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A CURA PELA DANÇA, POR NORA PRADO (*)


Ontem à noite tive a felicidade de assistir ao vivo, o que já tinha visto, on line, em plena pandemia. Eu e minha mãe ganhamos ingressos de presente, da querida Esther Pillar Grossi, para assistirmos CURA, o mais recente trabalho de Deborah Colker com a sua Cia. de Dança, pelas comemorações do Teatro do SESI em Porto Alegre. Reencontrar amigas e amigos queridos, no saguão do teatro foi um prazer à parte, pois dá a dimensão do distanciamento físico experimentado com tristeza ao longo da extensa quarentena.


Já tinha me emocionado e escrito sobre a experiência profunda deste espetáculo, que parte de uma dor e impotência da artista frente à uma síndrome rara do seu neto, Théo, que tem epidermólise bolhosa. Não imaginava que pudesse voltar ao tema, mas assistir ao vivo, com a edição da própria mente é outra história. Além de receber o impacto da presença dos corpos e da cenografia ao vivo, escutar a música em modo estéreo e imersivo, dentro de um teatro, faz a diferença para muito melhor. As sutilezas da belíssima trilha sonora criada por Carlinhos Brown, fluem como água, cantam como passarinhos e todos os sons da mata, da floresta, entram e dançam como o vento e as estripulias de Iansã varrendo o palco na respiração dos bailarinos e na coreografia ritmada de um conjunto de 14 intérpretes vigorosos e coesos.


Um dos espetáculos mais brasileiros, desta coreógrafa formidável, se apoia na mitologia africana e indígena, valendo-se da simplicidade e encontrando soluções estéticas que evocam desde o terreiro de matriz africana com Obaluaê da vasta galeria dos Orixás, até o muro das lamentações de Jerusalém num sincretismo religioso típico de um Brasil miscigenado e diverso em seus aspectos culturais estruturantes. Nossa identificação sensorial afetiva é imediata. Somos tragados por esta espiral ancestral de modo emocional e lúdico. Há tormento, dor, inconformismo e revolta; há tentativas mil para se livrar da peste, da doença, do tormento que atordoa o corpo e o espírito. Mas há solidariedade, sensibilidade, acolhimento, afeto e encantamento. Há celebração do encontro, entendimento, compreensão e festa. Há celebração da vida mais forte que a morte, poesia mudando a sorte e a magia dos corpos dançando cada momento decisivo da vida, pontuando os ritos de passagem na teia cósmica universal.


Não há como não lembrar da Amazônia agonizando frente as queimadas e exploração inescrupulosa da terra, dos indígenas perseguidos e mortos pela ganância do homem branco, dos mais de 650 mil brasileiros mortos pela pandemia, pelo descaso e omissão do governo genocida. Impossível não lembrar das guerras, da barbárie moderna escravizando sociedades inteiras, destruindo países, oprimindo os povos como na guerra da Rússia contra Ucrânia. Há este apelo fundamental ao sentimento de solidariedade, que nutre a porção sadia dos seres para a colaboração e fraternidade, para a celebração do espaço comum da natureza e da vida em sociedade.

Este é o maior presente que a arte pode nos dar, a possibilidade de rever uma mesma obra e, ainda assim, descobrir novos sentidos e razões antes despercebidas. Deborah Colker provoca a catarse no público, gerando purificação, purgação e libertação. A cura é um processo, leva tempo e exige dedicação. É o que todos precisamos para depois de 4 anos com um psicopata no poder, neste tormento nacional, e depois de dois anos de quarentena mundial. É preciso semear a paz, não a guerra.


Deborah talvez pretendesse falar apenas para o seu neto, mas ao investigar profundamente a sua dor, revelou muito mais para todos nós. Há beleza e possibilidade de cura, há a potência rubra da vida convocando a festa no bater do coração, das palmas e dos corpos ritmados em comunhão. Há o poder fulminante da arte capaz de agregar e gerar empatia, sensibilidade e generosidade entre os seres. Essa é a festa proposta por Deborah e seus bailarinos sagrados, seu terreiro e nosso salão podem ser aqui e agora, basta querer. Ainda é tempo de se construir um mundo melhor para todos!

Porto Alegre, 18 de março de 2022. (*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

1 Comment


Me arrepie e emocionei. Sempre Nora Prado. Poeta . Sensível e perspicaz. Do individual pro universal. A cura da palavra, do movimento da arte. Da celebração do encontro. Pela vida. Sempre.

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