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AS BRONCAS DE LULA E DE BOLSONARO CONTRA A GLOBO NÃO SÃO FARINHA DO MESMO SACO, POR CARLOS WAGNER *


Em nome do bom, velho e sempre robusto jornalismo é preciso conversar sobre as broncas do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) e do atual ocupante do cargo, Jair Bolsonaro (PL), contra a Rede Globo. Elas não são farinha do mesmo saco. Há diferenças marcantes entre elas que devem ser conhecidas pelo repórter, especialmente o jovem que está engalfinhado na correria da cobertura do dia a dia nas redações. Claro que não é possível anexar a cada notícia uma tese de doutorado. Mas pode ser demonstrado ao leitor com apenas uma palavra que o autor da notícia sabe do que está falando. A demonstração fecha espaços para o triunfo das fake news disparadas pelas milícias eletrônicas.


Vamos à conversa. Mas antes vou dar uma explicação. O que vou escrever não é opinião. São fatos que já publicamos. Vou começar por Bolsonaro. O atual presidente da República nunca escondeu de ninguém que o seu sonho que era reinstalar a ditadura militar no Brasil. Assim que a sua candidatura, em 2018, começou a ganhar musculatura com a prisão de Lula, que era seu principal adversário na disputa eleitoral, Bolsonaro foi para o pau com a Rede Globo. Chutou o balde em agosto de 2018, em uma entrevista no Jornal Nacional (JN) para os âncoras William Bonner e Renata Vasconcellos. Além de esculachar os jornalistas, lembrou o apoio que a Globo havia dado às Forças Armadas durante o golpe de 1964. Ficou furioso quando foi lembrado pelos jornalistas do JN que, em 2013, a Globo se desculpou publicamente por ter apoiado os golpistas de 64. Não foi só a Globo que mudou. O Exército, a Marinha e a Aeronáutica também haviam mudado, como escrevi no post de 21 de julho de 2018 “As Forças Armadas que o Bolsonaro defende não existem mais”. Ele não desistiu do seu sonho de derrubar as instituições. No minuto seguinte ao assumir o mandato presidencial, em 2019, Bolsonaro tratou de montar uma rede de comunicação que o apoiasse, formada pelas TVs Record e Jovem Pan, sites e uma milícia digital. Até os dias de hoje (08/02), ele já tentou dar duas vezes o golpe de estado – matérias na internet. Não teve sucesso porque as instituições funcionaram e a liberdade de imprensa protegeu os noticiários.


Pelos fatos expostos, a grande bronca de Bolsonaro com a Globo nasceu quando ele descobriu que a empresa havia mudado de lado. Foi esse um dos motivos que o levou a seguir o roteiro com a imprensa do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano). O modelo Trump de tratar a imprensa é chutar as canelas dos repórteres e pregar que as grandes empresas de comunicação têm os dias contados. Bolsonaro repetiu a ladainha de Trump, especialmente contra a Rede Globo. Em uma das suas brigas semanais com a emissora, ele lembrou à direção da empresa que em 2022, quando a concessão da TV precisará ser renovada, ele ainda estará com a caneta presidencial na mão. Todos os veículos da Rede Globo, em especial a TV aberta, colocaram o governo Bolsonaro debaixo da lente de um microscópio, uma expressão usada nas redações dos noticiários que significa estar atento a tudo que acontece.


Lula tem uma velha e uma nova bronca com a Globo. A velha vem da primeira eleição presidencial direta após a queda do regime militar que governou o país de 1964 até 1985. Foi em 1989, e foram para o segundo turno Lula e Fernando Collor de Mello (PRN-AL). Os dois candidatos tinham chance de serem eleitos, foi uma disputa apertada. Uma edição manipulada do último debate da campanha apresentada pelo Jornal Nacional, dando um viés totalmente favorável a Collor e negativo a Lula, teria sido uma das razões para a vitória do ex-governador de Alagoas com 53% dos votos válidos – há várias matérias disponíveis na internet sobre o assunto. A manipulação do debate foi mais tarde admitida, em uma entrevista, por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, vice-presidente de Operações e o todo-poderoso da Globo na época. Esse episódio foi lembrado por Lula no seu primeiro discurso depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a sentença de condenação por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex de Guarujá (SP) que foi aplicada (e confirmada em segunda instância) pelo então juiz da Operação Lava Jato, Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba (PR).


É justamente a Operação Lava Jato o motivo da segunda bronca de Lula com a Globo. Ele acusa a emissora de ter feito vistas grossas para as denúncias de manipulação dos processos, em especial o dele, por parte de Moro e do então procurador da República Deltan Dallagnol. A manipulação foi denunciada em 2019 pelo site The Intercept Brasil com a publicação das mensagens trocadas pelo aplicativo Telegram entre os dois e outros membros da força-tarefa da Lava Jato – há abundante material publicado na internet. Aqui é o seguinte. E antes de falar vou lembrar o que disse lá no começo da nossa conversa. Não estou dando opinião. Estou citando fatos. Não é só a Globo que deve desculpas a Lula. Um dos pilares da Lava Jato foi manipular a imprensa e usá-la para tornar verdade as suas acusações baseadas em meias-verdades contra os seus alvos. Lula mereceu uma atenção especial de Moro e de Dallagnol, que conseguiram mantê-lo preso por mais de 500 dias. Na época, eu fui uma das vozes que alertaram os colegas que a Lava Jato lembrava o caso da Escola de Base, o maior erro jornalístico praticado no Brasil. Na cidade de São Paulo, em 1994, a imprensa acreditou em uma investigação mal feita pela Polícia Civil e acusou os proprietários da escola, uma professora e o seu marido, de cometer abuso sexual contra os alunos. A escola foi fechada e os acusados precisaram se esconder para escapar da fúria popular. No final, ficou provado que era mentira. As empresas de comunicação foram processadas e condenadas a pagar indenizações milionárias.


O sucesso da Lava Jato em manipular os jornalistas mostrou que a imprensa brasileira não aprendeu com os erros que cometeu no caso da Escola de Base. Moro e Dallagnol usaram a concorrência entre nós pela manchete para nos ferrar. Ainda hoje, depois que Sergio Moro deixou a magistratura para virar ministro de Bolsonaro, e depois se demitiu e foi trabalhar na empresa de consultoria americana Alvarez & Marsal, que tem como clientes empresas punidas por corrupção pela Lava Jato, ainda existem nas redações jornalistas conhecidos como “as viúvas do Moro”, um grupo que aposta na candidatura do ex-juiz a presidente de República. Finalizando a nossa conversa. Vivemos tempos esquisitos e complicados. Mas a maneira de fazer o bom jornalismo não mudou. O conhecimento sobre o que estamos escrevendo continua sendo fundamental para não se publicar bobagens.


* Carlos Wagner é jornalista, repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, em São Paulo. Atualmente, Carlos Wagner é responsável pelo site Histórias Mal Contadas.

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