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ARI PROMOVE CINE-DEBATE, NESTA QUINTA (13/8) PARA MARCAR OS 60 ANOS DO ASSASSINATO DO SARGENTO MANOEL RAYMUNDO SOARES

POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINA DEMOCRÁTICA

Preso e torturado por agentes da repressão em 1966, militar teve o corpo encontrado no Rio Jacuí com as mãos amarradas. Sessenta anos depois, documentário e debate em Porto Alegre recuperam um dos casos emblemáticos da violência de Estado durante a ditadura.

Sessenta anos depois, as mãos amarradas de Manoel Raymundo Soares permanecem como uma das imagens mais brutais dos primeiros anos da ditadura militar brasileira. Preso em Porto Alegre em março de 1966, o sargento do Exército permaneceu durante meses sob custódia dos órgãos de repressão. Passou pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), onde foi torturado, e pela Ilha do Presídio, no Guaíba. Em 13 de agosto daquele ano, foi retirado da ilha e levado novamente ao DOPS. Não retornaria. Onze dias depois, em 24 de agosto, seu corpo foi encontrado no Rio Jacuí, com as mãos amarradas às costas e sinais de violência.[1][2]

O assassinato entrou para a história como o “Caso das Mãos Amarradas”.

Nesta quinta-feira, 13 de agosto, às 19h, exatamente 60 anos depois de Manoel ter sido retirado da Ilha do Presídio e entregue novamente aos agentes da repressão, a Associação Riograndense de Imprensa (ARI) promove um cine-debate para recuperar sua trajetória e discutir um crime que atravessou décadas de investigações, processos judiciais e luta por memória, verdade e justiça.[3] O encontro será realizado na sede da ARI, na Avenida Borges de Medeiros, 915, 8º andar, no Centro Histórico de Porto Alegre.[3]

QUEM FOI MANOEL RAYMUNDO SOARES

Nascido em Belém, no Pará, em 15 de março de 1936, Manoel Raymundo Soares ingressou no Exército em 1955 e chegou à graduação de segundo-sargento. Tornou-se uma das lideranças do movimento dos sargentos e, após o golpe de 1964, participou da organização da resistência ao regime militar.[1]

Ligado politicamente ao ex-governador Leonel Brizola, passou a viver na clandestinidade depois do golpe.[1]

Em 11 de março de 1966, foi preso em Porto Alegre, nas proximidades do Auditório Araújo Vianna. O próprio Tribunal Regional Federal da 4ª Região registra que Manoel foi detido pela Polícia do Exército e levado ao DOPS, onde sofreu torturas durante aproximadamente uma semana, antes de ser transferido para a Ilha do Presídio.[2]

Durante a prisão, conseguiu enviar cartas à esposa, Elizabeth Chalupp Soares — Betinha.

Essas correspondências se tornariam documentos fundamentais para reconstruir sua prisão e demonstrar que Manoel permanecia sob custódia do Estado, apesar das negativas oficiais.[2]

TORTURADO ATÉ A MORTE NO DOPS

Em 13 de agosto de 1966, Manoel foi retirado da Ilha do Presídio e novamente conduzido ao DOPS.[1][2] A versão oficial sustentava que ele teria sido libertado. As investigações posteriores desmontaram essa narrativa. O relatório produzido pelo então promotor de Justiça Paulo Cláudio Tovo reuniu depoimentos e evidências sobre as torturas sofridas pelo sargento e sobre sua permanência nas dependências do DOPS. A investigação apontou a participação de agentes da repressão no crime.[1]

O TRF4, ao recuperar historicamente o processo décadas depois, registra de forma direta que, em 13 de agosto, Manoel foi levado novamente ao DOPS, torturado e assassinado.[2]

Seu corpo somente seria localizado em 24 de agosto, boiando no Rio Jacuí.

