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BRASIL EM TRANSE PELO DIABO NUBLANDO O SOL, POR NORA PRADO


A semana está quase terminando, mas, me sinto exausta como se desde o 7 de setembro até agora, tivesse passado um mês e não só quatro dias. Desde então, parece que vivemos num torvelinho alucinante promovido pelo Talibã TanTan, suas hienas amestradas e os milicos coniventes com a Ópera Bufa: O Golpe ao STF. Neste roteiro de realismo fantástico com cenas eletrizantes, personagens horripilantes, diálogos aloprados e cartazes bizarros vivemos numa montanha russa desconjuntada onde não faltaram emoções e cujo cenários principais foram a esplanada dos ministérios e a Avenida Paulista. O ato previamente planejado e acalentado, há mais de dois meses, pelo genocida em conluio como escritório das fakes, a bancada evangélica da bala e da bíblia, coronéis do agronegócio, madeireiros, empreiteiros e simpatizantes rumaram para Brasília demostrando lealdade ao chefe e dispostos a invadir o Supremo Tribunal Federal.


Desde o fim de semana que antecedeu o Dia da Independência, caravanas desembarcavam na capital lotando a rede hoteleira com o elenco de apoio e os figurantes entusiasmados. A maioria mais humilde, paga pelo diretório central do ato nas suas despesas com transporte, hospedagem e alimentação, 100,00 reais de ajuda de custo, a camiseta da seleção brasileira e cartazes fabricados pela máquina bolsonarista, naturalmente, foi bancada com o dinheiro do contribuinte. Nas principais capitais também houve aglomerações de idosos saudosistas do regime militar prontos para a invasão e queda do STF e implorando pela volta do AI5, pior e principal dispositivo do cerceamento das liberdades individuais, censura expressa, perseguição, tortura e morte aos dissidentes do regime. Numa espécie de revive “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” essa turma animada, ostentando cartazes mal redigidos em português e, ainda piores em inglês, destilava o seu ódio característico com palavras de ordem desconexas e, claro, fazendo a apologia de libertar o país do comunismo. Embalados na toada tatibitate do seu líder, mal percebiam que eram a massa de manobra perfeita para o criminoso intimidar o STF e, principalmente, o ministro Alexandre de Moraes que incluiu o Talibã TanTan como investigado no escândalo das Fake News.


Depois de sobrevoar de helicóptero, pelo céu azul de brigadeiro, o Talibã desceu e discursou para a turba ignara que o aplaudia entusiasmada. Mas, além de disparar xingamentos descabidos ao STF e, indiretamente enviar mensagens ressentidas à Alexandre de Moraes, não incitou a blebe rude a tomar de assalto o prédio do Judiciário, embora isso estivesse implicitamente autorizado pelo terrorista. Seu discurso inflamado não foi capaz de dar conta de nenhuma outra coisa, mesmo porque, nada havia a ser comemorado. A crise na saúde com um saldo de praticamente 580 mil mortos pela pandemia, a CPI revelando os podres do presidente e do alto escalão do Ministério da Saúde diretamente envolvidos no escândalo das propinas nas vacinas, a crise hídrica, as queimadas na Amazônia e Pantanal, os 14 milhões de desempregados e a inflação galopante jogando milhares de família de volta a linha da miséria e da vulnerabilidade, de gente passando fome e, lógico, a queda dos índices de popularidade e apoio ao presidente sem chances de reeleição. Mas tudo isso parecia ter virado névoa sem qualquer importância naquele momento. Numa espécie de amortecimento ou estado de transe coletivo, o povo saliva junto do seu ídolo no momento catártico de patriotismo às avessas. Um calor insuportável e a secura característica desta época do ano, aumentou com as queimadas e o desmatamento criminoso da Amazônia acentuando os perdigotos e os dejetos verbais do chefe da nação. Encerrado este primeiro ato da farsa, o Talibã e os seus asseclas, dirigiram-se para a aeronave que os levariam triunfantes para o segundo ato em São Paulo.


Na capital paulista o evento armado na Av. Paulista estava lotado de gente que tomava os quarteirões desde as dez horas da manhã. A maior concentração de ignorantes e perversos, por metro quadrado, parece que foi superior ao ato de Brasília e aguardava ansiosa pelo discurso do seu mito. O Talibã TanTan desta vez foi mais enfático e chegou a pronunciar o nome dos seu desafeto com todas as letras ao se referir a Alexandre de Moraes e incitar o povo contra as instituições nacionais, especialmente o STF. A massa foi ao delírio numa apoteose grotesca onde não faltaram faixas e cartazes expressando a alucinação coletiva de quem defende torturador e deseja o estado de sítio permanente. Ao final, Talibã ainda blefou que se encontraria com outros ministros e representantes do povo, no dia seguinte, no conselho da República, expediente utilizado em casos extremos como em estado de sítio. Saiu de cena neste ápice retumbante encerrando o seu teatro chinelão, mas deixando em dúvida o povo confuso sem saber ao certo quais atos subsequentes ocorreriam depois de tanta sanha de agressões e ameaças contundentes.


