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CRÔNICA POLICIAL, POR NORA PRADO (*)


Meu pai sempre foi um leitor voraz e assíduo. Lembro-me do seu prazer no fim do dia quando, depois do banho tomado, ele sentava-se na cadeira de balanço da sala de estar para ler o livro da ocasião. Cervantes, Eça de Queiroz, Guy de Maupassant, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Mário Quintana, Somerset Maugham, entre outros, se tornaram familiares para mim que olhava para as capas, curiosa sobre o que narravam aquelas histórias. Na época em que ele lia Dom Quixote o seu entusiasmo foi tão grande que ele passou a narrar os episódios para mim e o meu irmão a noite antes de dormirmos. Que prazer era escutar a sua voz comprometida numa história fascinante cheia de aventura e emoção.


Meu pai lia os filósofos gregos e os jornais diários, Correio do Povo e Zero Hora, mas tinha um prazer especial por Georges Simenon e os seus romances policiais que ele devora em estado de absoluta concentração. Infelizmente nunca nos narrou essas histórias de mistério e crimes complicados de decifrar. Mas nos contava sobre o tema geral de cada aventura.

Com onze anos de idade eu também passei a ler jornal, mas só me interessava pela crônica policial. Ali, sim, as histórias eram verdadeiramente empolgantes e plenas de um fascínio macabro e sórdido. Eu ficava impressionada com a capacidade e a imaginação dos criminosos e a audácia dos assassinos. Me compadecia das vítimas, naturalmente, mas ficava mais interessada nas motivações obscuras ou secretas dos facínoras. Também adorava filmes de mistério e terror que eu assistia na casa da minha amiga, Deborah Greco Gastaldo, nos fins de semana. Naquela época, embora estivéssemos sob a ditadura militar com todas as suas atrocidades, a violência não era naturalizada em nosso cotidiano. Digo, não era escancarada e em doses cavalares como hoje. Os crimes comuns motivados pelas paixões da inveja, ciúmes e ganância continham algo romantizado pelo nosso maior cronista policial de todos os tempos, o insuperável Nélson Rodrigues, que nos narrava A Vida Como Ela É ou era.


Neste ano, especialmente com a pandemia, notei que o meu filho Aramis, de 16 anos, trocou os canais de desenhos animados pelo noticiário policial da Record e do SBT. Por um lado, acho interessante que uma pessoa com certo grau de deficiência intelectual e cognitiva, como ele, se interesse pela vida real com seus tormentos e dores, mas, acordar todos os dias de manhã com assaltantes baleados sendo perseguidos, infanticídios, feminicídios, desastres de automóveis, assaltos e toda a sorte de tragédia urbana me dá um asco profundo da nossa civilização. Nossa barbárie moderna.

Me pergunto como ele pode ir para a escola depois de todas essas visões do inferno como se tudo fosse normal? Dentro do carro ponho música brasileira ou música clássica para elevar o espírito e purgar a mente de todas essas anomalias. O deixo no Marista Ipanema e volto para casa desejando um dia ensolarado e pleno de ventura, apesar de tudo.


Na volta, quando vou buscá-lo, o Aramis sempre me conta alguma novidade sobre os seus colegas, alguma bagunça ou conhecimento aprendido em aula. E fica satisfeito de me contar e exercitar a sua nova aquisição, como por exemplo, ao descobrir as associações cabíveis para a palavra crepúsculo, cujo significado do breve momento de tempo entre o fim do dia e o início da noite, também significa fim, transição, encerramento de um ciclo. Me dou conta de que ele é muito parecido comigo em sua sede de aprender o mundo e fazer as conexões possíveis entre o real objetivo e a sua subjetividade. A noite assistimos a novela Gênesis e nos deliciamos com as aventuras dos personagens bíblicos e a saga de cada um. De certo modo há muitos crimes e perversidades, mas mostrado com estética e romantismo. Pelo menos ele vai dormir mais tranquilo e sonhar para assimilar e acomodar todas essas “loucuras”.


No fundo ele segue a mesma curiosidade do seu avô, Vasco, que adorava histórias policiais e crimes resolvidos como demonstra, agora, ao cultuar os filmes do Harry Potter. Para minha tranquilidade o Aramis transborda um sentimento de justiça e bondade que me comove e alivia. Faz poesia, se encanta pelas meninas e na hora de escolhermos um filme para assistirmos juntos, no sábado à noite, só é preciso que cumpra dois requisitos: atos heroicos e amor verdadeiro.


No fundo ele é um romântico como eu que adora histórias medievais de amor com príncipes celtas e finais felizes. Em tempos de tamanho individualismo, grosseria, ódio e terror disseminado em rede, um pouco de ingenuidade é extremamente saudável e recomendado. Feliz do dia que num jornal houver a sessão Crônica Amorosa composta só de poesia e crônicas de amor. Neste dia teremos alcançado o verdadeiro estágio de civilização.


Porto Alegre, 22 de outubro de 2021.


FOTOS: Nelson Rodrigues; José, em Gênesis; e meu filho Aramis.

(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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