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Arrogância de Bolsonaro implodiu o seu governo. Milei vai pelo mesmo rumo?, por Carlos Wagner (*)

É forçar a barra especular sobre o destino do governo do presidente eleito da Argentina, Javier Milei, com base nas suas semelhanças políticas com o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Porque no início do segundo ano do seu mandato, em março de 2020, Bolsonaro escolheu como seu inimigo a Covid-19, a pandemia causada por um vírus que contaminou quase 800 milhões e matou 14 milhões de pessoas no mundo. Bolsonaro e seus ministros tornaram o negacionismo em relação ao poder de contágio e mortalidade do vírus em política de governo. Toda a história é contada no relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado da Covid-19 (CPI da Covid). São 1,3 mil páginas que apontam o ex-presidente e seus ministros como responsáveis pela morte de 700 mil brasileiros pela doença. A CPI da Covid mostrou as entranhas autoritárias do governo do ex-presidente. Muitos apoiadores de Bolsonaro não gostaram do que viram e saíram do governo por conta própria ou foram demitidos. Ficaram os militares golpistas, políticos extremistas, organizações de extrema direita e oportunistas de todos os calibres. Em 2021, havia uma fila de 153 pedidos de impeachment na gaveta do então presidente da Câmara dos Deputados. Para evitar a cassação, Bolsonaro fez um acordo com o Centrão, como é chamado o grupo de parlamentares que trocam o seu apoio no Congresso por cargos. Uma prática que se repete em todos os governos desde que o país se redemocratizou, em 1985, incluindo o do atual do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).


Bolsonaro foi derrotado pelo vírus. Restou dos planos originais do seu governo, que incluía privatizações, mudanças de leis e outras iniciativas exóticas, a desestruturação da máquina administrativa do governo federal, resultando na desarticulação da fiscalização dos crimes contra o meio ambiente. O que facilitou a aceleração da destruição da Floresta Amazônica e a invasão das terras indígenas por garimpeiros ilegais, como foi o caso da área dos yanomami na fronteira entre Roraima e a Venezuela. Atualmente, o ex-presidente já foi sentenciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à inelegibilidade de oito anos e ainda responde a uma extensa lista de processos na Justiça, investigações criminais e outras ilegalidades, como a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro, quandobolsonaristas radicalizados quebraram tudo que encontram pela frente no Palácio do Planalto, no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF), na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). Trocando em miúdos. A pandemia acelerou o processo de desintegração das várias correntes políticas que apoiavam o projeto de governo de Bolsonaro. Claro, todos ao redor do mundo, incluindo os adversários políticos de Milei, torcem para que não haja outra pandemia. Mas o conhecimento que os jornalistas brasileiros adquiriram fazendo a cobertura do governo Bolsonaro permite que façamos algumas afirmações com base em informações que começam a brotar do entorno do presidente eleito da Argentina.


Logo após a confirmação da vitória de Milei, o ex-presidente argentino Mauricio Macri (2015 a 2019) publicou um texto tranquilizando a população a respeito das promessas malucas feitas durante a campanha pelo presidente eleito, como a de acabar com o Banco Central e com os subsídios sociais. As entrelinhas do texto de Macri informam que ele assumiu a tutela política do novo presidente. Lembro o seguinte: muita gente, principalmente empresários e oficiais de alta patente das Forças Armadas, perfilaram-se entre os apoiadores de Bolsonaro por acreditar que conseguiriam controlá-lo. Não conseguiram e foram demitidos ou afastados do governo. Vai acontecer o mesmo com Milei? Se Macri conseguir negociar a sustenção do governo com os parlamentares ele tem chance de ser a eminência parda do governo. Caso contrário será atropelado pela vice-presidente, a advogada Victoria Villarruel. Ela defende que a única maneira de implantar as mudanças propostas por Milei é ter um governo de força. Em outras palavras, uma ditadura militar nos moldes da que governou o país de 1976 a 1983. Villarruel tem ligações com os militares golpistas daquele período e com a extrema direita. Tratei desse assunto no post do dia 7/11 Perca ou ganhe as eleições argentinas, Milei vai complicar a vida do governo brasileiro. A vice-presidente pode tentar articular a volta dos generais ao poder. Mas a possibilidade de que tal coisa aconteça é mínima porque, ao contrário do Brasil, onde houve uma lei de anistia que deixou livre os militares que deram o golpe em 1964, os argentinos colocaram na cadeia os responsáveis pela derrubada do governo em 1976. Mais ainda, os militares argentinos entregaram o poder, em 1983, desmoralizados com a derrota na Guerra das Malvinas (1982) para os britânicos – há abundância de matérias, documentários e pesquisas disponíveis na internet. Mas isso não significa que a simples menção do assunto não ajude a tumultuar o ambiente político. Lembro que no governo Bolsonaro a velocidade dos acontecimentos era tal que a cobertura mais parecia uma montanha-russa. Em mesma manhã os noticiários tinham três ou quatro manchetes fortes. O governo de Milei vai ser uma montanha-russa?


De todas as promessas feitas por Milei a que tem o maior poder de desestabilizar o seu governo, caso não seja cumprida, é a dolarização da economia. Por quê? No governo do presidente Carlos Menem (1989 a 1999) havia paridade entre o dólar americano e o peso argentino. Durante a paridade, os argentinos viajaram pelo mundo inteiro a turismo. Lembro-me de tê-los encontrado em Cuba, no México e em vários outros países da América do Sul. Nas praias de Santa Catarina compraram uma grande quantidade de imóveis. E durante as férias ficavam nos melhores hotéis. Foi uma farra. Esse período ficou na memória da população. Tecnicamente, economistas dizem que é impossível dolarizar a economia argentina pelo simples motivo que o país não tem reservas cambiais para isso. Mas se por um milagre conseguir, Milei cairá nas graças da população e poderá fazer a besteira que quiser. Claro, até estourar a bolha, como aconteceu no governo Menem. Dias interessantes vêm por aí.



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