Nós, a maioria do povo descontente e revoltado com tamanha afronta e desequilíbrio mental deste sujeito egocêntrico e falastrão, ficamos batendo panela na janela e fazendo coro dos resistentes na data mais simbólica da República Brasileira. O Jornal Nacional, único veículo de televisão a mostrar a epopeia Bolsonarista na sua dimensão mais crítica, destacando as arbitrariedades e crimes de responsabilidade do Talibã TanTan ao longo do dia e esclarecendo os seus outros crimes, revelou que ele e seus atos antidemocráticos se encaminhava para enquadramentos possíveis como muito bem atestaram juízes e cientistas políticos ao longo da edição noturna. O telejornal ainda encerrou a sua cobertura mostrando o bater de panelas ruidoso de norte a sul por diversas capitais, numa prática comum ao longo do desastrado governo do genocida.


Enquanto isso, os caminhoneiros bancados pelos coronéis e do agronegócio e apoiados pelos políticos da bancada ruralista, estacionados ao longo das rodovias do sudeste, e em peso, nas proximidades de Brasília já estavam impacientes para invadirem a cidade, cercando e detonando com o STF conforme acordo de bastidores. Mas como a ordem do Talibã não vinha, seus súditos mais ensandecidos permaneciam a postos confiantes num desfecho mais explosivo e emocionante. Mas quanto mais o tempo passava, sem que qualquer sinal fosse dado neste sentido, o descontentamento e frustração tomavam conta. Zé Trovão, foragido da justiça por desacato e incitação terrorista dos caminhoneiros aos ministros do STF, descobriu-se, estava no México e sem poder de força para comandar o seu exército.


Soubemos depois que a madrugada fora tensa e que nem o Talibã TanTan pode dormir sabendo do estrago feito pelos seus atos e palavras que despertavam a indignação e repúdio nacional repercutindo muito mal na imprensa local e internacional. A propósito, nenhuma liderança fora convidada para a tal reunião anunciada no palanque que, também soubemos depois, que o Talibã se confundiu, era apenas uma reunião ministerial para avaliar as consequências do seu showzinho desastrado. Mas o leite já fora derramado. As bolsas brasileiras despencaram, o dólar aumentou e o risco Brasil igualmente. Pressionado pelos seus conselheiros o incompetente baixou o tom e recuou, como sempre, e como o cachorro com o rabo entre as pernas, acuado, enviou uma mensagem para o comando dos caminhoneiros. Talvez pelo tom fraco da voz e esgotado, depois da sua atuação bombástica, mas se borrando de medo com os prováveis desfechos dos arroubos da véspera, os caminhoneiros julgaram tratar-se de um trote e não reconheceram a mensagem como verdadeira. Alguns pensaram que fosse o comediante Marcelo Adnet querendo desmoralizar o Talibã e esvaziar o ato. Começou o burburinho, fofoca, boatos, e, em pouco tempo o caos estava formado. Os caminhoneiros, que até então permaneciam no acostamento, foram para as pistas, travando as principais rodovias de acesso e ameaçando o desabastecimento de combustíveis e alimentos. Num moto contínuo o dia 8 de setembro culminou com filas de carros nos postos de gasolina e gente aflita fazendo rancho nos supermercados. Tudo num crescendo de ansiedade e temor por já conhecer o poder de fogo dos caminhoneiros. Mesmo não se tratando de uma greve, que fique bem claro, pois a iniciativa não veio da categoria, mas do empresariado do agronegócio preocupado em promover o caos e a desordem e intimidar o STF na votação do Marco Temporal e votar em seu favor e contra a demarcação das terras indígenas que seguiram acampados desde antes durante e depois todo o imbróglio do Sete de Setembro.


Nesse meio tempo, o próprio Marcelo Adnet, ao saber sobre a confusão envolvendo o seu nome, resolveu dar o troco e gravou um áudio imitando o Talibã TanTan que acabou sendo repassado para os caminhoneiros que, desta vez, acreditaram tratar-se do próprio. Dizem que muitos deles permaneceram a postos, dançando a Macarena, orientada por Adnet TanTan, mesmo depois de o presidente ter esclarecido que a sua mensagem era autêntica e exigindo a retirada imediata das tropas, digo, dos caminhões.


