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AS LIÇÕES DO CÂNCER, POR NORA PRADO (*)


O mês de outubro está terminando, mas, os cuidados e exames de rotina, visitas ao ginecologista e a bateria de exames para nos prevenirmos do câncer de mama e de colo do útero continua. Precisamos insistir no autoexame mensal e nos exames anuais, pois está provado que, quanto mais cedo se descobre o câncer, mais chances de curá-lo neste estágio inicial. Nestes casos a cirurgia de retirada do nódulo costuma ser menos invasiva e as terapias posteriores de quimioterapia e radioterapia são extremamente eficazes. Infelizmente o governo federal com o ministério da Saúde não tem uma agenda de conscientização nacional e contínua veiculando pelas mídias, assim como não há campanha nacional contínua para a conscientização do sexo seguro para prevenção da AIDS e para as doenças sexualmente transmissíveis. Convenhamos, se não há uma campanha de conscientização em massa nem para a vacina contra a covid 19 os cuidados com a transmissão do vírus, através do distanciamento social, que já matou mais de 600 mil brasileiros, que dirá das outras doenças?


Por isso, como sobrevivente de um câncer de mama, eu me sinto na obrigação de alertar através da própria experiência, no meu caso, muito bem-sucedida, para que outras mulheres levem a sério o autoexame e façam consultas anuais com os protocolos regulares de prevenção destes dois tipos de câncer que mais acometem milhões no mundo inteiro.


Numa noite de 2009, deitada na cama antes de dormir, passei o meu braço de raspão pelo meio do seio esquerdo e senti uma área dura. Achei estranho e comecei a apalpar o que pareceu ser um pequeno caroço. Impressionada com algo que, literalmente, parecia ter surgido “da noite para o dia” liguei imediatamente para o meu ginecologista, Giuseppe Coiro. Ele me tranquilizou dizendo que eu ligasse, na manhã seguinte, para agendar um horário de encaixe com a sua secretária. No dia seguinte, à tarde, consegui que ele me atendesse no seu consultório. Ele considerou que talvez fosse apenas uma bolinha de gordura, mas, fez os pedidos de exame de mamografia e ultrassom das mamas. Consegui agendar os exames para o sábado à tarde, logo depois de sair do curso de interpretação para vídeo que eu ministrava no Globe - Centro de Formação de atores, em São Paulo.


Assim que os exames ficaram prontos, no início da semana, eu levei para o Giusppe. Na consulta ele me disse que o exame apontava para um tumor muito pequeno lá no fundo, entre a mama e o pulmão, mas que não podia dizer se era benigno ou maligno. A bolinha que tinha surgido, bem evidente, era apenas gordura acumulada como ele suspeitava. Ponderou ser desaconselhável fazer uma punção do tumor com receio de que, se fosse mesmo maligno, pudesse escapar alguma célula na corrente sanguínea. Disse-me que o ideal seria fazermos uma cirurgia de retirada do tumor para saber, com certeza, da sua gravidade ou não. Que trataríamos da internação e da burocracia com o plano pois, eu ficaria internada, tomaria anestesia geral e seguiria os protocolos de recuperação pertinentes de acordo com o resultado do exame. Eu suava frio pensando só no pior. Perguntei o que aconteceria se fosse um tumor maligno e ele me respondeu que, dependendo do tamanho do tumor, eu precisaria fazer quimioterapia e radioterapia. Caso precisasse dos dois tratamentos eles seriam realizados com uma ginecologista muito competente e na frente do Hospital Oswaldo Cruz, onde ele operava, pertíssimo do Bairro Aclimação onde morávamos na época. Mas ele disse que como o processo estava no início eu tinha chances enormes e incontestes de sair curada completamente. Agradeci e saí da consulta com o meu coração pesado e um pressentimento de que eu tinha um câncer dentro de mim.


Nos dias que se seguiram eu e o meu marido nos concentramos em tratar dos trâmites burocráticos para a cirurgia. Gabriel é muito atento para os aspectos astrais, envolvidos em eventos desta natureza, e sugeriu que avaliássemos a data com a minha amiga e astróloga, Amanda Costa, que realmente previu aspectos conflitantes no período e sugeriu que, adiássemos para mais adiante, num período muito mais propício. E assim fizemos. Giuseppe não julgou os nossos motivos para adiar, mas disse que teríamos que adiar ainda mais, pois ele teria um congresso importantíssimo no exterior. Em comum acordo encontramos uma boa data e marcamos para o dia 28 de outubro, dois dias depois do meu aniversário. Confesso que, talvez hoje, eu não daria bola para aspectos astrológico algum e faria a cirurgia o mais breve possível pois, as semanas que se se seguiram foram um tormento interminável onde eu chorava, diariamente, embaixo do chuveiro. Me sentia péssima e atordoada, fantasiando sobre uma morte antecipada. Minha terapeuta, na época, sugeriu que eu consultasse um psiquiatra para me receitar algum calmante e um indutor de sono para passar esse período assustador.


