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Confissão, poema de Nora Prado (*)

Matei um homem nesta noite.

Estendido ao meu lado, inerte,

parece que dorme.

Coroei a sua fronte serena

com os lírios da madrugada

e a delicadeza da extrema-unção.

Não há culpas nem saudades,

só a imaculada beleza

e a poesia secreta

por onde se esvai

conformada

a potência rubra da vida.


Crueldade sem assombro

maçã despida de sumo.

Mar de espuma no deserto

ventania no horizonte e

o silêncio pleno da ruptura.


Alça gasta da vida,

pluma solta do tempo.

Meus olhos bebem seu gozo

na última fatia do esplendor

presente endereçado ao vento.

Ternura salgada ao luar

repousa o corpo amado

entregue a morte.


Escravidão suspensa, sorte

carne trespassada

pelo verbo amar.

Matei um homem nesta noite,

sonho que dorme nesta cama.


* Poema do livro A ESPESSURA DA VIDA, de 2017, editado pela Farol 3 Editores. Pintura de Lucien Freud.



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