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ASSASSINATO DO CONGOLÊS MOÏSE KABAMGABE EXPÕE A REALIDADE DA VIOLÊNCIA DO BRASIL DOS RETROCESSO


Moïse Mugenyi Kabagambe, de 24 anos, foi agredido até a morte por cinco homens depois de cobrar salários atrasados referente a dois dias de trabalho, no valor total de R$ 200, no quiosque Tropicália, no Posto 8 da praia da Barra, onde trabalhava como garçom. O jovem congolês foi encontrado por policiais em uma escada do quiosque, amarrado, deitado no chão e já sem vida. O crime ocorreu no dia 24 de janeiro e os três suspeitos já foram identificados, presos e vão responder por homicídio duplamente qualificado, impossibilidade de defesa e meio cruel. A Justiça decretou a prisão cautelar de Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca, conhecido como “Dezenove”, Brendon Alexander Luz da Silva, o “Totta”, e Fábio Pirineus da Silva, o “Belo”. Os três homens foram levados para o Presídio de Benfica, no bairro com o mesmo nome. As imagens do crime se espalharam pelas redes sociais, gerando comoção e revolta devido a crueldade e a covardia dos agressores. Mais de 38 mil tweets com a hashtag “#JustiçaparaMoise” foram publicados até a noite de terça-feira, dia 1º de fevereiro, com manifestações de artistas, jogadores de futebol, autoridades e jornalistas.


As agressões foram gravadas pelas câmeras de segurança do estabelecimento. O primo da vítima, o autônomo Yannick Iluanga Kamanda, de 33 anos, disse ter visto as imagens, que mostram Moïse reclamando com o gerente do quiosque, que pega um pedaço de pau para ameaçar o jovem. O congolês chega a se defender com uma cadeira. Na sequência, descreve Kamanda, o homem vai embora, mas volta em seguida com outras pessoas que aplicam um golpe no pescoço de Möise, e o imobilizam. A partir daí o jovem começou a sofrer uma série de agressões.

De acordo com o primo da vítima, o estabelecimento continuou funcionando normalmente, após as agressões a Moïse. O corpo ficou atirado no chão e o gerente seguiu trabalhando normalmente, como se nada tivesse acontecido. A perícia identificou várias áreas hemorrágicas de contusão e vestígios de bronco aspiração de sangue e o atestado de óbito atribui a morte ao traumatismo do tórax com contusão pulmonar provocada por ação contundente. A família só descobriu a morte na manhã do dia seguinte, terça (25), quase 12 horas após o crime.

MORTO A PAULADAS Uma barra de madeira, que tinha sido descartada em um mato perto do local do crime, foi apreendida. O delegado também afirmou que as pessoas que agrediram o congolês não trabalham no quiosque. A polícia divulgou imagens das câmeras do quiosque onde o congolês foi espancado até a morte. O vídeo mostra que Moïse Kabamgabe recebeu ao menos 30 pauladas dos agressores — parte delas enquanto estava imobilizado no chão, sem chance de defesa.


‘FUGI DO CONGO PARA QUE NÃO NOS MATASSEM‘

O corpo de Moïse foi sepultado no domingo (30), no Cemitério do Irajá. Familiares e amigos que acompanhavam a cerimônia protestaram e clamavam por justiça. O congolês chegou ao Brasil com 11 anos, em 2011, acompanhado da mãe e dos irmãos, todos refugiados dos conflitos armados na República Democrática do Congo. Em nota de repúdio ao crime, a comunidade de congoleses do Rio de Janeiro observou que Möise havia crescido em um lar repleto de amor.

A mãe de Moïse contou ter fugido do Congo para que a família não fosse morta. Durante a guerra em seu país, ela já havia perdido vários parentes, inclusive a mãe, além do próprio pai de Möise. “Eles quebraram as costas do meu filho, quebraram o pescoço. Eu fugi do Congo para que eles não nos matassem. No entanto, eles mataram o meu filho aqui como matam em meu país. Mataram o meu filho a socos, pontapés. Mataram ele como um bicho. (…) Ele era trabalhador e muito honesto. Ganhava pouco, mas era dele. No final, chegava com parte do dinheiro e me dava para ajudar a pagar o aluguel. E reclamava, dizendo que ganhava menos que os colegas”, relatou a mãe.


REPERCUSSÃO DO CRIME

O cantor Caetano Veloso prestou condolências à família e postou uma mensagem no twitter: "Chorei hoje lendo sobre o assassinato de Moïse Mujenyi Kabagambe num quiosque na Barra da Tijuca. Que o nome do Quiosque seja Tropicália aprofunda, para mim, a dor de constatar que um refugiado da violência encontra violência no Brasil. Para mim e certamente para Gilberto Gil, Capinam, RITA LEE, Tom Zé, Sérgio Dias, Gal Costa, Arnaldo Baptista, Julio Medaglia, Manuel Barenbein... E fere a memória de Rogério Duprat, Torquato Neto, Nara Leão, Guilherme Araújo... Sobretudo a de Hélio Oiticica, que criou o termo. Tenho certeza de que a família Oiticica está comigo nessa amarga revolta. O Brasil não pode ser o que há de mesquinho e desumano em sua formação", escreveu Caetano.

O rapaz era torcedor do Flamengo. Nas redes sociais, o clube lamentou o ocorrido e prestou solidariedade aos familiares. O atacante do clube, Gabigol, também se pronunciou sobre o caso. “Esse não é o Rio que aprendi a amar e que me recebeu de braços abertos!!! Queremos justiça, não podemos normalizar crimes como esse!! Que seja feita justiça a Moïse Mugenyi e toda sua família!! Estamos juntos de vocês!!! #JusticaPorMoiseMugenyi”, escreveu o jogador.

A cantora Ludmilla afirmou que o ocorrido com Moïse foi um caso de racismo. “Mais uma vez a carne mais barata do mercado é a carne negra”, escreveu. Outras personalidades como a jogadora de vôlei Fernanda Garay, a cantora Teresa Cristina e o baterista da banda Paralamas do Sucesso, João Barone, também expressaram sua indignação nas redes pela morte do congolês.

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