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COOPERATIVISMO NA SOCIEDADE CAPITALISTA, POR BRUNO MENDONÇA COSTA E MANOEL BRUM (*)


Não há no mundo atual nenhum país socialista. Vivemos todos numa sociedade capitalista. Mesmo os que se declaram socialistas na verdade encontram-se sob o manto do capitalismo. Isto se entendermos socialismo como propriedade social dos meios de produção e capitalismo como propriedade privada dos meios de produção. É lógico também que longe está a ideia de comunismo, pois neste o próprio Estado, nas suas várias formas atuais, estará ausente. Ou seja, pensa-se que haverá uma transição de alguma forma de capitalismo para o socialismo e deste para o comunismo. E ninguém sabe com alguma certeza como será o socialismo do futuro e muito menos o comunismo.


Na verdade, portanto, comunismo é uma preocupação teórica, pois, se um dia ele existir, nenhum dos viventes do mundo atual vai conhecê-lo. Hoje, ele é uma especulação, um fim a ser alcançado, de acordo com Karl Marx, e uma boa estratégia para assustar e enganar as pessoas. Pensar numa sociedade socialista já é algo difícil, mais difícil é imaginar uma sociedade comunista.


Em nossa época, nossa preocupação deve consistir em saber como funciona o capitalismo, pois ele se veste com muitas roupas e com disfarces criativos e enganadores. Isso não quer dizer que abandonemos as especulações sobre o futuro da humanidade.


Assim o cooperativismo deve estudar e conhecer a fundo o modelo capitalista para conseguir transitar nesta sociedade aperfeiçoando as ações de cooperação visando o bem estar social.

O cooperativismo é bem aceito no RGS e desfruta uma das posições de liderança em nosso país. Foi conquistado com muito trabalho e parte de uma ideia relativamente simples, a de que as pessoas precisam umas das outras, devem se irmanar e lutar juntas para alcançar determinados objetivos. Talvez as missões jesuíticas e as posturas coletivistas adotadas por elas tenham se entranhado em nossa cultura e explique pelo menos parcialmente nossa proeminência no cooperativismo.


O trabalho em cooperação acompanha o desenvolvimento humano desde de seus primórdios no planeta. A forma cooperativa mostrou pela experiência que funciona e traz os resultados esperados.


As organizações capitalistas crescem, aperfeiçoam-se e desenvolvem-se, adotando todas as inovações apresentadas pela ciência e tecnologia. Mas, diferente das cooperativas, a empresa capitalista ambiciona o lucro, quanto maior melhor, não tem compromisso social (salvo em discurso), e sua administração é autocrática e competitiva. Elas visam monopolizar o mercado e uma dedica-se a engolir a outra, numa competição feroz.


Costuma-se dizer que isso é da natureza do capitalismo e é propalado como progresso, mas para outros, ao contrário, é sinônimo de visão desumana e cruel. No sistema capitalista não há como realizar transformações radicais com espirito coletivista a não ser proporcionar mais lucros aos sócios. As transformações são possíveis, é claro, dentro dos limites permitidos pelo lucro.


Por isso, vemos um capitalismo neoliberal e selvagem, como no Brasil, e um outro como na social-democracia, “mais humano”, “menos desigual”, com empresas com mais consciência de seu dever social, sem perder de vista o objetivo principal que é o lucro. Que certamente não será compartilhado pelos trabalhadores responsáveis pela construção deste lucro.


Ora, no cooperativismo, temos um cenário mais democrático e direcionado para atender as necessidades das pessoas. Os associados se reúnem em grupos de diferentes tamanhos, mas permanece a possibilidade de discussão sobre os objetivos a serem alcançados, pois as organizações cooperativas são mais democráticas, há possibilidade real de transformações para melhor e também mais democracia nos comandos. E, algo inusitado, os lucros passam a se chamar de sobras e elas são proporcionalmente distribuídas entre os associados de acordo com critérios previamente estabelecidos. Não se trata apenas de uma palavra e sim produto de uma decisão democrática e racional.


No entanto, as empresas cooperativas não são proprietárias dos meios de produção. Estes continuam sendo uma propriedade privada de seus associados, os quais se associam e concordam em colocar suas propriedades dentro de algo maior, a empresa cooperativa, o que fazem voluntariamente e com inteira liberdade de decisão. Assim como ingressam podem abandonar a cooperativa. Ela, portanto, em sua essência, é um ente que nasce fragilizado, pois depende da subjetividade do associado, e segue fragilizada em sua existência, mesmo que se demonstre eventualmente forte em suas negociações.


Isso acontece, porque a cooperativa faz parte de um mundo maior, o mundo capitalista, o qual faz tudo que pode para que o cooperativismo não obtenha sucesso.


Não estamos nem sequer tocando num aspecto importante, as ambições pessoais do associado, relacionadas aos seus desejos, seu egoísmo, a dificuldade de compreender os objetivos coletivos, a ausência de solidariedade, a ignorância, a mentalidade capitalista absorvida desde que nasceu.


Em conclusão, o cooperativismo é fora de dúvida um avanço extraordinário na sociedade. Mas seu inimigo principal, o capitalismo, está estruturalmente construído na sociedade com uma força política formidável, em termos nacionais e internacionais, representada por todas as instituições que a formam.


Os cooperativistas, portanto, só conseguirão continuar avançando se lutarem em duas frentes, a favor do cooperativismo e contra o capitalismo. Parece contraditório, mas não é. Quanto mais forte o capitalismo neoliberal e selvagem maior o risco de aparecerem obstáculos ao cooperativismo. A fortaleza do cooperativismo mostra-nos que a luta e o sucesso são possíveis. E, nesse sentido, compreendendo que estão inseridos dentro de um mundo capitalista não podem deixar de adotar as mesmas ferramentas utilizadas pelas empresas capitalistas, porém, planejando e tendo como alvos os princípios defendidos pelo cooperativismo.


As empresas são capitalistas, o Estado é capitalista, a mentalidade predominante é do tipo capitalista, e as cooperativas estão inseridas neste mundo capitalista, onde elas obrigatoriamente terão de se amoldar às condições reais existentes, sem deixar de lado os objetivos pelos quais sempre lutaram.


Concluímos que o cooperativismo faz parte da engrenagem capitalista. Ainda que se admita que é um capitalismo com melhores intenções. Só deixará de ser capitalista quando a própria sociedade também deixar de ser capitalista.


(*) Manoel Brum – Conselheiro de Cooperativa

(*) Bruno Mendonça Costa – Médico Psiquiatra


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