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A substituição de Aras na PGR segue o roteiro do bode na sala, por Carlos Wagner*


No meio do ano, quando vi começar a ganhar corpo nos noticiários a possibilidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reconduzir ao cargo o procurador-geral da República, Augusto Aras, meu primeiro pensamento foi de que se tratava de algum engraçadinho soltando um balão de ensaio, um termo usado pelos repórteres para descrever boatos que são espalhados com a intenção de verificar a reação pública a uma determinada situação. Mudei de ideia quando vi dirigentes de peso do PT, como o senador Jaques Wagner, líder do governo, elogiando Aras, que foi indicado ao cargo duas vezes (2019 a 2023) pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em agosto de 2021, escrevi o post Diferença entre os procuradores Aras e Brindeiro, o engavetador-geral da República. Geraldo Brindeiro (1948-2021) foi indicado procurador-geral da República três vezes (1995 a 2003) pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP). Ganhou o apelido na imprensa de engavetador-geral da República por ter recebido 626 inquéritos criminais, engavetado 242 e arquivado outros 217. Os inquéritos envolviam 194 deputados, 33 senadores e 11 ministros. Ainda não se tem disponíveis os números de Aras, que virou as costas para os crimes que o governo Bolsonaro cometeu durante a pandemia da Covid-19. A Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado da Covid-19 (CPI da Covid), no seu relatório final de 1,3 mil páginas, colocou as digitais do governo do ex-presidente na morte de 700 mil brasileiros pelo vírus.

Além do relatório da CPI da Covid, Aras também fez vistas grossas para dezenas de outras lambanças feitas pelo governo, como a tentativa de golpe de estado em 7 de setembro de 2022, Dia da Independência. Pelo seu perfil de trabalho na PGR, Aras era para estar sendo criticado pelo novo governo. Por que, além de não ser criticado, vem sendo incentivado por governistas a disputar a indicação de Lula para permanecer à frente da Procuradoria-Geral da República (PGR)? Demorei um pouco para compreender a situação. Depois de longas conversas com fontes acabei entendendo. Um pouco antes de surgir a história de Aras, Lula falou que não iria indicar um dos nomes da lista tríplice de candidatos ao cargo que recebeu da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). No seu primeiro governo, iniciado em 2003, ficou acertado que a ANPR faria uma eleição entre 10 candidatos a PGR e passaria os nomes dos três mais votados para o presidente escolher um deles. A lista entregue a Lula incluía os procuradores Mário Bonaglia (465 votos), Luiza Frischeisen (526) e José Adonis (407). Bolsonaro também virou as costas para a lista tríplice que lhe foi enviada pela ANPR. Assim que se anunciou que não indicaria os nomes da lista da ANPR, Lula recebeu chumbo grosso dos seus aliados, em especial do PT. E foi no auge das críticas que começou a aparecer e ganhar corpo na imprensa a chance de Aras ser escolhido. Imediatamente, o assunto da lista da ANPR desapareceu das manchetes e foi substituído pelas andanças do procurador-geral para convencer o presidente a reconduzi-lo ao cargo. O mandato de Aras acabou na última terça-feira, 26 de setembro, e ele foi substituído interinamente pela subprocuradora-geral Elizete Maria de Paiva Ramos. Vários nomes estão sendo citados na imprensa que podem ser indicados para a PGR. A história da lista tríplice virou nota de rodapé nos jornais. A conclusão é que a história de Aras ter chance de ganhar um novo mandato era o bode na sala, o que significa que foi criado um novo grande problema para abafar o da lista tríplice – há várias boas explicações sobre o “bode na sala” na internet.

Existe um caminhão de explicações feitas pelos analistas políticos sobre as razões de Lula virar as costas para a lista da ANPR. A minha preferida é a seguinte. A marca registrada dos outros dois governos do presidente da República foi de que ele não sabia o que acontecia ao seu redor. E a sua dependência dos assessores de confiança que o rodeavam era enorme. Ninguém me contou sobre isso. Falei com muita gente que fazia parte do círculo de pessoas com quem Lula conversava sobre os problemas. Lula mudou. Hoje, ele faz questão de alardear aos quatro ventos que sabe tudo que acontece. Tem o controle sobre o seu governo. E está demonstrando isso na escolha do PGR e também da pessoa que substituirá a ministra Rosa Weber, que se aposentou do Supremo Tribunal Federal (STF). Nos próximos dois meses conheceremos os substitutos de Aras e Rosa Weber. Mas como eles conduzirão o seu trabalho só saberemos com o andar da carroça. Há uma questão no atual governo que a imprensa tem apenas tangenciado. Mas que merece ser vista mais de perto pelos repórteres. Essa questão foi lembrada durante uma entrevista na GloboNews da filósofa, escritora e professora da USP Marilena Chaui. Ela disse que uma coisa foi quando Lula recebeu o governo de Fernando Henrique Cardoso. O país estava organizado e todas as instituições funcionando. Outra coisa foi ter recebido de Bolsonaro, com a administração federal complemente desorganizada. Eu acrescento mais um fato. No final da primeira semana do seu governo, Lula enfrentou uma tentativa de golpe de estado, quando bolsonaristas radicalizados quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no Congresso e no STF. E não passa uma semana sem que apareça uma novidade sobre o 8 de janeiro, a data do quebra-quebra em Brasília. Sabe-se lá o que ainda vem pela frente.

Para finalizar a nossa conversa. O fato é o seguinte. Lula é um político experiente, que nasceu na luta sindical. Pelo que fala, ele tem noção do tamanho do problema que herdou do ex-presidente. Eu sou um velho repórter, 73 anos, que nos últimos 40 anos viajou por todos os cantos do Brasil e de vários países vizinhos cobrindo conflitos agrários, crime organizado e migrações. A liberdade de imprensa foi fundamental para derrotar a tentativa de golpe em 8 de janeiro. Apesar de todas as limitações, como excesso de trabalho, baixos salários e pouco investimento em grandes reportagens, os jovens repórteres que fazem a cobertura do dia a dia nas redações estão fazendo um bom trabalho. O que é uma garantia para o futuro do país.

(*) Carlos Wagner é jornalista, repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, em São Paulo. Atualmente, Carlos Wagner é responsável pelo site Histórias Mal Contadas.


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