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ANA CAÑAS: "QUANDO OLHO PRA TRÁS E PENSO NO AGORA, CANTANDO BELCHIOR, TUDO FAZ SENTIDO"

O texto que a cantora e compositora Ana Cañas postou no facebook na segunda-feira (2/5) remonta um pouco da sua história e as muitas dificuldades enfrentadas até conquistar seu espaço na música brasileira. Impossível não se emocionar com as narrativas e os desafios descritos por esta paulistana que em setembro completa 42 anos de vida. Cañas fez referência aos cinco anos da morte de Belchior, que nos deixou aos 70 anos. “Canta Belchior” é um projeto que nasceu de uma live com canções do compositor cearense e posteriormente virou um álbum. Dirigido pela própria Ana Cañas, o espetáculo traz clássicos como “Alucinação”, “Sujeito de Sorte”, “Coração Selvagem” e “Como Nossos Pais”.

Segue abaixo o texto da Ana Cañas, respeitando seu estilo em relação à grafia e a opção por não usar letras maiúsculas. eu comecei a cantar pra sobreviver. saí de casa muito cedo por conta de uma treta com a minha mãe (ficamos 10 anos sem nos falar) e fui correr esse mundo de meu deus sozinha com medo e coragem.


fui morar num pensionato. meu quarto não tinha janela e os ratos me faziam companhia no forro do teto à noite. nessa época, eu distribuía panfleto em farol, amostra grátis em supermercados e vendia coxinha. tinha dia que era só um prato de arroz com limão ou duas batatas pra comer.


um dia, um amigo me ligou perguntando se eu sabia cantar. eu disse que talvez e ele me mandou decorar uma música da billie holiday e outra da ella fiztgerald. era tanto perrengue que eu decorei até o scat da ella ahaha.


passei no teste do bar e fui contratada. quase sem roupa pra cantar, iniciei uma jornada pelos bares de são paulo, quando eu colava cartaz de folha sulfite nos banheiros pra divulgar meus shows - não tinha internet e o bagulho era roots.


um dia, fui parar no baretto e o mário edson (pianista de 70 anos que tinha tocado no beco das garrafas e na baiúca) me contratou. fiquei dois anos lá a fiz a melhor faculdade de música que existe, a noite.


o show era uma aventura maravilhosa. um dia entrei pra cantar e o chico buarque (!!!) tava sentado do lado do piano me esperando entrar. eu tremia e a minha alma saiu do corpo naquele dia. cantei pra ele "retrato em branco e preto" e não consegui acreditar que aquilo tinha acontecido.

aí começaram a aparecer as gravadoras e eu peguei um avião pela primeira vez para assinar um contrato. quando olho pra trás e penso no agora, cantando belchior, tudo faz sentido.


para além da sua poesia que me atravessa como nenhuma outra, ele chegou a dormir numa construção aqui em são paulo e lutou muito para construir sua história.


ontem, fez 5 anos que ele nos deixou (aos 70 anos) e fiquei aqui pensativa e recolhendo fotos da minha história. para quem escreveu "eu sou como você, que me ouve agora", faz total sentido que essa verdade arrebate todos que a ouvem.


a vida é bem lôka mas a arte e a música estão aí para sublimar e transformar tudo ("e pela dor eu descobri o poder da alegria"). o amor é o que vale.


só temos, de verdade, o que damos.



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