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AOS MESTRES COM CARINHO, POR NORA PRADO (*)


Nesta última terça-feira estive no lançamento do livro Luiz Paulo Vasconcellos - Maestro Soberano, por ocasião do aniversário de 80 anos deste homem de Teatro que tanto fez pelas artes cênicas gaúchas. Diretor, ator, autor, tradutor e grande professor do DAD - Departamento de Artes Dramáticas da UFRGS onde eu estudei e me formei, assim como inúmeros colegas e amigos que seguem na profissão até hoje. Uma verdadeira festa no foyer do Theatro São Pedro com direito a um bate papo informal com ele, sua companheira, a atriz Sandra Dani, e o diretor e escritor, Luciano Alabarse, mediados por Fernando Zugno. Após algumas revelações notáveis dos tempos da ditadura militar, entre outras, passamos para a fila de autógrafos cada qual com os eu exemplar na mão. Luiz Paulo, como sempre, elegante e afetuoso, recebia cada um dos que vinham homenageá-lo com sua discrição e bom humor característicos. Eu, minha mãe e meu filho saímos de lá contentes da vida por participarmos de uma pequena parte desta lenda viva do teatro local.

Luiz Paulo Vasconcellos foi meu professor na escola e, dele e Sandra, eu guardo as melhores lembranças. Ele por sua tranquila e firme orientação nos meandros da análise do drama ou comédia, personagens, conflitos, subtexto e toda a urdidura complexa de cada obra. Ela, pela acolhida amorosa e apaixonada pelo ofício, a que sempre se entregou de corpo e alma, seja atuando ou ensinando. Duas referências de talento, ética e comprometimento incondicional com a profissão.

Ontem li o livro inteiro, numa sentada, ali no meu cantinho da leitura preferido, sentada confortavelmente na minha poltrona vermelha ao lado da ampla janela com a vista para o verde do jardim do nosso quarto. Fiquei muito impressionada e comovida em diversas passagens. Algumas por ter assistido e outras por perceber a importância histórica do acontecimento. À noite, antes de dormir, ainda sob o impacto da leitura, fui passando em revista todos os mestres de quem fui aluna na escola e, me dei conta que merecem a minha gratidão explícita, mesmo os que já se foram deste mundo e habitam outras dimensões. Como é o caso de Ivo Bender, Sérgio Silva, Irene Brietzkie, Maria Lúcia Raimundo e Solange Uflaker.

Ingressei no DAD em fevereiro de 1983 depois de passar em nono lugar para apenas 12 vagas naquele ano. Logo me familiarizei com aquele espaço onde minha mãe me levava para assistir espetáculos que compunham a grade de opções teatrais regulares na cidade e, um deles, me despertou especial interesse: Escola de Mulheres. Texto de Molière com direção de Luiz Paulo Vasconcellos com João Pedro Gil e Nirce Levin, que se destacavam num belo elenco de jovens e talentosos atores. Lembro-me do frisson causado na plateia quando entrava a trilha dos Beatles nas trocas de cena e os atores se moviam de acordo com o ritmo, moderno, criando um contraponto inesperado com o tempo medieval no qual se passa a ação. Espetáculo dinâmico, arrojado e muito engraçado eu saí de lá nas nuvens de felicidade e já sabia que eu queria ser atriz. Meu sonho começava a se realizar e eu seguia instintivamente os passos de vários dos meus heróis e heroínas que eu, antes, via em cena.


Ivo Bender dava aulas de Teatro Grego com extrema propriedade e uma desenvoltura cativante. Lemos todas as principais obras dos maiores dramaturgos ocidentais, do período clássico grego, sempre sob a sua orientação minuciosa e a profundidade com que esse belo homem de olhos azuis, intensos, descortinava a vida e os mistérios do teatro. Lemos, inclusive, as suas próprias obras inspiradas nestes mestres da civilização ocidental. Ele também analisou conosco a obra de Nélson Rodrigues, nosso maior dramaturgo, com grande interesse e admiração. Adorava encontrá-lo nas proximidades do DAD, no bar da esquina tomando um cafezinho e perceber a elegância daquele gentleman. Um dos atores mais lindos e talentosos da sua geração.


