dela. Orlando tem essa questão da sexualidade e do feminino que me abocanhou de vez. Mas esses assuntos que dizem ser do demo, nem podem ser enunciados onde estou agora. Censura e morte. Por isso, escondi o livro bem escondidinho. Um livro já chamaria a atenção. Nessa virada do primeiro milênio, vocês nem sabem o que eu vejo com esses meus olhos que a terra pensa que há de comer. Pois não, nunquinha. Os cristãos e a igreja de São Pedro já estão por todas as partes da Eurásia e da África. Como sempre, perseguindo, matando em nome do grande vírus, deus. Mas os cristãos, entorpecidos na tarefa de enfiar a fé goela abaixo de qualquer vivente, também se matam entre si. Herege! Gritam uns para os outros. Eu tenho que proteger os ouvidos, encoberta que estou aqui debaixo deste carroção. Uma gritaria como deus e o diabo gostam. Eles se desafiam: eu sou mais cristão que você. Não, eu é que sou. Parece coisa de adolescente competindo por quem tem o pintinho maior. E tripas furadas, cabeças cortadas, corpos torturados, mulheres assassinadas, estupros a dar com pau. Eu mesma já fui violentada por cristãos um montão de vezes, em nome da cruz e da fé. No ano 1000, essa gente sem noção acha que Jesus Cristo voltará para salvar o planeta e a humanidade escolhida. Só que não. Delírio! Degenerescências! Mas por conta disso, a turba quer limpar o mundo dos pescadores... não, não. Que pescadores, nada! Tô chocada comigo mesma e isso que eu nem bebi. Dos pecadores, dos pecadores e dos pagãos. É isso! Todo mundo deve morrer, menos a turba assassina. Apocalipse now. Anjos furiosos devem descer dos céus e somente os puros, isto é, os que nunca beijaram na boca, dançaram, tiveram sexo consensual e orgasmos múltiplos, ai, Caetano, e são ruins da cabeça e doentes dos pés, serão escolhidos para irem para o reino. Que vão logo, rezei debaixo do carroção. Mas não foram. Nem anjos desceram dos céus. Nem Jesus voltou. A turba ficou por aqui e está invadindo todos os lugares e também o futuro. Apatifando até o ministério da educação de um paisinho sem respeito. Pode? Vírus mutante é assim. Vincit omnia veritas? Sei não. Fugir da mentira e da violência virulenta dos homens da fé tem sido meu day to day life por estas bandas. Eu fui uma das filhas de Lot. Lembram-se do antigo testamento? Meu pai era um canalha e um negociante muito do sem-vergonha! Primeiro ofereceu a minha irmã e a mim para sermos estupradas pelos exércitos inimigos na guerra entre reis da Mesopotâmia, lugar onde séculos antes eu havia engordado, plantado e semeado aveia e cevada. Já tínhamos sido violentadas por dois anjos que vieram das alturas, me disseram. E eu nem sabia o que era marijuana. Não satisfeito, nosso próprio pai abusou sexualmente da gente. Minha irmã pariu Moabe e Amón. Dá pra ver que meu pai foi avô e pai dos meus sobrinhos. Nunca mais olhei pra cara dele. O bandido depois mentiu dizendo que nós o embebedamos e que a culpa era nossa. Naquela época não havia B.O., nem delegacia da mulher e deus, branco, poderoso, hétero normativo, macho e impotente, o perdoou. Que vírus abjeto! Degenerescência! Como cansa!


Cap. IV – na próxima semana


Conto publicado no e-book VIVER E MORRER NA PESTE – EPIDEMIA NA ARTE Ed. UFPel - 2021.


(*) Paulo Gaiger é artista professor do Centro de Artes – UFPel.

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