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A CURA PELA BRASILIDADE NO TERREIRO DE DEBORAH COLKER, POR NORA PRADO (*)


Aproveitando a abertura do novo espetáculo da coreógrafa e bailarina Deborah Colker, através da Globo Play, pude me encantar com sua mais recente criação impregnada da essência e ancestralidade brasileira. Numa espécie de resgate cultural e histórico, necessário, para recompor o tecido estético e sensorial do Brasil, jogado literalmente nas 600 mil covas abertas ao longo da pandemia, nos milhões devolvidos abaixo da linha da miséria, nas filas intermináveis de desempregados mendigando um posto de trabalho e na absoluta falta de horizonte e perspectiva, deixadas por este governo obsceno e genocida, Cura, surge como um bálsamo restaurador da ordem natural quebrada e a possibilidade de dar sentido ao caos.


Deborah nos presenteia com o que há de mais potente e vital na cultura dos nossos povos originários e o legado africano, impresso em corpos escravizados, feridos, explorados e humilhados à exaustão, mas, que ainda assim resistem e são capazes de transformarem dor em potência e arte. Numa composição em que utiliza pouquíssimos elementos cenográficos, ela usa e abusa da arquitetura dos corpos dos seus bailarinos que esbanjam técnica, vigor e ritmo ao longo dessa viagem, deslumbrante, embalada pela trilha musical de Carlinhos Brown.


Na abertura há grandes totens suspensos, feitos de fibras naturais, por onde os bailarinos se escondem por dentro e ao redor, numa dança primitiva, evocando nossas divindades da floresta e os ritos do candomblé. Podemos associar, de imediato, a figura do Omolú, orixá da doença e da cura. Os bailarinos vestem malhas vermelhas e usam máscaras que cobrem as cabeças, como se fossem pajés, seres míticos ou divindades que preparam a magia que será narrada no terreiro. Ao final, os totens caem no chão e a viagem segue com intensidade e surpreendente despojamento. Os bailarinos também retiram parte do traje inicial e ficam expostos em seus corpos avermelhados, como se fosse sangue, lembrando a nossa floresta tropical devastada, nossas tribos perseguidas e suas terras arrasadas. Reconhecemos essas imagens e sentimentos por livre associação, numa poética sensorial carregada de simbolismo e emoção, pois não há qualquer intensão panfletária ou mensagem explícita na obra.

É preciso destacar que o equilíbrio entre a captação das imagens de diferentes planos e recortes, combinadas numa edição enxuta e harmoniosa, possibilita uma fruição contínua e sem sensação de corte. Puro deleite visual.

Em dado momento, entram em cena duas rampas de madeira por onde os bailarinos evoluem a coreografia densa e múltipla como as fibras das nossas matas e florestas. Esses dois módulos servem de um espaço inclinado onde a estabilidade dos corpos é posta em xeque o tempo inteiro, produzindo novos modos de se mover num equilíbrio delicado e efêmero. Ao fim deste segundo ato, os módulos se unem num grande plano inclinado que figura ao fundo da cena que se desenvolve a frente dela. Uma mulher e um homem estendem um pano branco, estreito e comprido, por onde vão compondo uma espécie de ritual. Depois, um novo par de bailarinos utiliza as infinitas possibilidades de usar esse manto imenso. Sobre o plano inclinado são projetadas palavras e surgem bailarinos que deslizam sobre a rampa. Uma nova coreografia surge entremeada às palavras e os corpos.


Um grupo de bailarinos dança conduzindo uma bailarina sobre os seus corpos como se fosse o chão onde ela pisa. Enquanto isso, outros bailarinos vão empilhando módulos, como caixas, até erguerem um grande muro ao fundo da cena.


Num dos momentos mais dramáticos do espetáculo, um por um, vão se postando a frente e de costas para o muro numa frisa humana. A coreografia que se segue inicia de modo extremamente simples e ritmado e, aos poucos, ganha em força e contundência à medida que os bailarinos também cantam junto com os tambores no ritmo da música. Vão evoluindo e alterando a frisa inicial até estarem soltos, novamente, no grande espaço do palco-terreiro. Na sequência, os bailarinos vão desmanchando o muro e dispondo as peças numa nova ordem, compondo totens com uma caixa em cima da outra. Entram agora, vestindo túnicas que lembram vestes africanas e se movem com mais exuberância e alegria numa celebração que vai aumentando a sua intensidade pontuada por palmas e todos cantando a plenos pulmões. A luz amarela sugere uma aura dourada sobre os corpos potentes de energia, vitalidade e beleza num frenesi de contentamento e glória. Mais uma vez os bailarinos redistribuem os blocos pelo espaço e seguem nessa louvação febril a vida.


O espetáculo, um dos mais belos da carreira desta inovadora mestra da dança brasileira, merece ser visto por todos nós que nos sentimos vivendo a beira do abismo, cada dia mais propensos ao pessimismo e a fatalidade. Mais que um grito de denúncia ou revolta, Cura é um mote de liberdade, louvação ao sonho, a esperança e uma profunda fé na vida, em nossa sublime capacidade transformadora. Uma obra de arte digna de figurar nos palcos do mundo inteiro como contribuição artística da melhor qualidade. Revela a maturidade de uma artista na sua incansável busca pelo essencial.


Embora o mote inicial para a criação deste trabalho tenha sido a doença do neto de Deborah, que sofre de uma doença genética rara, “epidermólise bolhosa”, as alusões à ciência e a cura estão no cerne da obra, mas extrapolam essa especificidade e contemplam a busca pela cura, tanto da covid 19 quanto pelo mal-estar geral da civilização, cada dia mais narcisista e egoísta, sem o espírito de empatia e solidariedade necessário a sobrevivência e o equilíbrio social em grupo. Ao fim dessa beleza estética e poética, chegamos ao essencial e óbvio mas, talvez, por isso mesmo, permaneça oculto. Não há salvação individual possível, a saída sempre será coletiva. A arte é capaz de nos conectar enquanto espécie sensível e inteligente, nos reunindo em torno do que realmente importa nessa vida. Os encontros, o amor, amizade e a fraternidade entre os povos, a cooperação para os problemas comuns e a celebração da vida. Sem isso estamos sujeitos a barbárie e ao completo aniquilamento.


Viva Deborah Colker e a sua excelente companhia que nos lança ao terreiro brasileiro com a possibilidade da cura através da arte, da dança e do encontro genuíno entre seres humanos! Afoxé Jeje Nagô!

Porto Alegre, 26 de setembro de 2021.


(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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