Sérgio Silva foi meu professor de teoria dramática e, sob a sua preciosa orientação, descortinamos grande parte da monumental obra de William Shakespeare, um luxo! Sérgio falava pausadamente, dando ênfase nas palavras que julgava importantes e fumava bastante, numa época em que isso era normal, mesmo em ambientes fechados. Era muito espirituoso e, muitas vezes, debochado. Foi amor à primeira vista. Ainda enquanto sua aluna ele me convidou para alguns filmes que ele dirigiu. Nostalgia, onde fiz apenas uma ponta e, depois, como protagonista de Festa de Casamento e O Zépelim Passou por Aqui. Pelo primeiro curta-metragem recebi o troféu Guarnice no 17º Festival de Cinema de São Luiz do Maranhão e pelo segundo, ganhei o Troféu Candango no 23º Festival de Cinema de Brasília. Duas conquistas que devo a ele pela sua firme e sensível direção. Nos reencontramos no Festival de Cinema e Vídeo de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 2003, quando eu fui jurada e ele passava fora da mostra competitiva com seu belo Festa de São João. Infelizmente nos deixou, precocemente, depois de lutar contra um câncer.


Solange Uflaker foi nossa professora de Figurino e tínhamos aulas no Instituto de Artes, local onde havia muitos estudantes de artes plásticas e seus ateliês de pintura, gravura, escultura e local de ensino musical. Um ambiente estimulante e pleno de cor e música. Ela era bem séria, exigente e reservada, mas igualmente interessante e provocativa. Na época eu era muito dispersiva e imatura e não pude aproveitar melhor o meu potencial. Mesmo assim, ela adorou a escultura de arame que eu produzi, sozinha, para vestir com os figurinos propostos ao longo do semestre. Ela tinha uma cultura geral fabulosa e era muito competente na sua matéria.


Irene Brietzkie era um furacão, uma das mulheres mais exuberantes e criativas que eu conheci e cuja rizada, contagiante, e o espírito de humor felliniano, aliada à sua sagacidade, transformavam qualquer ambiente. Foi minha professora de Direção e ensinava de um modo simples, objetivo, claro e direto. Sua pedagogia e didática sempre valorizava o aluno, fortalecendo-o nas suas habilidades e criticando suas limitações ou equívocos, com serenidade, de modo a incentivá-lo a crescer. Lembro-me de que fui colega de Ilana Kaplan e Luciene Adami, com quem ria muito nas aulas da Irene nesta época. Todos amávamos a nossa divertida e dedicada professora.


Sandra Dani foi um oásis de afetividade, sensibilidade e muita produtividade. Já era sua fã, de carteirinha, desde quando fui sua aluna e de Irene, num Curso Livre de Teatro de Extensão Universitária em 1979. Posteriormente, assistia aos ensaios de Salão Grená e outras peças que a Irene a dirigia e ficava sempre babando pelas suas atuações emocionais e arrebatadoras. Sandra aliava expressão corporal e exercícios com animais para auxiliar na composição das personagens. Sempre atenta a cada aluno para extrair ao máximo o melhor de cada um. Fui sua aluna de Interpretação e Maquilagem, e ela se revelou uma verdadeira expert no metier no qual atuava com capricho e desenvoltura.


Uma das figuras mais queridas desta época foi nossa professora de Expressão Corporal, Carmem Lenora. Já a conhecia dos palcos onde atuava ao lado de Suzana Saldanha, Sérgio Lulkin, Elton Manganelli, Simone Castiel e tantos outros sob a direção de Luiz Arthur Nunes, com quem, infelizmente, não tive a sorte de estudar. Carmem também fazia assistência para Maria Amélia, excelente professora de dança que formou centenas de bailarinos e muitos atores, cuja técnica de alongamento fazia sucesso na cidade, ali no seu amplo Stúdio na Vinte e Quatro de Outubro e que eu tive o privilégio de ser sua aluna. Carmem também trabalhava com música ao vivo e tínhamos um pianista tocando piano durante as aulas, uma maravilha! Ela trabalhava com máscara confeccionada por nós e propunha ações ousadas e interessantes sempre ampliando o nosso repertório sensorial, gestual e corporal. Lembro-me com carinho de uma anjinha barroca que ela fazia numa performance do Luiz Arthur, que já era uma referência em um teatro mais experimental. Nunca mais a vi pela cidade nem pelas redes sociais, um encanto de pessoa.