Nunca me esqueço de como meu amado anjo Gabriel foi amoroso e gentil quando preparou uma festa surpresa para mim que, nem cogitei comemorar nada naquela época triste. No sábado, 26 de outubro, quando e as crianças acabaram cheguei do Globe, por volta das duas horas da tarde percebi uma agitação na casa e as crianças acabaram entregando o segredo de que uma festa estava em andamento. Pelas quatro horas da tarde as amigas, amigos e familiares começaram a chegar trazendo alegria e conforto para mim que me sentia como um cachorrinho acuado de medo. Lembro-me, especialmente, de Ilana Kaplan e Roberto Camargo, os dois taurinos que me sustentaram com firmeza e amorosidade, nesta tarde alegre e cheia de música. Eu tinha medo de morrer na mesa de cirurgia, mas não por causa dela, mas da anestesia geral. Eu estava muito mais ansiosa com isso. No domingo aproveitei para descansar da agitação da festa e descansar. Eu só pensava que teria que ser forte, não só por mim, mas pelos meus filhos e o homem da minha vida. Por minha vida cheia de tempo e projetos futuros.


Na segunda-feira, bem cedinho, fomos para o Oswaldo Cruz, também chamado de Hospital Alemão, e eu fiquei deitada numa cama aguardando eles finalizarem a sala do bloco cirúrgico com o camisolão enquanto assistia um programa sobre o processo de extermínio das abelhas pelos inseticidas. A enfermeira entrou para me dar um calmante que me deixou ainda mais ansiosa. Enfim, diante do rosto do Giuseppe, que eu só via os olhos atrás da máscara verde clara, disse-lhe que eu orava para que Hipócrates e todos os anjos das mais altas esferas guiassem a suas mãos para que a cirurgia fosse bem-sucedida. Ele sorriu e me garantiu que logo eu estaria me recuperando no quarto. Na hora da anestesia comecei a contar até dez, junto com ele, mas devo ter parado em cinco, adormecendo profundamente.


Acordei me sentindo estranha numa salinha de recuperação. Logo me levaram para o quarto onde vomitei uma bile verde e horrenda. Resultado da anestesia profunda. Giuseppe me explicou que retiraram todo o tumor e rasparam as bordas livres, termo médico que determina a retirada a mais da carne ao redor do tumor para impedir contaminação dos tecidos sadios. O tumor seguiria para análise numa câmara de congelamento instantâneo para depois ser fatiado em diversas parte para descobrir a sua malignidade ou não. Eu deveria dormir no hospital aquela noite e no dia seguinte voltaria para casa. No final da tarde, minha amiga Gloriete Luz e seu companheiro Bogado Lins, me visitaram trazendo amor e companhia num momento de muita apreensão. No dia seguinte fui embora com um dreno para drenar o pus ou líquidos indesejados. Lembro-me de que dei aulas no Globe indo trabalhar de tipóia para apoiar o braço, sem mochila nas costas e tomando ônibus. Pelo menos apreciava a paisagem da Av. Paulista que, no final de ano, fervia só para variar.


Na segunda-feira, de volta ao consultório do Giuseppe, percebi aliviada o trabalho caprichoso realizado por este mestre cirurgião. Não havia nenhuma marca no meu seio esquerdo, do qual retiram um quadrante, mas sequer se notava a diferença. Tenho uma ótima cicatrização e tudo estava dentro dos conformes. Ele estava com um envelope na mão e me deu a notícia: tumor maligno de nível X. Eu imaginava quando iniciaria a quimioterapia, mas ele tinha mais notícia ainda. Disse-me que a Organização Mundial da Saúde recomendava que, neste grau de malignidade, se retirassem todos os gânglios axilares, num esvaziamento preventivo caso o gânglio sentinela tivesse sido contaminado levando a doença para outas células através do sangue. Eu deveria passar por uma nova cirurgia para este fim. Ele acreditava que isso não tinha acontecido comigo, mas que ele deveria seguir as orientações sob pena de ter sua licença cassada e nenhum outro médico seguir o tratamento posterior.


E assim marcamos a nova cirurgia para o dia 30 de outubro. Um procedimento muito mais delicado, meticuloso e consequentemente mais demorado, pois ele deveria abrir a minha axila e, com extrema delicadeza, separar a musculatura, tendões, veias e retirar um por um todos os gânglios, além do sentinela. Saí de lá decepcionada e mais ansiosa ainda. Graças a Deus, a cirurgia foi um sucesso e conforme ele tinha dito, nenhum dos gânglios, nem mesmo o sentinela tinha sido infectado. A diferença e que o pós-operatório, desta vez, foi muito mais lento e dolorido. Precisei meses de fisioterapia diária, realizada pelo SESI para recuperar a amplitude geral do braço.


Iniciei a quimioterapia e tive que encarar o calvário que isso significou. Mas isso fica para outro capítulo. O importante é que eu estava viva e certamente sairia curada de todo um longo processo. Agradeço demais ao meu médico ginecologista, obstetra, e mastologista que cuidou de mim com a mesma competência com que fez os dois partos, dificílimos, dos meus filhos, Valentina e Aramis. Se há um segundo anjo em minha vida, além do Gabriel, ele se chama Giuseppe Coiro e tem além da minha profunda admiração, carinho e respeito a minha eterna gratidão.


Lembrem-se de que tudo, quando é pequeno, mesmo um tumorzinho de 1 centímetro, nossas chances de vitória são infinitamente maiores. E isso uma boa radiografia é capaz de detectar. Estou curada há mais de 12 anos e sem nenhum vestígio da doença. Neste mês de outubro lembre-se de se cuidar e passe essa mensagem adiante.

Quem se ama se cuida! Porto alegre, 28 de outubro de 2021.


(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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