Neste momento começou uma cascata de vídeos e áudios de caminhoneiros, revoltados com TanTan, reclamando da sua traição às promessas de invasão do STF, desiludidos por terem perdido o seu tempo e dinheiro durante o feriado, chamando o maldito de frouxo, corno, covarde, desgraçado e descendo a ladeira numa sequência de ofensas pessoais impublicáveis. Em meio ao turbilhão político, muitos resolveram, finalmente, desembarcar da Nau dos Insensatos, procurando refúgio para se descolar do Talibã num salve-se quem puder.

Na abertura dos trabalhos do STF o ministro Luiz Fux fez uma declaração extensa reprovando as bravatas do Talibã e reforçando a harmonia e equilíbrio entre os três poderes constituídos, ainda que o chefe do executivo desse demonstrações em contrário diuturnamente. O ministro Luiz Roberto Barroso foi ainda mais enfático denunciando os atos antidemocráticos de TanTan, mas lembrando que "Hoje, salvo os fanáticos, que são cegos pelo radicalismo, e os mercenários, que são cegos pela monetização da mentira, todas as pessoas de bem sabem que não houve fraude e quem é o farsante nessa história", afirmou.


Na esteira deste naufrágio, o MBL, partido de direita e notoriamente com perfil bolsonarista, apoiador do golpe de 2016, defensor da Escola sem Partido entre inúmeras pautas reacionárias, além de ter apoiado o Talibã, até o momento, nunca tinha feito manifestação contrária ao TanTan convocou manifestações populares, neste domingo dia 12, sugerindo as pessoas a usarem branco mas, desqualificando Lula e o PT e nitidamente excluindo a maior liderança de oposição do ato. Ainda por cima tiveram a audácia de distribuir panfletos com o slogan: “Nem Bolsonaro nem Lula”. Comparando Lula à Bolsonaro, numa nítida jogada eleitoreira e oportunista, sairão às ruas ao lado de Ciro Gomes e quem se dispuser a bradar contra o tinhoso e pedir pelo seu impeachment. Evidente que todos os atos contra o cretino e sua saída da presidência são importantes, mas o PT, PSOL, sindicatos e entidades civis sairão mais adiante numa nova manifestação marcada para o dia 2 de outubro.


Ao fim desta maratona, quando todos pensávamos que filme tinha terminado, eis que numa virada, digna dos mais audaciosos cineastas, surge o Vampiro Temer, levado de jatinho até o palácio, especialmente para redigir a carta de desculpas do Talibã aos membros da Suprema Corte de magistrados e ao STF. O Vampiro ardiloso ainda intermediou um telefonema entre Talibã e Alexandre o Grande Moraes, para ver se aliviava a barra do TanTan. Eis que se fecha o círculo medonho iniciado em 2016 quando o Vampiro retirava Dilma da presidência, com o auxílio luxuoso da maioria dos parlamentares canalhas, dando sequência ao maior retrocesso político, econômico, social e cultural da nossa República das Bananas. Encerrando com chave de ouro o nosso calvário neste reeditado Deus e o Diabo na Terra do Sol, mais de 100 pedidos de impeachment foram ignorados e devidamente abafados com os traseiros imundos de Rodrigo Maia e, atualmente, de Arthur Lira.


Fico imaginando que nunca este filme, assim como Terra em Transe, dois dos maiores clássicos de Gláuber Rocha seguem mais atuais do que nunca provando a visão de longo alcance e capacidade de entendimento da alma partida e agonizante do caráter brasileiro. Com todas as suas contradições, exageros, idiossincrasias, exuberância, selvageria, beleza e inocência em estado bruto e pleno. A genialidade de Gláuber, e certamente o seu tormento, era perceber a esquizofrenia de um povo marcado a ferro e fogo, escravizado pela barbárie do branco dede a sua gênese mas, ainda assim, ser capaz de transformar dor em estética, lágrimas e suor “numa esfuziante epidemia que se chamava Carnaval”, como bem sintetizou Chico Buarque.


Certamente o nosso gênio baiano ainda será devidamente reconhecido e homenageado quando, em breve, recontarem esta saga brasileira de um Sete de Setembro as margens plácidas de um gigante adormecido em berço esplêndido.


Até lá espero, sinceramente, que tenhamos saído deste filme de terror, com pitadas de pornochanchada, quando enfim, tivermos deposto o Talibã TanTan dentro de um buraco de garimpo abandonado onde se afogará intoxicado de mercúrio. Seus filhos, devidamente enjaulados, seguirão como memória viva do que pode a política unida ao fanatismo religiosos e a ignorância generalizada.

Neste dia, o sol voltará a brilhar sem a sombra horrenda do Diabo. Axé meu Pai Oxalá e minha Mãe Iemanjá!


Porto Alegre, 12 de setembro de 2021.

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