Graça Nunes foi uma experiência à parte, primeiro porque tive uma convivência estreita por anos, afinal ela dava aulas de Evolução do Espetáculo I,II,III, IV, V e tantas quantas houvessem e, segundo, pela sua capacidade de enxergar aquilo que narrava. Suas aulas eram lotadas de colegas ávidos por anotar tudo que a sua metralhadora vocal narrava com gosto e intensidade, como se ela fosse uma testemunha ocular da história. Impressionante! Que prazer assistir suas verdadeiras performances, sentada ou andando pela sala, descansando numa perna, se apoiando no tampo da mesa, fumando de modo elegante e com seu olhar penetrante. Presença carismática com a qual ela monopolizava todas as atenções em sala de aula. Lembro-me com especial afeição do período soviético que ela narrava com colorido de imagens espetaculares sobre as encenações de Stanislavsky, Danchenko e Meyerhold. Graça era uma gaivota, um pássaro raro, nos trazendo notícias de todos os tempos da história teatral com sabor de quem sabia do que falava, um portento!


Outra grande figura que ensinava com gosto e competência foi a professora de técnica vocal, voz falada e cantada, Marlene Goidanich. Suas aulas eram muito interessantes e toda a prática estava solidamente embasada em teorias que ela dominava como ninguém. Fazia com exatidão metódica tudo o que nos ensinava e exigia. Seus grandes olhos azuis esverdeados brilhavam enquanto fazia as demonstrações práticas de cada novo exercício que, nós, tratávamos de copiar. Tinha um fôlego impressionante e lembro-me com prazer dos seus concertos de música medieval e dos instrumentos diferentes que o seu grupo utilizava. Uma mestra que transmitia o seu conhecimento sem reservas.


Havia também o Flavio Mainieri, homem muito bonito, que lecionava alguma cadeira relacionada com estética da arte. Aquariano provocativo e inteligente sempre suscitava polêmicas em sala de aula e alimentava muitas discussões acaloradas entre os alunos.


Beto Ruas foi fundamental para que eu voasse com maior liberdade e autonomia ao propor que eu atuasse como atriz do saudoso, Hermes Mancilha, na montagem interna de Dorotéia de Nélson Rodrigues. Um cara prático e muito objetivo que oportunizou belos momentos em cena com meus colegas de curso.

Lembro-me do meu primeiro dia de aula com o Irion Nolasco e Maria Lúcia Raimundo, casal recém de volta de uma longa estadia em Paris onde fizeram suas graduações e estavam investigando novas propostas de abordagem sobre o treinamento do ator. Era uma cadeira que misturava elementos das artes cênicas, artes visuais e música, sensacional! Irion era muito amoroso, bonachão, contudo, sem perder a firmeza e o rigor necessário. Maria Lúcia era uma baixinha espevitada, alegre, intensa e cheia de vida que ensinava com paixão e generosidade. Na sequência montaram um grupo de pesquisa com vários alunos do DAD que resultou em trabalhos lindos e impactantes. Ainda tive a sorte de ser sua colega de elenco na montagem de Crônica da Cidade Pequena, com o grupo TEAR e sob a direção de Maria Helena Lopes. Observar Lucinha trabalhando era um privilégio e aprendi muito com a sua entrega sem limites. Infelizmente essa grande atriz teve uma grave complicação cirúrgica, de onde nunca mais retornou, vivendo em coma permanente por muitos anos. Uma tragédia com a qual seu amado Irion e, seu único filho Diego, lidaram como heróis. Que ela esteja na luz ao lado dos Deuses no Panteão do Teatro que é onde ela merece luzir.

