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A festa de mais uma ressurreição de José Dirceu, por Moisés Mendes*

Quem foi ao aniversário do ex-ministro testemunhou e avalizou etapa decisiva do seu retorno ao ativismo político, escreve o colunista Moisés Mendes

José Dirceu (Foto: Lula Marques)

José Dirceu fez 78 anos e reuniu 200 convidados na casa de um amigo em Brasília. Os jornalões publicaram a notícia com certa naturalidade, contrariando até quem esperava o contrário.


Contaram que foi um evento bonito e alegre, com gente de esquerda, centro, direita velhas e novas, centrão. Apareceram o vice Geraldo Alckmin, sete ministros, incluindo Fernando Haddad e José Múcio, mais Arthur Lira, Guilherme Boulos, o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, o diretor de política monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, e quatro pré-candidatos à presidência da Câmara.


Comeram e beberam, ouviram uma banda de rock e testemunharam, na casa do advogado Marcos Meira, um momento que, agregado a outros, deve marcar o retorno de Dirceu ao ativismo com exposição pública, porque ele já vem atuando na política de bastidores há muito tempo.


A festa foi organizada porque sabiam que seria o que acabou sendo. O aniversariante foi investigado, preso preventivamente, indiciado, processado e preso de novo, já condenado. Foi beneficiado pela anulação de sentenças e está à espera de decisões do Supremo para outros recursos. Mas não interessa aqui debater penas e hermenêuticas justas ou tortas.


Que os juristas se encarreguem disso, inclusive os lavajatistas. O que importa é observar a dimensão política do fato. Uma festa pode afugentar muita gente, às vezes muito mais do que atrair convidados.


Até mesmo encontros reservados afugentam. Quem foi à festa conseguiu ver e sair dizendo que Dirceu está politicamente vivo. Por isso foi até lá. Agora, é só calibrar seu retorno à boca de cena.


Que outro nome, tendo passado pelo que passou, conseguiria reunir 200 figuras importantes de Brasília numa festa de aniversário, em meio à tentativa de rearticulação do fascismo e dos ataques das corporações de mídia?


Quem imaginou que Alckmin iria um dia a uma festa de Zé Dirceu? E que os pré-candidatos a comandar a Câmara a partir de fevereiro de 2025 iriam lá beijar sua mão?


José Dirceu não merece que digam a seu respeito o clichê batido de que está se reinventando. O que estamos vendo é mais uma ressurreição de quem já ressuscitou várias vezes desde a ditadura.


Em 2018, Dirceu saiu pelo Brasil para lançar o primeiro volume do seu livro de memórias, pela Geração Editorial. Esteve em Porto Alegre no dia 21 de novembro. Lotou o auditório da Federação dos Bancários com mais de 300 pessoas.


Fez uma fala anunciando o que depois iria parecer previsível: Bolsonaro faria um governo autoritário e tentaria se manter no poder a qualquer custo. Apesar da derrota recente do PT com Haddad, e com Lula preso, Dirceu transmitia vitalidade.


No dia seguinte, participou de um encontro com umas 20 pessoas, numa sala da sede do PT municipal, convidadas pelo então presidente do partido, Rodrigo Dilelio. Ali, o que se viu (eu estava nesse grupo) foi um homem abatido, mas que também anunciava: vamos resistir.


Dirceu havia sido preso de novo em maio de 2018 e solto, por liminar, um mês depois. Diziam em Porto Alegre e por onde passasse que poderia voltar a ser encarcerado a qualquer momento.


Na sala da reunião, alguém brincou e perguntou se havia uma porta para a fuga pelos fundos do prédio. Pois Dirceu seria preso de novo, em maio de 2019, por ordem do Tribunal Regional da 4ª Região, para cumprir oito anos e 10 meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.


Foi liberado no dia 8 de novembro do mesmo ano, poucas horas depois da libertação de Lula, por decisão do STF que derrubou as prisões após condenação em segunda instância. Há pelo menos dois anos, vem se dedicando ao que sempre soube fazer.


Dirceu é um fazedor de política, e os que estiveram no aniversário sabem que ele está de volta como protagonista, ou não teriam chegado nem perto da festa.


Se decidir e puder ser candidato a deputado federal em 2026, com a eventual anulação de condenações, corre o risco de ter a maior votação da história para a Câmara em São Paulo.

E a partir daí, se for para a linha de frente da luta antifascista e de reconstrução das esquerdas, pode contar cada ano como cinco anos de rejuvenescimento e ressurreição. Bom retorno, José Dirceu de Oliveira e Silva.



* Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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