Estava com as mãos amarradas às costas.[1][2]

O crime provocou enorme repercussão. O caso foi investigado pelo Ministério Público e tornou-se objeto de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. A documentação produzida por essas investigações seria decisiva, décadas depois, para o reconhecimento judicial da responsabilidade da União.[1][2]

“MANOEL E BETINHA”: A HISTÓRIA PELAS CARTAS

É justamente a dimensão humana dessa história que estará no centro do cine-debate promovido pela ARI. O encontro terá a exibição do curta-metragem documental “Manoel e Betinha”, dirigido por Marta Haas e com roteiro desenvolvido em parceria com Pedro Isaias Lucas.[3]

Com cerca de 15 minutos, o filme recupera a clandestinidade, a prisão, a tortura e as consequências da morte do sargento a partir também da relação entre Manoel e Betinha e das cartas preservadas pela família.[3] As correspondências permitem observar o Caso das Mãos Amarradas para além dos documentos policiais e judiciais.

Por trás do personagem histórico havia um homem submetido à prisão e à tortura, uma mulher que procurava desesperadamente informações sobre o marido e uma relação afetiva atravessada pela violência política. As cartas acabariam assumindo também importância jurídica. Quando o processo movido por Betinha contra a União chegou ao TRF4, quatro delas foram lidas durante o julgamento. Os documentos mostravam que Manoel orientava a esposa a buscar habeas corpus enquanto permanecia preso — justamente quando as autoridades negavam oficialmente sua prisão.[2]


UM CRIME INVESTIGADO DURANTE DÉCADAS

Participará do debate o jornalista e escritor Rafael Guimaraens, autor de “O Sargento, o Marechal e o Faquir”, publicado em 2016. Resultado de extensa pesquisa sobre o Caso das Mãos Amarradas, o livro reconstrói a trajetória de Manoel, a prisão, as torturas, o assassinato e as investigações posteriores. Também recupera o cenário político de Porto Alegre naquele março de 1966, quando o então presidente Humberto Castelo Branco visitava a cidade.[4]

A investigação de Guimaraens aborda ainda a participação do faquir e cenógrafo Edu Rodrigues, apontado como informante da repressão e personagem da armadilha que levou à prisão do sargento.[4] A obra recebeu em 2017 o Prêmio Ages, da Associação Gaúcha de Escritores, na categoria Não Ficção.[4] Também participa do cine-debate o desembargador João Batista Tovo. A mediação será da jornalista e presidente da ARI, Cláudia Coutinho.[3]

BETINHA CONTRA A UNIÃO

A história do Caso das Mãos Amarradas não terminou nas águas do Jacuí.

Elizabeth Chalupp Soares iniciou em 1973 uma ação contra a União. Pediu pensão, ressarcimento das despesas com o funeral e indenização por danos materiais e morais.[2]

Começava uma batalha judicial que atravessaria décadas.

Em dezembro de 2000, a Justiça Federal reconheceu o direito da viúva à indenização. A União recorreu. Em 12 de setembro de 2005, a 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região rejeitou, por unanimidade, o recurso da União e manteve a condenação.[2] A decisão assegurou a Betinha pensão vitalícia retroativa a 13 de agosto de 1966, calculada sobre a remuneração integral de segundo-sargento, além da indenização por danos morais.[2]

O julgamento tornou-se tão significativo que, anos depois, o próprio TRF4 o incluiu entre as decisões históricas da instituição.[2] Documentos que haviam atravessado décadas — entre eles o Relatório Tovo, o relatório da CPI da Assembleia Legislativa e as cartas enviadas por Manoel à esposa — foram fundamentais para a decisão judicial.[2]

IMPUNIDADE

Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre reconhecer a responsabilidade do Estado e responsabilizar criminalmente aqueles que praticaram o crime. A União foi condenada a reparar civilmente Elizabeth Chalupp Soares. Mas os responsáveis pelo assassinato não foram punidos criminalmente. O próprio TRF4 registra que o caso, apesar da enorme repercussão, não teve culpados responsabilizados pelo Poder Judiciário estadual.[5]

A ficha oficial mantida pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos registra que o Relatório Tovo e a CPI da Assembleia Legislativa comprovaram as torturas sofridas por Manoel e apontaram integrantes do aparato repressivo envolvidos no caso.[1]

É justamente essa distância entre verdade histórica, reparação e responsabilização que mantém o Caso das Mãos Amarradas como uma questão ainda presente na democracia brasileira.

