AS RAÍZES DA RESISTÊNCIA: HISTÓRIA, AMEAÇAS E A ARTICULAÇÃO CONTRA A PRIVATIZAÇÃO (1985–2025) (PARTE III)
- Alexandre Costa

- 26 de fev.
- 4 min de leitura

Criada em 1985, a Trensurb nasceu para enfrentar um problema estrutural na Região Metropolitana de Porto Alegre: a ausência de integração entre cidades e a dependência quase absoluta do transporte rodoviário controlado por consórcios privados. Instalou-se, naquele momento, o primeiro conflito silencioso: um sistema ferroviário estatal eficiente representava ameaça direta aos interesses econômicos do setor de ônibus, que dominava historicamente o transporte urbano e intermunicipal no estado.
Desde o primeiro dia, a Trensurb carregou consigo uma dimensão política: ela reorganizava o espaço urbano, redistribuía circulação econômica e reduzia o poder de grupos empresariais tradicionais. E, como tantas políticas públicas estruturantes no Brasil, enfrentaria resistência permanente — institucional, econômica e subterrânea.
A Tese da Sabotagem Silenciosa: Entre a Verdade e o Interesse Político
Há mais de três décadas, circula entre urbanistas, planejadores da UFRGS, ex‑gestores estaduais e sindicalistas a tese de que empresas de ônibus influenciaram politicamente para impedir a expansão metroferroviária em Porto Alegre.
Como jornalismo responsável, é preciso separar o que é fato do que é indício.
Não existe documentação conclusiva que prove interferência direta. Mas existem muitos elementos consistentes que apontam para atuação indireta:
• sobreposição de interesses econômicos evidentes; • histórico de lobby do setor rodoviário contra modais alternativos no Brasil; • resistência das empresas de ônibus a qualquer política que reduzisse seu mercado; • engavetamento de projetos metroviários já aprovados, sem explicações técnicas; • interferências políticas coincidentes com momentos de debate sobre expansão.
Entre 1990 e 2010, pelo menos quatro projetos de expansão da Trensurb foram elaborados, estudados ou anunciados — e nenhum avançou, apesar de sua viabilidade técnica. Urbanistas da UFRGS e ex‑gestores afirmam publicamente que “havia forças econômicas contrárias ao desenvolvimento ferroviário”.
Conclusão editorial, com rigor:
Não se pode atribuir toda a paralisação às empresas de ônibus — mas é impossível negar que a ausência de expansão foi política, não técnica. E a política, nesse caso, privilegiou quem lucrava com a hegemonia dos ônibus.
A Trensurb e a Onda de Privatizações Pós‑1990: Escapando por Pouco
Durante os grandes ciclos privatistas — Collor, FHC, Temer e Bolsonaro — a Trensurb esteve repetidas vezes “na beira do abismo”.
Três momentos, porém, marcaram as fases mais perigosas:
1) 1997–1998 – O Desmonte Ferroviário Nacional
Com o governo FHC privatizando toda a malha ferroviária federal, inclusive setores estratégicos, a Trensurb escapou por apenas alguns vetos técnicos e políticos. Era o auge da entrega de ativos públicos: Vale, RFFSA, Telebras, energia. A empresa esteve a centímetros de seguir o mesmo destino.
2) 2016–2018 – O Retorno da Agenda Privatista
Após o impeachment de Dilma Rousseff, Michel Temer reativou programas de desestatização e colocou diversas empresas públicas na mira. A Trensurb voltou para a prancheta do governo, com estudos preliminares para concessão e privatização.
3) 2021–2022 – Paulo Guedes e a Formalização da Ameaça
No governo Bolsonaro, sob a lógica ultraliberal de Paulo Guedes, a privatização da Trensurb foi formalmente incluída entre os objetivos do Ministério da Economia. Técnicos chegaram a preparar modelos de concessão. A empresa permaneceu ameaçada até o último dia da gestão.
Entre 2023 e 2024, com a chegada de Lula, acreditou-se que essa agenda estaria encerrada.Mas não foi.E a surpresa deu início à fase contemporânea da resistência.
A FRENTE EM DEFESA DA TRENSURB ESTATAL (2024–2025)
Em outubro de 2024, o Sindimetrô RS lançou oficialmente a Frente em Defesa da Trensurb Estatal, reunindo sindicatos, movimentos sociais, entidades acadêmicas e organizações populares.A Frente se tornou imediatamente um marco político — e mudou o curso da disputa.
1. Um Ato Suprapartidário
A participação de parlamentares de PT, PSOL, PDT, PCdoB e movimentos sociais demonstrou que a defesa da Trensurb não era apenas corporativa:era uma causa social e popular.
2. Um Ato Técnico, Não Ideológico
Urbanistas, engenheiros, especialistas em mobilidade e técnicos da empresa apresentaram dados sólidos:
• Trensurb é mais eficiente que sistemas privatizados; • tem menor índice de falhas por km rodado; • opera com tarifa social, não comercial;
• atua como modal resiliente em enchentes e pandemias; • possui excelente custo-benefício social, com investimentos públicos retornando em mobilidade, segurança e redução do trânsito rodoviário.
3. Um Ato de Convocação Pública
A mensagem do ato foi inequívoca:
Entregar a Trensurb é entregar a mobilidade metropolitana à especulação privada.
A Frente tornou-se instrumento de articulação, resistência e informação pública.
A LINHA DO TEMPO ATÉ 2025 E A “CARTA” QUE SE TORNOU MARCO HISTÓRICO
2024–2025: O Impasse Político Definitivo
Entre o final de 2024 e o início de 2025, três fatos selaram a fase mais tensa da disputa:
1. Governo Federal mantém a Trensurb no PND
Apesar de pressões políticas e sociais, e do histórico do PT em defesa do transporte público, a empresa continuou formalmente listada para privatização.
2. Três cartas do Sindimetrô RS entregues a Lula
Os documentos pediam:
• retirada imediata da empresa do plano,
• preservação da política pública,
• abertura de diálogo técnico real.
Nenhuma resposta efetiva foi dada.
3. O Senado entra no debate
A fala de Paulo Paim, em fevereiro de 2026, apenas consolidou a nacionalização de um debate que já ganhava força desde 2025.
A Carta de 2025 — O Documento Histórico da Resistência
Em novembro de 2025, no momento de maior mobilização, foi publicada a Carta em Defesa da Trensurb Pública, assinada por:
• movimentos sociais • entidades sindicais • pesquisadores • parlamentares • usuários • técnicos • organizações humanitárias • coletivos ambientais
A Carta sintetizou 40 anos de história, alertou sobre a destruição que a privatização causaria e fez um apelo direto ao governo federal:
“Privatizar a Trensurb é destruir o único sistema de transporte que não abandona o povo em enchentes, pandemias ou crises. É transformar dignidade em lucro. É negar o direito à cidade.”
A Carta se tornou o documento central da luta recente, citado em audiências, debates, plenárias e atos públicos.
DE 1985 A 2025: A MESMA DISPUTA, UM NOVO CAPÍTULO
A história da Trensurb espelha a própria história do Brasil:um país que oscilou, e ainda oscila, entre o público e o privado, entre o interesse coletivo e o lucro empresarial, entre a soberania e a dependência.
Em 2025, defender a Trensurb é mais do que uma pauta técnica.
É: • resistência democrática,
• defesa de direitos,
• preservação da memória social,
• combate à precarização da vida urbana,
• defesa do futuro metropolitano gaúcho.
A batalha segue — e cada nova voz que se levanta afirma, sem hesitação:
A Trensurb é do povo. E privatizar é, sim, o fim da linha. CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA
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