Finalmente, devo mencionar minha maior mestra e fonte de inspiração: Maria Helena Lopes. Já a conhecia e a admirava, sem saber, desde os meus 12 anos de idade quando assisti FLICTS de Ziraldo numa bela adaptação cheia de vida e magia no Teatro do Centro Israelita em Porto Alegre. Lembro-me, claramente, da impressão poderosa ao ver o personagem Flicts em busca dos seus pares numa epopéia imensa, vivida pelo ator Claudio Levitan, remando no oceano, depois tentando entrar numa caixa de lápis até finalmente se reconhecer na cor da lua. Foi muito comovente e inesquecível. Lena tinha retornado de Paris onde fizera a escola Le Coq, e trazia sua rica experiência de bailarina e grande artista que sempre foi, conjugada ao aprendizado sistemático e minucioso do grande mestre francês, Jacques Lecoq. Tinha feito um enorme sucesso com Quem Manda na Banda, espetáculo infanto juvenil e, na sequência, Os Reis Vagabundos, que foi amplamente premiado e reconhecido como um dos grandes trabalhos sobre a linguagem do clown que ela introduziu no Brasil, com grande repercussão no Rio de Janeiro e São Paulo e influenciando uma nova geração de atores e encenadores para esta linguagem específica. É desta época que o diretor Antunes Filho a conheceu e se tornou seu admirador. Lena dava aulas de improvisação e fiz diversos módulos com ela. Sempre séria, precisa nas suas instruções, discreta e reservada, mas firme e rigorosa como diretora. Sua presença intimidava e muitas vezes até bloqueava os atores. No entanto, essa mesma provocação era capaz de retirar diamantes que ela, laboriosa e pacientemente, cultivava e tratava de polir revelando verdadeiros tesouros. Fui sua aluna e, na sequência, tive a sorte de integrar o elenco para criação de Crônica da Cidade Pequena, a partir de uma sequência gigantesca de ensaios na base da improvisação sobre a obra de Gabriel Garcia Marques, Crônica de uma Morte Anunciada. O esforço dela e do grupo TEAR foi coroado de êxito em temporadas com casas lotadas em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, onde estreamos a convite de Antunes Filho no Teatro Anchieta, com críticas deslumbrantes de Sábato Magaldi e Mariangela Alves de Lima. Sucesso que nos rendeu também o Prêmio Governo do Estado de São Paulo para Maria Helena Lopes, uma glória!

Segui com o TEAR e a Lena por 8 anos fazendo a minha formação dentro e fora da escola com ela. Fizemos Na Piscina, Império da Cobiça, La Serva Padrona, PARTITURAS: Os Atos, As Palavras, As Metáforas e Kaldway, A Farsa do Convidado Trapalhão. Sem dúvida minha maior referência e aprendizado na arte da Improvisação.


Me formei só em 1990, pois tive que trancar alguns semestres ou cursar pouquíssimas cadeiras em função de viagens como Grupo Tear. Valeu a pena. Ansiosa e dispersiva, como eu era e ainda sou, creio que foi melhor assim para decantar tantas experiências que, de outro modo, minha fome de viver talvez não permitisse assimilar em maior profundidade.


Hoje sigo na carreira, atuando e dando aulas, pois nutro imensa paixão por ensinar, assim como vários colegas que hoje integram o novo corpo docente da escola. A eles e elas desejo boa sorte e a todos os novos atores e atrizes que seguem bebendo na tradição infinita, rica e fértil do Teatro! Gratidão aos Mestres e Evoé jovens artistas!


Porto Alegre, 24 de março de 2022.


(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

2 Comments


Denise Sabbeannt
Denise Sabbeannt
Mar 27, 2022

Como foi bom ler sobre grande parte da históriado teatro gaúcho! E aprender com o texto!!!

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José Silva
José Silva
Mar 24, 2022

Excelente comentário. Na verdade, uma aula emocionada sobre alguns dos principais nomes do teatro gaúcho (e não só) das últimas décadas.

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