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A CRISE CLIMÁTICA É O NOSSO METEORO, POR NORA PRADO (*)

Assisti ao filme da vez que está monopolizando as atenções nas mídias sociais desde o seu lançamento pela Netflix, Não Olhe para Cima. Já tinha lido comentários favoráveis e desfavoráveis, mas claro, gostaria de assistir para tirar as minhas conclusões. No domingo eu, meu marido e nosso filho, que tem necessidades especiais, assistimos com prazer ao retrato mais fiel do que se pode chamar de “nossa contemporaneidade”.

A trama se passa toda nos Estados Unidos e gira em torno das evidências científicas e a negação das próprias autoridades que deveriam tomar providência imediatas para deter o meteoro gigante, mas criam um clima de descrédito diante desta advertência e resolvem manipular a opinião pública através da grande mídia. Em tom de comédia vemos a sociedade de consumo e da cultura de massas corroborar para uma polarização estúpida enquanto a presidente tira partido político frente a sua incompetência e franca queda nas intenções de voto para as próximas eleições.


Com um elenco de peso e interpretações convincentes o filme trata da descoberta de uma jovem cientista de um cometa gigantesco em rota de colisão com a terra e que provocará a destruição em massa de praticamente todos os continentes. As evidências são confirmadas pelo seu professor e seus pares que, depois de fazerem os cálculos rigorosos de quanto tempo as autoridades terráqueas têm para pensar estratégias de desviar ou diminuir o impacto eminente do cometa, chegam à conclusão de que lhes restam apenas seis meses. A partir daí, uma série de absurdos em série passam a dominar o enredo numa crítica aos interesses políticos e econômicos que suplantam o bom senso e inviabilizam a tomada de decisões para salvar o planeta e a humanidade.


Numa guerra injusta e abusiva, evidente que a ciência sai prejudicada em favor de especulações bilionárias de uma corporação que, entre outras coisas, fabrica celulares e computadores. O empresário desta multinacional acaba interferindo nos planos de bombardeamento do meteoro numa ação conjunta pela NASA pois, descobriram que no núcleo do meteoro há matéria prima para os componentes dos seus produtos em escala inédita e que representa bilhões de lucros para a empresa. O plano de bombardeamento é abortado e o empresário em conluio como poder de estado passa a comandar as operações através da tecnologia de ponta que fará extração do minério ainda em pleno espaço. Claro que seus esforços gananciosos dão com os burros na água e ele, junto com a presidente e mais um seleto clube de bilionários saem de cena numa nave particular dentro de câmaras criogênicas em direção ao espaço fugindo da catástrofe derradeira. Sem tempo hábil para explodir o meteoro e reduzir os seus estragos, aos terráqueos só restam os instantes finais para aproveitarem o que for possível.


Não irei mais adiante para não tirar a graça de descobrir o final, mas é evidente que da terra, mesmo, nada sobra.


A mensagem clara é de que a opinião pública, a classe científica e as forças políticas progressistas nada fazem ou pouco podem fazer quando a inércia e a falta de respostas unificadas e contundentes frente as ameaças ao planeta não se articulam para valer. Sem um apoio em união planetária, em favor das evidências científicas e em prol do bem comum, seguiremos no papel de marionetes manipulados estrategicamente em função dos interesses das minorias que seguem controlando o estilo de vida na terra.


Obviamente a cultura de massas e a comunicação rasteira colaboram para esse processo de alienação coletiva e anestesia geral. Mas é preciso uma reação à altura da ganância e perversidade destes oportunistas inescrupulosos.


O esgotamento dos recursos naturais da terra não poderia dar sinais mais claros de que já ultrapassamos os limites do tolerável na exploração deles. A devastação da Amazônia com as queimadas e a destruição, sem precedentes, deste biossistema para criação de gado e plantação de monoculturas estão acelerando as secas e a crise climática. Fome e desastres ambientais como inundações, tsunamis, terremotos, maremotos, tufões, além do aquecimento global e diminuição das calotas polares são sinais claros de que sequer precisaremos de um meteoro, a metáfora é evidente: nós produzimos o nosso meteoro particular que já está em curso devastando o nosso planeta sem que qualquer reação enérgica em sentido contrário tenha sido feita.


Já deveríamos ter interrompido a produção de carbono que jogamos na atmosfera diariamente contribuindo para o nosso envenenamento que, aliado ao uso descontrolado dos pesticidas, está poluindo a atmosfera em proporções absurdas. Já deveríamos estar utilizando na prática o uso sustentável da terra, zerando a extração de madeira e do garimpo em terras indígenas e quilombolas, punido severamente os responsáveis pelas queimadas e destruição das florestas, fazendo o reflorestamento na Amazônia. Já deveríamos estar taxando as grandes fortunas e investindo estes recursos de modo inteligente em cidades sustentáveis, em saúde e educação de qualidade para todos. Deveríamos estar salvando a nossa casa da extinção que se anuncia cada dia mais sem retorno.


Para algumas críticas de que o filme não era engraçado, era muito longo e chato, só posso concluir que essas pessoas, provavelmente, se reconheceram demasiadamente na história, que por sinal leva o tempo necessário para discorrer sobre as questões relativas ao capitalismo selvagem que tem tornando a vida na terra uma bomba relógio.


Uma comédia sim, mas não um pastelão, uma crítica na qual o riso se dá por alívio em reconhecimento do nosso papel na história. Tragicomédia seria mais justo, no entanto devo concordar que é muito chato descobrir que a resposta para o nosso meteoro está nas nossas mãos no nosso voto consciente e na nossa pressão diária por um mundo possível e para todos.


A propósito das lições da nossa ativista Greta Thumberg, nunca é demais nos lembrar de que não há planeta B. A catástrofe já começou e cabe a nós interrompermos o meteoro. No caso específico parar o presidente é a nossa primeira providência. Vamos à luta! “Quem sabe faz a hora não espera acontecer!”


Porto Alegre, 3 de janeiro de 2022.


(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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