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COMO VÃO SER OS ÚLTIMOS PASSOS NO CARGO DO PRESIDENTE BOLSONARO?, POR CARLOS WAGNER (*)


Está chutando quem diz que sabe quais serão os últimos passos de Jair Bolsonaro (PL) no cargo do presidente da República. Porque nem ele sabe. O rumo que irá tomar deverá ser decidido no minuto final do seu mandato e será aquele que ele julgar ser o mais vantajoso para a sua família. Nem o presidente acreditava que seria eleito em 2018. Ao assumir o governo em 2019, ele e seu círculo íntimo de líderes tinham ideias dispersas do que queriam para o Brasil, em especial o ministro da Economia, Paulo Guedes. Soma-se a esses fatos dois outros que aconteceram: a pandemia causada pela Covid e a guerra entre Ucrânia e Rússia. O resultado disso tudo pode ser visto em dois relatórios. O primeiro, com 1,3 mil páginas, é da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado da Covid-19 (CPI da Covid), que coloca as digitais do governo nas 700 mil mortes de brasileiros pelo vírus. E segundo é um diagnóstico da equipe de transição sobre o governo Bolsonaro entregue ao seu sucessor, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O que estou escrevendo não é opinião. Estou relatando dados que temos publicado nos últimos quatro anos. Vamos conversar sobre os últimos passos do presidente no cargo.


Os últimos passos dos presidentes brasileiros têm sido ao encontro do seu substituto, para transferir-lhe a faixa presidencial. No dia seguinte à vitória de Lula no segundo turno, Bolsonaro já afirmava que não iria colocar a faixa presidencial no seu sucessor. Tudo indica que os seus últimos passos no cargo deverão ser em um condomínio em Palm Beach, Flórida (EUA), de propriedade do seu ídolo, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump (republicano). A viagem foi marcada para quarta-feira (28/12), no meio da manhã foi remarcada para o dia seguinte e no final da tarde para esta sexta-feira. A questão mais importante não é para onde o presidente vai viajar, ou se vai. Não é crime não passar a faixa presidencial. O mais importante é que, ao não seguir o ritual da passagem de governo, ele incentiva os seus militantes dispersos pelo país e os acampados na frente dos quartéis a esperarem por um milagre, o envolvimento das Forças Armadas em um golpe de Estado. São militantes como o empresário do Pará George Washington de Oliveira Souza, 54 anos, que foi preso preventivamente pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), na véspera do Natal, por ter colocado uma bomba em um caminhão carregado com 63 mil litros de querosene de aviação, nas proximidades do aeroporto de Brasília. O artefato foi descoberto e desativado. Ele fez parte do acampamento de bolsonaristas montado na frente do quartel-general do Exército, na capital federal. E também do grupo que na segunda-feira (12/12) tentou invadir a sede da Polícia Federal (PF) para libertar o cacique Acácio Serere Xavante, 42 anos, de Poxoréu (MT), que cumpre prisão temporária decretada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR). O cacique é acusado de conspirar para impedir a posse de Lula. A tentativa de invasão à PF falhou e os manifestantes fizeram um quebra-quebra pelas ruas e avenidas de Brasília.


Também na véspera do Natal, a Polícia Militar do Distrito Federal encontrou 40 quilos de dinamite, coletes à prova de bala e outros materiais bélicos escondidos em um mato nos arredores de Brasília – há matéria na internet.


Bolsonaro está jogando com essa situação. Ele sabe que é perigosa. A pergunta que temos que responder para o nosso leitor é até onde ele vai espichar essa corda? Ele não está sozinho nessa estratégia. O seu vice-presidente, Hamilton Mourão, está junto. E tentou apagar fogo com gasolina dizendo que não substituirá Bolsonaro na passagem da faixa presidencial para Lula. Qual é a jogada do vice? A leitura que a imprensa faz é que ele pretende ocupar o lugar de Bolsonaro como líder da extrema direita. Mourão foi eleito senador pelo Rio Grande do Sul e pelas suas declarações vai começar o mandato marchando com o pé errado. Chamo a atenção dos meus colegas nas redações que seria legal se fosse feita uma pesquisa para saber o que os brasileiros acham de Bolsonaro não passar a faixa presidencial para Lula. E sair do Palácio da Alvorada pela porta dos fundos. Como disse lá na abertura da nossa conversa. O foco do presidente sempre foi a sua família. Ele tem três filhos parlamentares: Carlos, vereador do Rio, Flávio, senador pelo Rio de Janeiro, e Eduardo, deputado federal por São Paulo. Certamente, o que fizer vai repercutir na carreira dos filhos.


Por tudo que aprendi durante esses quatro anos a respeito do comportamento do presidente, não acredito que os últimos passos do seu mandato sejam rumo a um canto do Alvorada para chorar pela perda do cargo. Não é do seu feitio tal procedimento. Ele vai agir da maneira que considerar ser a mais vantajosa para a sua família. Não acredito que se envolva diretamente em nenhum ato violento. Mas também não fará nada para impedir que aconteça. Os filhos parlamentares do presidente têm se mantido a uma certa distância dos acontecimentos relacionados ao final do mandato do seu pai. Durante toda a sua vida política, que já soma mais de 30 anos, o presidente sempre lidou com situações-limite. Mas jamais com uma do calibre do rolo que está montando com os seus seguidores em Brasília. O tamanho desse rolo pode ser dimensionado pela fala do delegado-geral da Polícia Civil do Distrito Federal, Robson Cândido. Ele disse ter ficado surpreso com o grau de devoção do empresário George Washington à causa bolsonarista – o depoimento do preso está disponível na internet. Dei uma navegada pelas redes sociais bolsonaristas, e a quantidade de fake news circulando nunca esteve tão explosiva como no momento atual. O perigo real dessa situação é algum fanático acreditar que ouviu a voz de Deus lhe dando uma ordem e fazer uma besteira. Esse vai ser o mais longo fim de semana da história recente do país. Podem apostar.


(*) Carlos Wagneré jornalista, repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, em São Paulo. Atualmente, Carlos Wagner é responsável pelo site Histórias Mal Contadas.

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