POR QUE ISSO IMPORTA 60 ANOS DEPOIS

O cine-debate da ARI recupera a história de um homem assassinado há seis décadas

e também um período em que estruturas do Estado brasileiro foram utilizadas para prender clandestinamente, torturar e eliminar adversários políticos. Relembrar a história tem sido uma garantia para que o crime não desapareça.

Betinha preservou as cartas. O promotor Paulo Cláudio Tovo investigou, a imprensa tornou o caso público, a Assembleia Legislativa instalou uma CPI, pesquisadores, jornalistas, historiadores, cineastas e familiares continuam reconstruindo a história, que responsabilizou o Estado pelo assassinato do sargento.


Preservar a memória faz parte de uma construção coletiva, fundamental para que depois de 60 anos, a história seja resgatada e todo país possa saber o que realmente aconteceu com Manoel Raymundo Soares. O corpo com as mãos amarradas encontrado nas águas do Jacuí, em agosto de 1966, transformaram-se em símbolo da ditadura militar e da violência do Estado.

Revisitar o Caso das Mãos Amarradas, portanto, significa fazer três perguntas que continuam atuais: Quem foi responsável? Por que ninguém foi criminalmente punido? E o que uma democracia precisa fazer para impedir que crimes praticados pelo próprio Estado sejam esquecidos?

SERVIÇO

CINE-DEBATE — 60 ANOS DO CASO DAS MÃOS AMARRADAS

Data: quinta-feira, 13 de agosto de 2026Horário: 19hLocal: Associação Riograndense de Imprensa (ARI)Endereço: Avenida Borges de Medeiros, 915, 8º andar — Centro Histórico — Porto AlegreExibição: Manoel e Betinha, de Marta HaasDebate: Rafael Guimaraens e João Batista TovoMediação: Cláudia Coutinho

FONTES PARA CHECAGEM

[1] COMISSÃO ESPECIAL SOBRE MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS (CEMDP) — MANOEL RAIMUNDO SOARES

O que comprova: trajetória de Manoel; militância política; prisão; passagem pelo DOPS e Ilha do Presídio; torturas; retirada da ilha em 13 de agosto; localização do corpo; Caso das Mãos Amarradas; investigações; Relatório Tovo; CPI e agentes apontados nas apurações. https://cemdp.mdh.gov.br/modules/desaparecidos/acervo/ficha/cid/123

[2] TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO — “CASO DAS MÃOS AMARRADAS”

O que comprova: prisão em março de 1966; tortura no DOPS; transferência para a Ilha do Presídio; retorno ao DOPS em 13 de agosto; tortura e assassinato; corpo encontrado em 24 de agosto; cartas enviadas a Betinha; ação iniciada em 1973; sentença de 2000; julgamento de 2005; pensão vitalícia e indenização; responsabilidade da União.

[3] BRASIL DE FATO RS — CINE-DEBATE DOS 60 ANOS DO CASO DAS MÃOS AMARRADAS

O que comprova: realização do evento em 13 de agosto de 2026; exibição de Manoel e Betinha; participação de Marta Haas no filme; presença de Rafael Guimaraens e João Batista Tovo no debate; mediação de Cláudia Coutinho e programação relacionada aos 60 anos do caso.

[4] EDITORA LIBRETOS — “O SARGENTO, O MARECHAL E O FAQUIR”, DE RAFAEL GUIMARAENS

O que comprova: publicação do livro em 2016; pesquisa sobre Manoel Raymundo Soares; contexto da prisão; presença de Castelo Branco em Porto Alegre; participação de Edu Rodrigues; cartas enviadas da Ilha do Presídio; características da obra e Prêmio Ages de Não Ficção em 2017. https://www.libretos.com.br/editora-libretos-loja/areas/nao-ficcao/o-sargento-o-marechal-e-o-faquir-2.html

[5] TRF4 — DOCUMENTAÇÃO SOBRE A SENTENÇA E A AUSÊNCIA DE RESPONSABILIZAÇÃO CRIMINAL

O que comprova: importância do Relatório Tovo, da CPI da Assembleia Legislativa e do inquérito para a sentença; repercussão histórica do crime; registro de que os culpados não foram responsabilizados pelo Judiciário estadual.

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JORNALISTA RESPONSÁVEL: ALEXANDRE COSTA 
FILIADO AO SINDJORS E ASSOCIADO À ARI

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