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É lição de casa da imprensa esmiuçar os 50 dias de fuga dos presos de Mossoró, por Carlos Wagner*

Qual é o tamanho do poder de fogo e das articulações políticas das grandes organizações criminosas no Brasil? Essas perguntas começaram a ser respondidas com a prisão, na última quinta-feira (4/4), dos dois fugitivos da Penitenciária de Segurança Máxima de Mossoró (RN). Rogério Mendonça, 36 anos, e Deibson Nascimento, 34 anos, dois líderes da facção Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, escaparam na madrugada de 14 de fevereiro, tornando-se os primeiros a fugir de um presídio federal. Foram capturados 50 dias depois, em Marabá, no Pará, 1,6 mil quilômetros distantes de Mossoró, depois de serem perseguidos por uma das maiores e mais bem equipadas forças-tarefas policiais já formadas no Brasil, integrada por 500 agentes, e que custou ao governo R$ 6 milhões, uma mixaria para os cofres públicos tendo em vista o que estava em jogo: a credibilidade do sistema carcerário federal de segurança máxima, que é composto por cinco penitenciárias, onde está presa a nata das organizações criminosas mais letais do país.


E foi justamente pelo governo federal não ter poupado dinheiro e recursos humanos e materiais na busca dos fugitivos que os acontecimentos desses 50 dias representam uma enorme e importante quantidade de informações que precisam ser esmiuçadas para se ter uma ideia de com quem e com o que estamos lidando. Vamos a nossa conversa. No início do caso existiam duas teses para explicar as fugas: a primeira é que tinha sido organizada pelos líderes do CV. Portanto, teria a parceria de agentes carcerários. Nesse caso, as possibilidades da captura eram pequenas, porque certamente haveria um grupo de plantão no lado de fora da penitenciária esperando os fugitivos para tirá-los da região. A segunda tese era de que as fugas tinham acontecido graças ao somatório de uma série de falhas na execução dos protocolos de segurança da penitenciária que foram aproveitadas pelos dois experientes bandidos. Mendonça responde a 50 processos e já foi condenado a 74 anos de cadeia. Nascimento responde a 30 processos e está sentenciado a uma pena de 30 anos. Em 2023, os dois foram transferidos do Presídio Antônio Amaro Alves, em Rio Branco (AC), para a Penitenciária de Mossoró por terem liderado uma rebelião. No caso de ter acontecido essa segunda hipótese, a força-tarefa teria chances reais de recapturá-los, porque eles ainda estariam na região, tentando fugir. Falei sobre essas duas teses em 16 de fevereiro, no post Fuga dos presos de Mossoró afeta a credibilidade das penitenciárias federais? Uma semana antes da prisão, o Ministério da Justiça e Segurança Pública concluiu a investigação sobre a fuga e não encontrou envolvimento criminoso dos funcionários. Mas uma série de negligências no cumprimento dos protocolos da penitenciária. Em consequência da investigação foi demitido o diretor do presídio, Humberto Gleydson Fontinele. Resumindo: depois de fugirem, Mendonça e Nascimento estavam por sua conta. Como conseguiram sobreviver por 50 dias sendo perseguidos por uma força-tarefa policial de 500 agentes equipados com tecnologia de ponta e recursos econômicos ilimitados para cumprir a missão? Os especialistas apontam vários fatores para a longa sobrevivência dos fugitivos, vou destacar os que considero fundamentais.


Começando pelo treinamento que Mendonça e Nascimento tiveram para se esconder de equipamentos de alta tecnologia, como drones, raios infravermelhos e outras parafernálias eletrônicas. Vou lembrar ao leitor que nos primeiros dias da fuga foi descoberto um buraco no chão, usado pelos bandidos para dormir à noite e não serem descobertos por drones equipados com raios infravermelhos. Como também para escapar dos agentes usando óculos de visão noturna. Eles não aprenderam como evitar serem detectados por esses equipamentos no Google. Já publicamos matérias mostrando que as organizações criminosas, como o CV, se valem de consultores, ex-militares e mercenários para treinar os seus quadros no uso das modernas tecnologias e também como escapar de serem descobertos pela parafernália eletrônica usadas pelos agentes da lei. Outro assunto que considero importante é o seguinte. Por tudo que publicamos nas duas primeiras semanas, os foragidos dependeram exclusivamente de suas capacidades físicas e intelectuais para sobreviver. A partir daí começaram a ser apoiados por uma rede de pessoas, dinheiro e equipamentos que os mantiveram protegidos. A rede de apoio foi organizada e mantida funcionando pela cúpula do CV. A polícia prendeu pelo menos 10 pessoas dessa rede. Aqui cabe uma reflexão. Acompanho essa organização criminosa desde a década 90, quando o seu líder maior, Luís Fernando da Costa, 57 anos, o Fernandinho Beira-Mar, estava foragido na cidade paraguaia de Capitán Bado, separada por uma avenida do município de Coronel Sapucaia, no oeste do Mato Grosso do Sul. Ele é um dos presos da Penitenciária de Mossoró. É de se perguntar. A rede que o CV usou para proteger os dois foragidos vai ser simplesmente desmontada? Já que, além de Beira-Mar, há outros líderes da organização presos em Mossoró. Muito embora essa fuga não tenha sido planejada, como indicam até agora as investigações, mostra que é possível escapar das cadeias federais. Lembro que há um bom tempo temos publicado nos jornais a descoberta de planos de fuga das cinco penitenciárias federais envolvendo líderes do CV e do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo. Nos dias atuais, as penitenciárias federais são uma grande solução que os governos dos estados têm para retirar dos seus superlotados sistemas penitenciários os chefões do CV, do PCC e das organizações criminosas locais. Se não fosse essa solução, a taxa de criminalidade nos estados do sul do Brasil explodiria.


Portanto, se por um lado as penitenciárias federais são uma solução para os governos dos estados, elas são um problema para as organizações criminosas, que estão expandindo o seu poder diariamente. Por exemplo, a capilaridade do CV e do PCC em todo o território nacional e nas fronteiras com os países vizinhos tem sido garantida pela associação com os grupos locais de foras da lei. A imprensa não pode perder uma oportunidade de qualificar as informações que divulga sobre o confronto entre o governo federal e as organizações criminosas. Vejo uma oportunidade em adquirir esse conhecimento fazendo uma autopsia dos fatos que aconteceram durante os 50 dias em que os dois fugitivos de Mossoró conseguiram escapar de uma força-tarefa policial equipada com tecnologia de ponta e fartos recursos econômicos.


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